
No centro, Manuel Guilherme de Almeida (1898-1992) , um dos fundadores do PCP em 1921. Há vários anos, eu e o João Arsénio Nunes, fomos à Academia entrevista-lo para os nossos trabalhos sobre o PCP. Ele contou com ironia que se foi reinscrever no PCP depois do 25 de Abril e que uma “menina” perguntou-lhe desde quando antes ele tinha sido do PCP. Ele respondeu “1921” e ela continuou a tomar nota como se fosse irrelevante ter à sua frente o único fundador do partido vivo.
JPP
Manuel Guilherme de Almeida (1898-1992) – Resumo biográfico temático
Casou em 1923 com Alice Marques Louro. Teve três filhos: Fernando (1924-2013); Arnaldo (1926-2008); e Guilherme (n. 1950). A sua saúde começou a deteriorar-se em 1989, vindo a falecer a 11 de Novembro de 1992, com 94 anos feitos.
Vida política e sindical
Logo em 1913 inicia-se no associativismo profissional fazendo-se sócio da Associação Fraternal da Classe dos Operários Alfaiates de Lisboa, onde viria a ser membro activo e ensinaria corte.
Manuel Guilherme de Almeida, republicano convicto até à medula, milita desde 1919 nas Juventudes Comunistas, juntamente com António Monteiro (também membro da Associação de Classe dos Alfaiates de Lisboa). Tendo já aderido aos ideais do Comunismo, encontra-se, em 1921, entre os fundadores do PCP (Partido Comunista Português). Em 10 de Março de 1922 é novamente detido “por ordem superior” e preso juntamente com outros trabalhadores, no Forte de S. Julião da Barra, por envolvimento em greves.
Suspeito de envolvimento na malograda tentativa revolucionária de 26 de Agosto de 1931, que visava derrubar a Ditadura, Manuel Guilherme de Almeida é preso na própria madrugada de 26 de Agosto de 1931, em sua casa, pela Polícia Internacional Portuguesa [polícia política antecessora da PVDE e da PIDE] e levado com outros para os calabouços do Governo Civil de Lisboa. É então deportado para Timor a 2 de Setembro de 1931, a bordo do vapor Pedro Gomes, juntamente com muitos outros, de onde só regressaria em 9 de Junho de 1933.
Em Setembro de 1933, a Associação Fraternal dos Operários Alfaiates de Lisboa é encerrada e extinta pelo facto de os seus sócios terem decidido, em assembleia geral, não aderir ao nacional-sindicalismo criado pelo Estado Novo de Salazar.
Em 1934 é secretário do SVI (Socorro Vermelho Internacional) e, juntamente com a mulher, Alice Louro de Almeida, tem um papel fundamental no apoio a presos políticos e a perseguidos pela polícia política. O SVI Prestava apoio material e jurídico aos presos políticos e às suas famílias, divulgava no país e no estrangeiro notícias sobre a situação dos presos e de denúncia da repressão. Precisamente por ser Secretário do SVI, é preso em Março de 1935, julgado no Tribunal Militar Especial e mais tarde deportado, em Outubro de 1936, para o Forte de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira (Açores).
É levado no vapor Loanda, o mesmo em que seguiu a primeira leva de presos políticos para o Tarrafal. Esta deportação manter-se-á até ao final de 1938, chegando a Lisboa em Janeiro de 1939.
Em 1943 volta a ser detido, por seis dias, “para averiguações”.
