ENTREGA DO PRÉMIO “VASCO GRAÇA MOURA – CIDADANIA CULTURAL” PELO PRESIDENTE DA REPÚBLICA (CASINO ESTORIL, 17 DE OUTUBRO DE 2024)

EM BREVE

Entrega do Prémio e intervenções.

Guilherme Oliveira Martins, Lídia Jorge, Marcelo Rebelo de Sousa, Mário Assis Ferreira.

Amigos e voluntários do Arquivo Ephemera presentes na sessão.

 

Texto da Intervenção:

 

É para mim uma honra aceitar um prémio com o nome do Vasco Graça Moura. A nossa amizade, a minha admiração, e o nosso convívio são um dos momentos mais marcantes da minha vida.

Já o conhecia de muito antes, mas quando sugeri o seu nome para a lista do Parlamento Europeu que eu encabeçava, sabia que a sua presença e acção política iria qualificar a intervenção de Portugal e do PSD no quadro internacional.

Eleitos, passamos os próximos anos num convívio quase diário que, de Bruxelas e Estrasburgo, se estendeu para vários outros países da Europa, Itália e Alemanha em particular, e se projectou também em Portugal. Passávamos o ano juntos na Vila da Marmeleira com um conjunto de amigos, alguns aqui presentes, e o Vasco escreveu um poema para saudar a casa onde ritualmente desejávamos um bom Ano Novo.

Em Bruxelas e Estrasburgo, tínhamos hábitos regulares, e visitávamos as livrarias de uma forma peculiar. Entravamos em conjunto, e depois separávamo-nos para uma longa procura. Encontrávamo-nos de novo no fim e mostrávamos os livros que tínhamos escolhido e muitas vezes voltávamos atrás para comprar alguns dos livros escolhidos pelo outro.

Partilhamos silêncios e falas, com a qualidade rara de que podíamos ficar longo tempo em silêncio sem qualquer constrangimento. E falamos um pouco de tudo, sem nunca termos aquilo que podemos qualificar de “conversas intelectuais”. Pessoas, actualidade, política, – se se ler com atenção, a sua Balada do Bom Cavaquista percebe-se muito bem do que falávamos em política, – livros, gostos e desgostos, amizades e ódios de estimação. E também o trabalho que tínhamos em curso, do meu lado o blogue Abrupto, (para que o Vasco escreveu o primeiro poema em português que usa a palavra “blogue”), a biografia de Cunhal (cujas histórias foram a inspiração do Enigma de Zulmira) e alguns ensaios; do lado do Vasco, os seus poemas e as traduções. Falamos muito das traduções, Vasco contava aquelas que fez com mais facilidade, Dante por exemplo, e maior dificuldade, o Cyrano de Bergerac de Edmond Rostand. E também da que queria fazer, mas não conseguiu, a Ars Amatoria de Ovídio.

Por estranho que possa parecer, o latim assombrava muitas das nossas conversas e perseguiu o Vasco. Nas conversas que tivemos com Chris Patten, que tinha sido o último Governador de Hong Kong e estava então na Europa, este falou-nos das dificuldades a preparar o discurso em latim que tinha de fazer ao assumir o lugar de Chanceler da Universidade de Oxford. O Vasco nunca esqueceu essa conversa e quando recebeu o doutoramento honoris causa pela Universidade do Porto (Vasco era persona non grata nos meios universitários e foi o esforço perseverante dos seus amigos, nomeadamente Miguel Veiga e Valente de Oliveira que conseguiu a mais que justa distinção), tentou fazer a sua intervenção em latim, mas não o conseguiu. Mas, no seu discurso, citou longamente Cícero. Na verdade, como disse no seu testamento poético ao modelo de François Villon, certamente lembrando-se das circunstâncias daqueles que irritava, escreveu “nada deixo a quem não presta”. É assim mesmo, era nestas coisas que nos entendíamos muito bem.

De novo insisto, se estas conversas parecem “intelectuais”, não o eram de todo, não tinham nenhuma presunção de saber, bem pelo contrário identificavam o que não se sabia, eram feitas mais de dúvidas do que de certezas e quando havia certezas eram, chamemos-lhe assim, “certezas combatentes”, contra alguma coisa, ou pessoa, ou obra. Evoluíam muitas vezes a partir de trivialidades e questões quase de lugar-comum e navegavam nas memórias de leituras ou estudos, sobre autores que eram grandes, mas que nos pareciam íntimos, Sá de Miranda, Camões, Fernão Mendes Pinto, Camilo, Eça.

Uma conversa que particularmente lembro no restaurante La Petite Écurie em Estrasburgo que frequentávamos com regularidade (e que o Vasco veio a descobrir mais tarde que vinha no guia gay da cidade…)  foi sobre um autor de que falávamos bastante Fernão Mendes Pinto. A conversa partia de uma pergunta daquelas para que não há resposta: será que os portugueses, os “portuguesinhos valentes” daqueles episódios entre o cruel e o picaresco da Peregrinação, eram os mesmos portugueses de hoje? A resposta inclinou-se para o não. Não eram.

Mas o Vasco tinha aquela enorme imaginação verbal e um domínio vocabular em várias línguas que o fazia produzir, sem os escrever, poemas repentistas que muitas vezes dizia aos seus companheiros de passeio (e mais ainda às suas companheiras) que deambulavam nos corredores de Estrasburgo à saída de sessões particularmente aborrecidas ou bizarras do Parlamento. Eu anotei todos os que podia e dizia ao Vasco, “o Vasco faz de Goethe e eu vou atrás de si no papel de Eckermann”, o autor das célebres Gespräche mit Goethe, as conversas com Goethe, uma das fontes mais importantes sobre o poeta.

