EPHEMERA DIÁRIO (9 DE MAIO DE 2020): QUANDO UMA IMAGEM DIZ O EXACTO OPOSTO DO QUE SE PRETENDIA QUE DISSESSE

Esta fotografia, em formato postal, destinava-se a servir de propaganda monárquica. Não era um fotografia pontual, era encenada. Estão lá oito pessoas a olhar para a câmara: três peixeiras, quatro monárquicos e um mirone que olha com curiosidade para tudo aquilo. O então pretendente ao trono, Duarte Nuno Fernando Maria Miguel Gabriel Rafael Francisco Xavier Raimundo António, Duque de Bragança e pai do actual pretendente, está ali elegante e rígido, sob o peso do nome, não olhando para ninguém e sem saber muito bem o que fazer. Os dois monárquicos mais velhos, um deles João de Azevedo Coutinho, levaram-no ao largo da Sé para contactar com o “povo” e, como se sabe, não há mais “povo” do que as peixeiras. Duas têm o cabaz de peixe à cabeça, mas  outra deve ter pousado o cabaz e perdido um sapato, e é a pessoa mais viva da foto, olha para as pessoas e não para o fotógrafo e parece divertida. 1942 foi um ano muito duro para os portugueses, entre dificuldades económicas e sociais e o medo de a guerra nos bater à porta. Duarte Nuno era austríaco de nascimento, mas com nacionalidade portuguesa administrativa, não falava bem o português e a lei do banimento ainda não tinha sido extinta. Mas ia casar-se em breve. Duvido que o dissesse às peixeiras.

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