
Sobre este Caderno, do Prefácio:
“O MAIOR OBJECTIVO DA CENSURA
O objectivo da Censura, omnipresente e pilar da ditadura, era “fazer-nos” a cabeça, ou melhor impedir-nos que uma variada lista de subversões nos “fizessem” uma outra cabeça. Seja o sexo, seja o “respeitinho” ou a falta dele, seja a falta de obediência e ordem, seja a não aceitação complacente de todas as violências que tivessem o selo do regime, seja, por fim, a oposição e a dissidência política, tudo subversões que faziam o português um mau português.
Um instrumento essencial dessa produção subversiva da maldade era o cinema. Tudo que havia de mal estava nos filmes, que tinham a enorme vantagem de serem, por via da imagem em movimento, muito eficazes em “fazer” a cabeça das pessoas. A Censura proibia muito simplesmente a sua exibição quando esse intento subversivo era feito à bruta, ou seja, propagando a liberdade ou a democracia ou a resistência ou o comunismo, sem rodeios. Mas havia nos filmes, em particular nos filmes de grande qualidade, uma capacidade de o fazer de forma subtil, irónica, atractiva num gesto, numa palavra, numa acção e aí entrava a brigada dos cortes. Os cortes eram muitas vezes tantos que o filme tornava-se impossível de exibir, tantos saltos havia na sua narrativa cinematográfica. Mas o cinema sempre foi mais difícil de domar que a palavra escrita.
No debate que o Paulo Portugal organizou em complemento da exposição do ARQUIVO EPHEMERA sobre a Censura, todo este complexo de luta entre a liberdade e a criatividade e a força bruta do poder da ditadura, um conjunto de cineastas, que sabiam muito bem como funcionava a repressão por sua própria experiência, descreveu muito bem o que se passava.
Perante uma sala completamente cheia, do lado da mesa estavam os vencedores deste confronto, que viram a Censura do Estado Novo a ser corrida dos filmes, embora algumas outras censuras continuassem, e sabiam melhor do que ninguém como funcionava a cabeça dos censores e como, quando era possível, podiam ser enganados ou seduzidos ao engano.
A publicação deste conjunto de textos e das intervenções no debate, das últimas intervenções públicas de António Cunha Teles e António Pedro Vasconcelos, a cuja memória dedicamos este caderno, são um contributo para melhor se perceber o confronto entre a procura criativa, logo moral no sentido lato, e a repressão à liberdade, um acto imoral de violência de um poder que acha que está sempre em cima de um pedestal. A luta contra a censura no cinema, ajudou-nos a que eles caíssem no chão da vergonha.
JOSÉ PACHECO PEREIRA”
VIDEOS DA SESSÃO
E algumas fotografias:

