10º ANIVERSÁRIO DO EPHEMERA – AEROGRAMAS E CARTAS DE MILITARES DIRIGIDOS À FADISTA CONSTANÇA NUNES

(Notas e transcrição de Rita Maltez.)

O ARQUIVO recebe inúmeras correspondências, das mais variadas naturezas, algumas incluídas em espólios mais vastos, outras isoladas e que chegam às nossas mãos porque é conhecido o valor que damos a essa documentação, com origem em pessoas comuns, muitas vezes de desconhecidos, mas que nos ajudam a ter uma imagem muito concreta da vida real das pessoas que compõem a nossa História.

A correspondência escolhida para aqui dar nota desse nosso trabalho foi-nos enviada por Jorge Henriques, nosso amigo em Aveiro, e consiste num conjunto de cerca de 100 aerogramas e cartas enviadas do Ultramar português, maioritariamente nos anos de 1963 e 1964, quase exclusivamente por militares que ali se encontravam, pedindo fotografias autografadas, mas não só, à fadista Constança Nunes. Como se pode depreender da correspondência, a fadista aparecia, entre outras publicações, na revista Plateia, com o seu endereço para os fãs lhe poderem escrever.

Conjuntamente com outra documentação de que dispomos no ARQUIVO, estes documentos, apesar do seu pequeno número e aparente banalidade ou trivialidade, dão uma imagem muito próxima – e em que muitos se reconhecerão – de como viviam os militares, de como ocupavam o seu tempo livre, das “modas” (ter álbuns de fotografias de artistas autografados), do seu nível de literacia, do seu dia a dia, mas também nos dizem alguma coisa sobre Constança Nunes, a fadista que recebia, e guardou, esta correspondência. Este conjunto de documentos fala-nos, mesmo quando tal não é dito, sobre a solidão e a fragilidade dos que as escrevem, mas também sobre a generosidade, e noção do papel que desempenhava, de quem as recebe.

Algumas notas curiosas:

  • Em muitos dos aerogramas muitos militares usavam a mesma expressão “encontro-me nesta Província Ultramarina em missão de soberania, a defender a nossa querida Pátria”.
  • Alguns dos correspondentes pedem-lhe que fosse a sua Madrinha de Guerra, outros pedem-lhe para a encontrarem quando regressarem e um, por sinal não militar, pede-lhe uns óculos (que ele pagaria).
  • O espaçamento muito curto que muitos dos autores das cartas usam, bem como a utilização integral de todo o espaço livre do aerograma ilustram bem o desejo de escrever o mais possível para comunicar, pois, por mais pueril que seja o que se tem para se dizer, por exemplo multiplicando os elogios ou repetindo as expressões de despedidas, enquanto se escreve está-se a falar com o outro, está-se acompanhado.
  • A forma de tratamento vai desde o mais formal “Exma. Menina” ou “Digníssima Menina Constança” ao mais íntimo e carinhoso “Estimada Amiguinha”, passando por um simples “Constança Nunes” ou mesmo um “Simpática Constança Nunes” ou “Simpática Fadista”.
  • Constança anota nos aerogramas quando responde e, em alguns casos, nota-se que a correspondência se estende por diversas cartas.

Escolhemos três exemplos muito diferentes por forma a ilustrar a variedade de correspondentes e temas:

aero1

Guiné Portuguesa

21-11-63

Constança Nunes.

Sendo eu um grande admirador das nossas artistas da rádio, venho por este meio apresentar-lhe as minhas felicitações.

Sou Militar, Encontro-me nesta província Ultramarina em missão de suberania defender a nossa honrada e Querida Pátria. E desejando possuir uma foto vossa imensamente agradecia ser-me enviada para mim só conhecer nossa artista em nome como desejo conhece por entermedio da mesma.

E pronto aqui finalizo com os cordiais cumprimentos deste vosso admirador, e no qual lhe deseja as maiores felicidades.

Muito respeitosamente me subscrevo atencioso atento

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  Luanda, 8 de Junho de 1964

          Estimada Amiguinha

Que se encontre de óptima saúde, são os meus maiores desejos, que eu Bem felizmente.

Amiguinha Constança

Mais uma vez fui recebedor da sua tão simpática missiva que muito lhe agradeço, nem calcula quanta satisfação eu tive ao verificar que era da sua pessoa é sempre um enorme prazer para nós soldados, recebermos correspondência de alguém, e então o prazer é ainda maior quando esse alguém é pessoa que estimamos.

   Amiguinha, mandou-me agradecer, por lhe mandar a minha foto? não tem nada que agradecer eu sim é que me sinto muito grato para com você além disso não fiz nada que a Constança não tivesse me feito primeiro, é o não verdade?