Em 1945 adere às listas do MUD. Voltaria a ser preso em 1956, na sequência de ter dado guarida à antifascista Maria Machado ((1890-1958), que tinha partido uma perna . A Academia Maguidal é cercada e revista, são apreendidos documentos, jornais e panfletos considerados “comprometedores”. Manuel Guilherme de Almeida é preso, assim como quase toda a sua família (à excepção do autor destas linhas que tinha cinco anos e meio e ficou ao cuidado de uma tia paterna e de um primo). São todos acusados de “actividades contra a Segurança do Estado”, nos termos do “crime do §1.º do Art.º 173 do Código Penal”, segundo o mandado de captura de 13 de Abril, e enviados para o Depósito de Presos de Caxias, Reduto Norte. Maria Machado, conhecida pelo pseudónimo revolucionário de Rubina, de cuja actividade política a PIDE estava bem documentada, também é presa. Manuel Guilherme de Almeida e a sua mulher só voltarão à liberdade quase seis meses depois, a 27 de Agosto de 1956.
Em 8 de Abril de 1958, Manuel Guilherme de Almeida subscreve o pedido de admissão da candidatura do Dr. Arlindo Vicente à Presidência da República. Posteriormente, Vicente retirar-se-á da candidatura, em benefício da crescente popularidade do General Humberto Delgado. Mas o governo apressa-se a proibir a oposição de ter acesso à contagem dos votos. As eleições serão falseadas e será eleito o Almirante Américo Thomaz, candidato do regime, escolhido pela União Nacional.
Em 1963 é novamente preso pela PIDE, por ter sido utilizado uma sua máquina copiadora na produção de 11000 cópias de prospectos para o 1.º de Maio e para uma grave na Carris, em Santo Amaro. É julgado, sendo a defesa feita por Mário Soares, e acaba condenado a 18 meses de prisão, repartidos entre Caxias e o Forte de Peniche.
Vida Profissional
Emprega-se como aprendiz de alfaiate em 1911, com 13 anos, aprendendo e aperfeiçoando sucessivamente o seu ofício. Passando pelas alfaiatarias mais conceituadas, vai ganhando conhecimento e prestígio profissional. Chega a oficial (1918), a contramestre (1923) e seguidamente a mestre. Em 1924, a Direcção da Associação Fraternal dos Operários Alfaiates de Lisboa, de que era sócio desde 1913, convida-o para leccionar as aulas de corte que aquela instituição mantinha. Manuel Guilherme de Almeida (com 26 anos) assegurará as aulas de corte até 1931, já como mestre. Em 1926 começa a desenvolver um novo método de corte, de sua autoria, inovador e eficaz. Em 1929 já é mestre técnico nas Oficinas Gerais de Fardamento do Exército. Funda a Academia de Corte, em Março de 1934, onde ensina o seu método Maguidal (acrónimo de MAnuel GUIlherme d’ALmeida. Entretanto, funda a revista Vestir, de técnica e moda para alfaiates, e seguidamente um álbum de figurinos (Moda Actual). Publica o seu livro Método de Corte Sistema Maguidal, que conheceria duas edições. Ao longo de mais de meio século, a Academia de Corte Maguidal, na Rua da Palma, n.º 219- 2.º Esq.º, em Lisboa, será uma referência e formará mais de 3500 alunos-alfaiates. Em 1944 Manuel Guilherme de Almeida está entre os fundadores da Casa de Repouso dos Alfaiates de Portugal, em Albarraque, organismo de apoio aos idosos da sua classe profissional, quando já não podem exercer.
Nas décadas de 1940 e 1950 realiza muitas conferências e palestras da sua especialidade. Na década de 1970 participa em numerosos congressos de alfaiataria.
Na década de 80, foi distinguido com diversas medalhas pelos seus pares, nacionais e estrangeiros. Foi galardoado com a medalha de prata por altos serviços em Roma, no ano de 1983. Finalmente, em Julho de 1983, foi agraciado com o grau de comendador da Ordem de Mérito Industrial, pelos serviços prestados à causa da alfaiataria nacional. O colar da Ordem foi-lhe colocado por Mário Soares (então primeiro-ministro), sendo ao tempo Ramalho Eanes presidente da República.
Trabalhou até aos 90 anos. Foi criado em sua honra o “Dia do Alfaiate” no último domingo de Maio.
Guilherme de Almeida (terceiro filho do biografado).