Riamos, mas era mesmo assim.

Percebem, por tudo isto, que para mim este prémio com o nome do Vasco significa muito.

*

O que é que quer dizer “cidadania cultural”? Presumo que actuar na polis, através de efeitos que são do domínio da cultura, é o que é cidadania cultural. Nesse sentido, a cultura é o elemento que distingue a democracia da demagogia, cultura no sentido de mundividência, de escolha, de procedimentos, porque a democracia é uma escolha dos homens e mulheres não é um regime natural. Se fosse natural seria um regime de máxima violência.

Temos liberdade e vivemos em democracia, tudo coisas frágeis, mas como é que se pode servir a polis? Tornando-a mais intensa, mais sábia, mais complexa na diferença, mais polis. É esse o nosso trabalho nessa parte da cidadania cultural que é o da memória, uma das coisas mais voláteis e mais complexas que existem, mas crucial para sabermos o que fomos e o que somos.

O Arquivo / Biblioteca Ephemera tem o seu nome com origem num poema de Píndaro, a Oitava Pítica:

Efêmeros! O que é alguém? O que não é alguém? Sonho de uma sombra: o homem.

Na verdade, muitas características únicas do Arquivo Ephemera vem da frase da sua origem, ou melhor, de contrariar a frase da sua origem, de sermos anti-efémeros, que, sabemos ser a atitude ao mesmo tempo humana, feita do desejo humano de escapar à morte, e vã, da consciência da impossibilidade do seu programa holístico, de ser omnívoro e de querer tudo.

Como anti-efémeros  é assim que trabalhamos, queremos tudo e somos omnívoros. Como na frase de Terêncio, “nada do que é humano nos é alheio”. Dos pobres e dos ricos, dos importantes e das pessoas invisíveis, como no poema de Brecht, dos césares e dos cozinheiros.  E na verdade, esta atitude holística resulta mais do que se pensa, porque, ao se querer tudo, tem-se muito. Seja uma Bíblia com pequenas orações dactilografadas desejando ao mesmo tempo o bom retorno dos pescadores do bacalhau e a conversão dos comunistas, uma carta de amor escrita por um censor em papel da censura, uma fotografia de um soldado agarrado à força a uma jovem negra certamente menor, uma gravação de uma reunião política feita às escondidas, uma mala de carimbos para fazer documentos falsos, as primeiras fotografias do surf no Hawai, uma biografia manuscrita de um guerrilheiro de um movimento de libertação que se entregou ao exército português e foi por isso executado após a independência, uma carta escrita com uma caligrafia estragada de alguém que desejava ser eutanasiada, uma cabeça encolhida por um caçador de cabeças, um rabisco furioso de um censor que diz “não é preciso ler, proíba-se”,  um vestido de uma noiva anticlerical, milhares de cunhas, milhares de denúncias, muitas cartas anónimas, e, já que estamos num Casino, também a presença do jogo como prazer e tentação desde o século  XIX.

Há também o habitual, centenas de milhares de livros e muitos mais panfletos, cartazes, – incluindo uma colecção única de cartazes artesanais, – um deles foi reproduzido na capa do New York Times, – desenhos, fotografias, objectos, cobrindo cerca de 100 países, desde um pin do candidato Roosevelt, a um boletim de voto no Afeganistão, de fotografias de voluntários da extrema-direita a combater na Croácia, ou de um cartaz com dedicatória “aos seus amigos portugueses” do dirigente rexista belga Léon Degrelle fugido para Espanha para escapar à pena de morte pela sua colaboração com o nazismo. Podia enumerar, horas e horas a fio, o que temos salvo por todo o lado, em Portugal e no estrangeiro, os nossos seis quilómetros de estante, mas o que torna o nosso arquivo único, é sabermos como foram tomadas decisões dos poderosos, na parte dos césares, e igualmente como vivem as pessoas comuns, os milhões de portugueses que fazem Portugal e não ficam na história, a parte dos cozinheiros.

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Com esta dimensão precisamos de três coisas, espaço, mais voluntários, e dinheiro, por esta ordem. E, para cada uma destas necessidades, resolve-las mantendo a nossa autonomia, independência e identidade. Não é tarefa simples.

Veja-se a questão da identidade. Do ponto de vista institucional, precisamos de encontrar uma forma de organização que absorva aquilo em que nós somos diferentes da tradição francesa dos arquivos e mais próxima da anglo-saxónica, que combine a solidez patrimonial das fundações com a flexibilidade das charities inglesas e americanas, que tenham objectivos culturais em sentido lato, neste caso centradas num activismo pela memória, e com papel relevante para o trabalho voluntário. O actual estatuto das fundações não serve para este objectivo, é bom para as grandes fundações, não impede as fraudulentas, e é hostil para pequenas e medias instituições que, usando o trabalho voluntário conseguem, como o Arquivo Ephemera, um output muito superior a instituições que recebem milhares de euros mensais do estado.

Espaço e dinheiro há muito por todo o lado, e se não temos mais, particularmente dinheiro. a culpa é nossa que no meio do imenso trabalho e do contínuo deslumbramento com o que salvamos, não nos temos dedicado como devíamos a consegui-lo de amigos, empresas, instituições que não teriam dificuldade em reconhecer o mérito do nosso trabalho. Mea culpa, mesmo muito minha. Essas são as nossas forças, essas são também as nossas fragilidades.

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O prémio que recebo agora será colocado ao serviço deste trabalho de militância da memória, na convicção, voltando ao princípio, de que se dermos espessura com o passado ao presente na democracia, teremos a única coisa que os homens podem esperar da sua passagem pela terra, melhor vida, como se dizia antigamente, mais paz, mais pão, melhor povo e mais liberdade.

Disse.

 

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