                                                           Simpática Amiguinha, mandou-me dizer que já não me sinto tão só que tenho a minha viola isso é verdade, para mim acho a música uma coisa muito sublime que nos faz estremecer as fibras de todo o meu ser desde que seija tocada com vocação e entusiasmo mas agora confesso que não tenho vontade para nada, encontro-me, de certa maneira um pouco desmoralizado e acredite que o caso não é para menos tenho tido muita pouca sorte, mas enfim tenho que me resignar com o meu Destino, mas por vezes chego-me a revoltar contra a minha sorte há dias enquanto dormia, roubaram-me cerca de 3.400$00 que eu tinha comigo enfim custou-me muito, mas tive que me conformar.

Agora para cumulo da pouca sorte, um Tenente Coronel, participou de mim que eu ia com excesso de velocidade, que ia a 80 à hora, foram a exame com a viatura está visto que eu não podia ir para além dos 40 mas fui castigado na mesma, simplesmente por eu ser um pobre soldado, e quem participou de mim ser um Tenente Coronel, a ele não o desmentiram por ser uma grande personagem, e a mim como um simples soldado apanhei 3 dias de tensão, o que mais me dói é ser injustamente, por isso é que me revolto não posso suportar tais Barbaridades.

                                               Sem mais receba os meus cordiais comprimentos com votos de muitas e muitas felicidades

ADEUS

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Exma. Menina Constança Nunes,

Com muito prazer e amizade respondo à sua cartinha, que muita alegria me veio dar.

            Primeiro que nada mais, como vai a sua família? Oxalá sempre na medida dos seus desejos. Eu menos mal graças a Deus.

            Muitíssimo obrigado pela foto assim como a Plateia. Gostei imenso.

            Quando lhe escrevi, também fiz uma para o Zé Manuel, mas até à data ainda não tive resposta. Não sei se se encontra pior ou então se já foi para casa, por isso peço-lhe o favor de me mandar dizer qualquer coisa a respeito dele e se recebeu a minha carta.

            Agora falemos doutro assunto:

            Presentemente na Guiné já não se ganha o que se ganhava, pois já deu o que tinha a dar. É um meio pequenino mas agradável, mas é pena hoje em dia não podermos ir para parte alguma de carro, isto é, para o interior da Província, somente se anda descansado dentro da cidade.

            Talvez daqui a algum período de tempo isto melhore, mas por enquanto nada dá.

            Se a Constança souber de qualquer emprego é favor mandar-me dizer pois irei logo para a Metrópole, largando tudo isto pois já estou farto de Guiné até aos olhos, presentemente tudo me parece preto.

            Para a outra carta que lhe escreva, mandar-lhe-ei um postal da Guiné para poder apreciar um pouco o que é isto.

            Encontro-me ainda cá, porque meus pais e irmã cá se encontram, pois assim que se forem irei embora de vez (…).

(…) muitas vezes sou chamado pelo Exmo. Sr. Comandante Militar afins de servir de guia a certas companhias, que tem de entrar para o mato fazerem batidas. Pedem-me para o fazer pois sabem que não há mato algum da Guiné que eu não conheça assim como falo qualquer dialecto de cá.

            Mando-lhe umas peliculas para me fazer o favor de mandar revelar de cada, 2 e pode ficar com uma de cada. Depois mande-me dizer quanto é para lhe mandar o dinheiro.

            Assim como outra coisa, aqui há uns tempos num combate parti os meus óculos, então peço-lhe mais um favor, mando-lhe a receita e se puder mande-me junto com o preço para lhe enviar o dinheiro. Gostaria deles bonitos e em cor verde para dia e noite. Mande-me dizer se fuma, pois gostaria de o saber.

            Vou descriminar- lhe as peliculas que lhe mando para fazer o favor já pedido.

            São 5 onde se vê os meus Pais.

            Duas onde estou dentro dum barquinho que de vez em quando faço rondas com a tropa.

            Uma em que me encontro encostado ao pilar da oficina, outra ao pé de um caminhão que se encontra dentro do quintal da oficina, esse caminhão foi atingido por uma granada dos torroristas. Mais uma em que estou no jardim proximo de casa de meus Pais, mais outras que me encontro com o meu trajo de camuflagem, pois tinha regressado de uma batida que fui fazer com a Companhia de Caçadores (…) que se encontra em S. João que fica em frente ao Bolama, são mais ou menos 30 minutos de barco.

            Parece-me que para hoje já chega.

            Bem, com muitíssima amizade e estima me subscrevo,

                                                           deste seu amigo

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aero

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