Site icon EPHEMERA – Biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira

LUÍS OSÓRIO SOBRE O EPHEMERA

POSTAL DO DIA
A surpreendente generosidade de Pacheco Pereira
1.
Não quero apenas dizer-vos o que já sabem.
Podem não gostar da figura ou até detestar José Pacheco Pereira, mas certamente que reconhecerão que é culto e inteligente.
Claro que para os que dele gostam é mais do que culto e inteligente – se fosse apenas isso confundir-se-ia com muitos outros e outras que também o são.
Pacheco Pereira deixa a sua marca na história da democracia em Portugal por vários outros atributos.
Por ser um homem livre que lutou diariamente contra todas as formas de tirania do pensamento.
Por ser alguém que tendo estado num partido político de poder nunca usou essa vantagem para ser ministro, cônsul ou presidente de uma fundação. E nunca abdicou de apoiar quem quis apoiar mesmo que contrariasse o seu próprio partido.
Por ter assumido a defesa da memória como modo mais eficaz de proteção da democracia contra o esquecimento da sua essência.
Por deixar ao futuro uma bibliografia notável. Impossível fazer a história do PCP ou da extrema-esquerda sem consultar os livros que escreveu.
E, já agora, pelo seu extraordinário percurso.
A sua juventude foi de combate, mas nunca perdeu de vista que as perguntas eram sempre mais importantes do que as respostas.
Foi amigo e protegido de Eugénio de Andrade que muito o influenciou na arte de saber ler, de querer ler, de perceber a importância de ler.
Foi militante de um partido maoista antes do 25 de Abril
(não sei se sabem que esteve na clandestinidade até meados de maio de 1974, o que o fez perder as comemorações do 25 de Abril e o Primeiro de Maio!)
2.
Mas não é por nenhum desses atributos que hoje dedico o “Postal do Dia” a José Pacheco Pereira.
Não é pela inteligência, pela coragem, pela cultura, pelo percurso, pela liberdade ou pela coerência.
Quero falar-vos de generosidade.
De partilha.
Da generosidade de partilhar o seu arquivo – a riqueza da sua vida – com o país, com os portugueses.
De partilhar também consigo – se quiser também pode viajar pelo arquivo que construiu militantemente ao longo da sua vida.
3.
É nisso que penso quando entro no site da Ephemera onde todos podemos consultar as mais preciosas joias que Pacheco Pereira tinha guardadas no seu cofre privativo.
Num tempo em que tantos de nós preferem guardar para si, o que José Pacheco Pereira faz é um manifesto contra o tempo.
Um manifesto de generosidade que ficará para a sua história e que espero possa perdurar para além da sua vida.
Obrigado por isso, José.
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