CENTRO INTERPRETATIVO DO ESTADO NOVO – REGIME E RESISTÊNCIA – DOCUMENTOS E CONTROVÉRSIAS

Ver COMUNICADO DE IMPRENSA DA ASSOCIAÇÃO CULTURAL EPHEMERA E DA CÂMARA MUNICIPAL DE S. COMBA DÃO

FOTOGRAFIAS E OUTROS MATERIAIS DO PROGRAMA CONJUNTO DA ASSOCIAÇÃO CULTURAL EPHEMERA E DA CÂMARA MUNICIPAL DE S. COMBA DÃO NO DIA 28 DE FEVEREIRO DE 2025

MENSAGENS


MARIA INÁCIA REZOLA

Exmo. Senhor Presidente da Associação Cultural Ephemera, Dr. José Pacheco Pereira,

Antes de mais, permita-me que lhe de os parabéns por mais esta iniciativa de central importância para a história e preservação da memória do Século XX português. O projecto que tão empenhadamente acalenta – a Associação Cultural Ephemera – é já uma referência nacional e internacional. A constituição do Centro Interpretativo do Estado Novo 1926-1974 (Regime e Resistência) é mais um passo importante no imenso trabalho cívico e de cidadania que tem desenvolvido.

 

Por motivos profissionais, é-me impossível acompanhar o momento de assinatura do protocolo com a Câmara Municipal de Santa Comba Dão. No entanto, pode contar com o meu apoio enquanto historiadora e cidadã. O conhecimento e divulgação da história do Século XX português é fundamental para que construamos uma democracia de qualidade.

Saudando-o, uma vez mais, pela iniciativa e com ela solidarizando-me, com amizade,
Maria Inácia Rezola

IRENE PIMENTEL
Já é tempo de deixar de acreditar em fantasmas e de cair em armadilhas salazarentas. Por desejar contribuir para uma justa memória, ao enfrentar a nossa verdadeira História, na qual se inclui a ditadura salazarista, apoio a iniciativa da Ephemera e da Câmara Municipal de Santa Comba Dão na criação de um centro histórico interpretativo.
Irene Flunser Pimentel

LUÍS REIS TORGAL

Espero firmemente que este protocolo seja, enfim, o início de um projecto que sempre defendi, desde o final do século passado, que se propunha apresentar e fazer compreender ao vivo o que foi o Estado Novo, a sua construção e a sua sobrevivência para além de 1945, finalizando nos anos 60-70 com a “guerra Colonial”, verdadeiro motor da Revolução de Abril, depois de 13 anos de guerra e da acção sacrificada da Oposição, que se manteve viva desde o 28 de Maio de 1926, considerado oficialmente pelo Estado Novo a data inaugural da “Revolução Nacional”. O CEIS20, que fundei e que foi comigo e com outros colegas o motor da ideia, nunca foi verdadeiramente ouvido. Espero — até pela consideração que tenho pela Ephemera e pelo Pacheco Pereira — que, desta vez, vá para a frente, sem qualquer entusiasmo da direita radical (hoje cada vez mais perigosa) e sem reacções respeitáveis dos “guardiões da memória” da esquerda ou de “esquerdistas ocasião”, que não procuram compreender a História, mas apenas a utilizam como muleta para a manifestação das suas sensibilidades, normalmente passageiras. Não estou interessado mais em colaborações institucionais, mas fiz saber às partes envolvidas que poderei colaborar ocasionalmente, a nível pessoal e profissional (como historiador do Estado Novo), neste projecto, que se pode assemelhar, não ao que se passa em Dovia de Predappio, terra de Mussolini, mas em Munique, no lugar onde se realizaram os famigerados congressos do Partido Nazi. Tive ocasião de visitar estes e outros lugares de triste memória (como o “ninho da águia”, casa de Hitler nos Alpes Bávaros) e, sobre eles e sobre este tipo de projecto de Santa Comba Dão, tive oportunidade de escrever e de falar através dos meios de comunicação. Sem grande resultados, é certo, mas com a consciência tranquila, de historiador e de defensor dos ideais de Abril.

Luís Reis Torgal


ARTIGO NO PÚBLICO, 28 de Fevereiro de 2025

José Pacheco Pereira

A memória contra os fantasmas

O conhecimento da História, assente nas regras científicas e em sólidos fundos documentais, é, em particular nos nossos dias de sombras, um serviço para a democracia.

https://www.publico.pt/2025/02/28/culturaipsilon/opiniao/memoria-fantasmas-2123948


COMUNICADO DA URAP (5 DE MARÇO DE 2025)

Contra o Museu Salazar – Repete-se a armadilha para desenterrar o ditador Salazar

União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) foi de novo surpreendida pelas notícias de um projeto que se esperava estar definitivamente enterrado. Custa a compreender que um presidente de Câmara de maioria PS e conhecidos investigadores de história contemporânea, conhecedores do que foi o fascismo e os seus crimes, retomem projeto tão contestado, tão repudiado por democratas e antifascistas e, uma vez mais desrespeitem, com retocados argumentos, sentimentos de todo um povo que tanto sofreu e lutou para se libertar da opressão e do terror.

