ACONTECIMENTOS RELACIONADOS [COM] O COMÍCIO DO CDS NO DIA 11 DE ABRIL DE 1976 NA PRAÇA HUMBERTO DELGADO NO PORTO (MANUSCRITO)

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O ARQUIVO é muito rico em relatórios originais sobre os eventos de 1974-6, principalmente no Porto. Faziam parte duma espécie de “serviços de informação” que começou a funcionar no PCP(ML) / Norte, e depois continuou por inércia durante mais algum tempo, já depois da dissolução da organização. Este é um desses documentos manuscritos que foi transcrito por Maria Faustino. Fizeram-se mínimas correcções de ortografia. no original

Convocatória do comício do CDS, Porto, 11 de Abril de 1976.

Acontecimentos relacionados Comício CDS, 11/4, 17.30, P.H Delgado – Porto

 

– Às 16.30 soube que 1 grupo de 30 ou 40 CDS tinha descido até à P. da Liberdade, tinha havido uma confrontação (paus de bandeira, matracas – da parte dos CDS) e no meio de tudo ouviu-se um tiro, tendo então dispersado toda a gente. Segundo me disseram, o tiro partiu do grupo de CDS, não se sabendo se era de pistola de alarme ou fogo real.

– Durante toda a tarde até ao comício, foi distribuída a tarjeta da UDP em diversos pontos da baixa.

– Desde as 17 h, estão-se a concentrar CDSs na P. H. Delgado. Às 17.15, gritam histericamente pela instalação sonora “Sugerimos a 1 grupo de jovens CDSs embandeirados que desçam os Aliados até à Praça e torne a subir até aqui. Uma afirmação CDS!!“ – Isto tinha nitidos intuitos provocatórios, tanto + que os “jovens CDSs” (uns 3.000 ou +) gritaram, entre outras coisas, “Morte ao Comunismo!”. Os cartazes da UDP, PRP, etc, colocados na Estàtua da Praça foram rasgados. Entretanto, ouviam-se marchas militares, o hino do CDS, o da JC, etc. De vez em quando palavras de ordem, todas de carácter triunfalista: “O povo vai votar e o CDS vai ganhar!”, “Em frente lutar, o CDS vai ganhar!”

– Por volta das 18h, a P.H. Delgado está cheia, assim como os passeios da faixa central dos Aliados até quase à sede do “Grito do Povo”. Ainda estão a chegar pessoas.

– Composição social predominante:

– burguesia, c/ destaque para os meninos das zonas “elegantes” da cidade

– há algumas pessoas c/ aspecto de empregados, e bastantes que, pelo modo de vestir, e por virem em grupos c/ grandes sacos na mão, se vê que vêm de fora, provavel/ de localidades do Norte, já que houve camionetas que efectuaram o transporte exclusivo de pessoas para o comício, conforme foi dito a certa altura pelo tipo que gritava as palavras de ordem.

– Não assisti à parte das intervenções do comício nem ao que se passou na P. da Liberdade até cerca das 20.00h.

– Eis o que pude apurar, a partir do que me contaram várias pessoas (versões concordantes no essencial):

Depois de terminado o comício, elementos do CDS vieram até à Praça, onde estavam grupos de pessoas em princípio adversas ao CDS. Uns CDSs foram ter c/ a policia (1 carrinha, c/ 8 ou 10 policias de G3), a pedir proteção contra 1 eventual agressão, e outros desataram a apedrejar as pessoas, sendo respondidos, como é lógico. O confronto começou [?] a generalizar-se, e a polícia, protegendo os CDS, dispersa as pessoas, ocupando a faixa central da Praça da Liberdade (40-50 policias, de capacete e bastão).

– A partir daqui, assisti pessoalmente:

Por volta das 20.00h, as pessoas concentram-se nos passeios circundantes da Praça, ficando os chuis no meio (à volta da Estátua)

Na esquina do BNU, um grupo de pessoas grita palavras de ordem contra o CDS e a PSP, 1 elemento adianta-se um pouco, separando-se do grupo, e é preso e metido numa carrinha. Ouve-se gritar de todos os lados “Morte ao fascismo!”, “Morte à PSP!”, embora ninguém se mostre disposto a atacar principalmente os chuis.

1 ou 2 minutos depois, há uma carga de policia contra os que estávamos em frente ao BNU; lançaram 2 ou 3 granadas de lacrimogéneo, forçando-nos a fugir por Sampaio Bruno.

– Por volta das 20.15h, chego à P. D. João I, onde já está um grande grupo de militantes da UDP, a gritar palavras de ordem, as pessoas que vão chegando juntam-se ao grupo, e um elemento de megafone diz que se vai organizar uma manif.

Esta, c/ 1 grande bandeira vermelha (s/ + nada) à frente, dirige-se à Praça da Liberdade, subindo depois até à Praça H. Delgado, e descendo de novo. São queimadas 2 ou 3 bandeiras do CDS, 1 monte de comunicados, e a banda do CDS de 1 lado ao outro   da P.H. Delgado. Palavras de ordem:

“Morte ao fascismo, lib. para o povo!”

“CDS assassino do Padre Maximino!”

“Morte ao ELP e a quem o apoiar!”

“A Praça é do povo, não é dos fascistas!”

Quando a manifestação se aproxima da Praça, grita-se “A praça da Liberdade é dos anti-fascistas!” (aliás, a certa altura – não reparei quando – aparece 1 banda pintada à pressa c/ esta última p. de ordem à frente da manif.) Esta deve ter entre 2.000 – 2.500 pessoas, talvez +.

– Concentração na Praça.

Elementos responsáveis da UDP falam pelo megafone.

Organiza-se de novo 1 manif, para ir ao comando da polícia exigir a libertação do elemento preso. Pude ver nela 3 ou 4 pessoas c/ autocolantes do PS. Salvo erro, além de alguns – poucos – distintivos da UDP, não há + nenhum dístico de qualquer organização (pelo –, que eu visse).

– Cerca das 21.00, 1 delegação que pretende falar c/ o comando da PSP é corrida à coronhada, o mesmo acontecendo à 2ª delegação, constituída por “dirigentes de p. de esquerda”, segundo disse 1 elemento da UDP.

Depois de permanecer ali algum tempo gritando palavras de ordem, a manif volta à Praça da Liberdade, onde 2 elementos da UDP falam pelo megafone. Cerca das 21.45 é dada a informação que “o anti-fascista preso foi libertado, depois de ter sido espancado lá dentro”.

Durante algum tempo gritam-se palavras de ordem, e depois dispersa-se.

NOTA: era nítida a tendência dos elementos do serviço de ordem da manif para, quando apareciam espontaneamente as p. de ordem

“Morte ao CDS!” ou

“Polícia, fascista, assassina!” ou

“Morte ao fascismo”,

Corrigirem (c/ os megafones) para

“Morte ao fascismo, liberdade para o povo!”

e

“Unir o povo, esmagar o fascismo!”

J.L.

11/4/76

Comunicado da UDP convocando uma contra-manifestação.

(Transcrito por Maria Faustino no âmbito do programa voluntário de transcrições do EPHEMERA.)

DOCUMENTOS ANEXOS:

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