Posted by: JPP | 08/03/2009

HISTÓRIAS À VOLTA DOS LIVROS E PAPÉIS: SEIS TONELADAS

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O local onde trabalho fica ao lado de uma pequena igreja rural. Da janela posso observar todo o ciclo da vida à volta dessa igreja, a missa aos domingos, os cada vez mais raros casamentos no Verão, os baptizados. De longe, a actividade social mais intensa da igreja são os funerais. Numa terra de gente idosa, há muita morte. Mesmo não me chegando à janela percebo que há funeral: na noite anterior os grupos que chegam para o velório do corpo, os sinos matinais tocando a defunto, e o ajuntamento dentro e fora da igreja, acompanhando a presença do carro funerário. Depois, num momento para o outro, o bulício ciciado termina. As portas da igreja fecham-se e o largo fica estranhamente vazio. A umas centenas de metros, o cemitério recebeu o corpo, para o descansar no meio de um planalto que já esteve coberto de vinhas e hoje, com excepção de algumas oliveiras, nada tem.

Devo uma biblioteca completa a um funeral e à lembrança de um dos homens que veio velar um morto e que negoceia em papel e sucata. Bateu-me à porta e disse-me que tinha comprado umas toneladas de papel, sob o formato de livros, e que talvez eu quisesse alguns. Ele preparava-se, conforme as regras da sua profissão, para rasgar as capas dos livros para separar o tipo de papel e maximizar a sua compra. Prometi que ia ver e fui logo a seguir.

Era um dia desta primavera sem chuva e o local onde estava armazenado o papel era no meio de um campo, no mesmo planalto que continua o do cemitério. Estava tudo verde à volta, no esplendor que têm os campos nestes dias, e no caminho de terra por onde entrei amontoavam-se carcaças de carros, montes de sacos de adubo, sucata diversa, restos de máquinas, pilhas de metal, papel. Ao fundo um grupo de homens trabalhava carregando uma camioneta. “Onde é que está o papel?” “Aqui nestes dois contentores e ainda falta quase o dobro.”

E lá estavam os contentores completamente cheios de livros, à primeira vista apenas maltratados pela forma como foram carregados, mas escapados à perigosa destruição pela água por esta longa seca. Tirei um que estava em cima, uma das primeiras edições brasileiras de Jorge Amado, depois outro, uma novela portuguesa dos anos quarenta, e outro, um manual de instrução para os oficiais de cavalaria do século XIX. Comprei tudo de imediato, com a condição que ele não deitava fora um único papel, quer dos que estavam, quer dos que faltavam e que “jornais escuros” também faziam parte do acordo. Insisti, com uma velha suspeita habitual, que tudo era tudo, fosse o mais pequeno e amarfanhado resto de posologia de um medicamento. Se havia lixo, eu veria o que era lixo.

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Despejados em cestos de vindima.

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Do caos à ordem.

E depois lá começou a chegar o papel, seis toneladas calculava o meu benfeitor sucateiro. Até agora cerca de 12000 livros já entraram e centenas de revistas e papel de todo o tipo, selos, documentos pessoais, cartas, recortes, panfletos, etc. O que lá está e o que permite perceber do falecido dono dos livros, vendidos pela família como papel, é toda uma outra história. Os livros falam demais e a história é interessantíssima.

(Publicado em Os Meus Livros.)


Responses

  1. Parabéns e bem haja.
    Cheguei cá através do João Serra. Vou adquirir lugar cativo…
    Abraço,
    NB

  2. É doloroso saber a insensibilidade de alguns “herdeiros”. Algumas semanas atrás assisti a um espectáculo semelhante. Tratava-se de um carregamento de milhares de livros de um armazém de uma Editora para o camião de um papeleiro. Pedi que me oferecessem alguns, o que fizeram com evidente satisfação, mas deixaram o aviso: livro que daqui sai é para destruir e não pode ser dado nem vendido! Acrescentou que tudo isso por indicação dos Autores… Esquisito, não é?
    Américo Oliveira

  3. No Brasil dizem que as bibliotecas enfermam de três problemas: a humidade, o bicho e as viúvas…

  4. Sou descendente de industriais de papel de Paços de Brandão desde o século XVIII e por isso receberam milhares de toneladas de fardos de papel velho para reciclar. Nesses fardos vinham centenas de livros, revistas, jornais, vários documentos, selos, etc. que eram apartados por meu bisavô. avô e pai e depois é que o resto do papel seria transformado em papel novo. Todas essas preciosidades fazem parta da minha actual biblioteca e têm sido também fontes para muitos trabalhos literários, históricos, económicos, sociais, políticos de alunos que me procuram e aos quais lhes faculto com a melhor das vontades. Por isso felicito José Pacheco Pereira por ter tido a sorte de adquirir aquelas toneladas de papel, onde predominavam concerteza preciosos livros e outros documentos que agora põe à disposição do público interessado. Ainda bem que cairam em boas mãos.

  5. JPP: eu também nasci no Porto. É verdade que leio o seu blog com atenção e vejo-o na quadratura – nem sempre com concordância. No entanto, reconheço-lhe seriedade intelectual – e isto nos tempos que correm, já é MUITO !

    Eu também empato algum do meu tempo a colecionar e a “salvar” Património. E nessa matéria o meu amigo, já devia ter sido premiado por quem se ocupa da Cultura. Esta secção é um “must”. Muito obrigado e parabéns.

  6. Já vai longa a noite mas valeu a pena aqui chegar. Como sempre. Obrigado.


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