
O local onde trabalho fica ao lado de uma pequena igreja rural. Da janela posso observar todo o ciclo da vida à volta dessa igreja, a missa aos domingos, os cada vez mais raros casamentos no Verão, os baptizados. De longe, a actividade social mais intensa da igreja são os funerais. Numa terra de gente idosa, há muita morte. Mesmo não me chegando à janela percebo que há funeral: na noite anterior os grupos que chegam para o velório do corpo, os sinos matinais tocando a defunto, e o ajuntamento dentro e fora da igreja, acompanhando a presença do carro funerário. Depois, num momento para o outro, o bulício ciciado termina. As portas da igreja fecham-se e o largo fica estranhamente vazio. A umas centenas de metros, o cemitério recebeu o corpo, para o descansar no meio de um planalto que já esteve coberto de vinhas e hoje, com excepção de algumas oliveiras, nada tem.
Devo uma biblioteca completa a um funeral e à lembrança de um dos homens que veio velar um morto e que negoceia em papel e sucata. Bateu-me à porta e disse-me que tinha comprado umas toneladas de papel, sob o formato de livros, e que talvez eu quisesse alguns. Ele preparava-se, conforme as regras da sua profissão, para rasgar as capas dos livros para separar o tipo de papel e maximizar a sua compra. Prometi que ia ver e fui logo a seguir.
Era um dia desta primavera sem chuva e o local onde estava armazenado o papel era no meio de um campo, no mesmo planalto que continua o do cemitério. Estava tudo verde à volta, no esplendor que têm os campos nestes dias, e no caminho de terra por onde entrei amontoavam-se carcaças de carros, montes de sacos de adubo, sucata diversa, restos de máquinas, pilhas de metal, papel. Ao fundo um grupo de homens trabalhava carregando uma camioneta. “Onde é que está o papel?” “Aqui nestes dois contentores e ainda falta quase o dobro.”
E lá estavam os contentores completamente cheios de livros, à primeira vista apenas maltratados pela forma como foram carregados, mas escapados à perigosa destruição pela água por esta longa seca. Tirei um que estava em cima, uma das primeiras edições brasileiras de Jorge Amado, depois outro, uma novela portuguesa dos anos quarenta, e outro, um manual de instrução para os oficiais de cavalaria do século XIX. Comprei tudo de imediato, com a condição que ele não deitava fora um único papel, quer dos que estavam, quer dos que faltavam e que “jornais escuros” também faziam parte do acordo. Insisti, com uma velha suspeita habitual, que tudo era tudo, fosse o mais pequeno e amarfanhado resto de posologia de um medicamento. Se havia lixo, eu veria o que era lixo.
Despejados em cestos de vindima.
Do caos à ordem.
E depois lá começou a chegar o papel, seis toneladas calculava o meu benfeitor sucateiro. Até agora cerca de 12000 livros já entraram e centenas de revistas e papel de todo o tipo, selos, documentos pessoais, cartas, recortes, panfletos, etc. O que lá está e o que permite perceber do falecido dono dos livros, vendidos pela família como papel, é toda uma outra história. Os livros falam demais e a história é interessantíssima.
(Publicado em Os Meus Livros.)