Protagonistas e promotores podem de novo exibir percursos académicos, propósitos «científicos», motivos diversos para justificar o injustificável: aproveitar a antiga escola na terra do ditador fascista, símbolo de uma escola segregadora, e quererem impor a construção de um pseudo «Centro de Investigação» do Estado Novo, que contribuiria para branquear um regime criminoso e a figura sinistra do ditador nascido no Vimieiro.

A história do fascismo é conhecida, com as dezenas de milhares de presos políticos; os locais onde eram torturados, como na António Maria Cardoso, no Aljube, em Coimbra, no Porto, em Caxias e nas delegações da PIDE e nos diversos postos das polícias onde, em muitos casos, ocorriam os primeiros espancamentos; a lista dos 230 assassinados pelas polícias do regime fascista; a lista e os nomes dos cerca de dez mil jovens militares que morreram na guerra colonial e dos muitos mais milhares que regressaram estropiados.

São hoje mais conhecidas as mazelas do Portugal amordaçado, o que foi a exploração, o que significou a censura; a ajuda que o ditador fascista deu ao fascismo em Espanha; o que copiou do regime fascista italiano e alemão para dominar pela opressão e violência os portugueses e os povos africanos colonizados.

Desse tempo não pode haver neutralidade face à memória e à história. Não se pode colocar lado a lado, na mesma balança, democracia e fascismo, como para se dar a escolher; não se pode colocar em confronto torturadores e torturados, não se pode humilhar a memória e a honra dos que com coragem, luta e humanismo iluminaram o inigualável processo libertador.

A URAP, associação de democratas e antifascistas, tal como o fez em momentos anteriores sobre o mesmo projeto, denuncia o que objetivamente é a promoção de um ditador fascista, de 48 anos de terror e morte que ainda estão presentes na memória dos portugueses.

Para conhecer melhor e estudar o que foi o regime fascista de Salazar e Caetano – o «Estado Novo», como o ditador o baptizou e os autores do projecto assumem – que se recorra às Universidades, onde se estuda a História Contemporânea; que se ajustem e melhorem os manuais escolares nos outros graus de ensino, muito parcos na informação objectiva e concreta sobre esse período da nossa história, mostrando o que foram os 48 anos de barbárie e o que significou para os portugueses e para o mundo a Revolução de Abril; que se visite o Museu do Aljube e o Museu Nacional Resistência e Liberdade, na Fortaleza de Peniche (que em poucos meses teve mais de cem mil visitantes), ambos com um calendário de centenas de visitas escolares.

Um espaço sobre a história do ditador fascista e do seu prolongado regime, chamando-se «centro interpretativo» ou tenha ele o nome que tiver, não é uma questão de «polémica». A URAP considera uma afronta que de novo «ilustres» investigadores, alguns já repetentes em versões anteriores, teimem em querer erguer um tão inqualificável projeto. O país não precisa de locais para romagens dos saudosistas, nem que se falsifique ou branqueie o fascismo e os seus crimes.

Para dar a conhecer melhor o que foi o regime fascista, importa sim lembrar e homenagear todas e todos os que lutaram contra a opressão. Que se ergam também espaços de memória na antiga Fortaleza de Angra do Heroísmo, local onde entre 1933 e 1943 centenas de ex-presos políticos sofreram a brutalidade do regime prisional, tantas vezes na «Poterna» e no «Calejão», semelhantes à «Frigideira» no Campo de Concentração do Tarrafal, e que o mesmo seja feito na antiga cadeia da PIDE no Porto, uma das cadeias em que mais presos políticos estiveram. Nestes dois locais, sim, enquanto parte muito significativa da memória história do sofrimento e luta desses tempos.

A Câmara Municipal de Santa Comba Dão não pode ser isenta neste teimoso processo, ao pretender servir-se da figura sinistra do ditador fascista como forma de promoção do concelho, ofuscando a imagem e a natural beleza do município e da Região. O dinheiro dos impostos dos cidadãos não pode servir para tais fins, mas sim para a promoção de valores humanistas, libertadores e de progresso de que foi e continuará a ser exemplo a Revolução de Abril.
A URAP dirige-se a todos e todas que abraçam valores e conquistas alcançados com a Revolução dos Cravos para não ficarem indiferentes, não aceitarem e combaterem esta repetida e igual iniciativa da Câmara de Santa Comba Dão.

Numa altura em que no país, na Europa e no Mundo ressurgem ideias e projetos reaccionários e fascistas, se prolongam conflitos e cada vez mais, em vez de paz, se fala e recorre ao militarismo não se dê lugar a espaços que repetidamente saudosistas reclamam.

URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses
Lisboa, 5 de Março de 2025


ARTIGO NO DIABO, 14 de Março de 2025.

Fernando de Castro Brandão

 


ARTIGO NO PÚBLICO, 15 de Março de 2025

Fernando Rosas


Correr o risco de transformar os locais simbólicos do salazarismo em altares de romaria nostálgica sob o pretexto de os “interpretar”, parece-me totalmente fora de propósito.

https://www.publico.pt/2025/03/16/opiniao/opiniao/salazar-santa-comba-dao-2126099

Não é nova a diligência do município de Santa Comba Dão em tentar fornecer uma
cobertura académica ao seu velho projeto de criação de um “centro interpretativo”
sobre Oliveira Salazar e o regime salazarista numa “Escola Salazar” preservada com
esse nome na cidade. Gorados todos os esforços de envolver na iniciativa unidades de
investigação das universidades, parece ter sido a ideia novamente desenterrada, agora
com a concordante parceria do arquivo Ephémera pertencente a José Pacheco Pereira.
No que me toca, também calhou, há poucos anos, ter sido abordado pelo Presidente
da Câmara de Santa Comba para promover a realização do recorrente e entupido
projeto. A proposta, aliás muito amável, veio acompanhada de enfáticas garantias de
rigor e autonomia nos procedimentos e de recusa de qualquer tipo de manipulação
nostálgica. Todavia, recusei delicadamente o convite pelas rasões que seguidamente
passo a expor.

Em primeiro lugar, por razões de ética democrática. Considero que uma análise crítica
e séria das ditaduras do século passado e do seu contexto não parece ser compatível
com ter por centro patrimónios suscetíveis de, por razões várias, se transformarem em
locais de culto e de nostalgia desculpabilizante da natureza desses regimes e dos seus
crimes, tendendo à exaltação laudatória dos seus chefes. É normalmente o caso das
evocações em torno das sepulturas dos ditadores, da sua terra natal ou de outros sítios
ou monumentos propensos a toda espécie de pressões ideológicas, exploração
emocional ou até de negociatas fabricadas a pretexto de uma espécie de saudade
redentora e reabilitadora. Foi o que aconteceu em Predappio, terra natal de Mussolini,
ou no Vale dos Caídos, em Espanha (pelo menos até lá estarem sepultados Franco e
José António, líder da Falange), ou em vários locais de culto nacional-socialista na
Alemanha.

Em segundo lugar, e consequentemente, a minha recusa fundamentou-se no facto da
transposição desse risco de manipulação memorial para Santa Comba Dão ser óbvio e
iminente. O concelho e o Vimieiro foram o local de nascimento do ditador e o teatro
idílico dos seus lazeres; é lá que está sepultado, e é em Santa Comba que se preserva
elogiosamente a sua memória numa “escola” a que se deu o seu nome e, segundo
creio, vai albergar o tal “centro interpretativo”. Admito que as intenções dos atuais
promotores possam ser as melhores, mas não posso desconhecer o espírito dominante
local onde parecem misturar-se o desejo de promover um “turismo negro” em volta
do culto memorial do ditador e certos propósitos de ressurgimento neossalazarista.
Uma combinatória que no passado recente não só abafou as melhores intenções como
se traduziu até em agressões físicas contra expressões de protesto anti-salazaristas.

Em terceiro lugar, discordo e discordei da colaboração com a iniciativa municipal por
razões de manifesta inoportunidade política que estranho escapem aos atuais
promotores. Decididamente, quando vivemos em Portugal, na Europa, nos EUA e
globalmente uma perigosa e agressiva emergência de uma extrema-direita fascizante,
correr o risco de transformar os locais simbólicos do salazarismo em altares de romaria
nostálgica dos seus velhos e novos prosélitos sob o pretexto de os “interpretar”,
parece-me totalmente fora de propósito. Permitam-me que recorde que o anúncio da
exumação desta defunta ideia ocorre quando ainda estão em curso as várias iniciativas
que assinalam o cinquentenário do 25 de Abril…

Em quarto lugar, para além das questões de fundo, invoquei razões práticas atinentes
à viabilidade do projeto que, com ou sem a Ephémora, é de âmbito municipal. Criar um
museu/centro de documentação sobre o ditador e o seu Estado Novo não é tarefa fácil
que se resolva anunciando-a. Se não se pretende cair na mediocridade do improviso e
do eterno e atamancado provisório, isso supõe a intervenção de arquitetos,
museólogos, arquivistas, investigadores, técnicos de informática, pessoal auxiliar, além
da aquisição e instalação de equipamentos, mobiliário, comunicações, luzes, sons, etc.
Não só para a inauguração do espaço como para a sua futura manutenção e
funcionamento diários a partir daí e numa cidade do interior do país. O que exige
meios humanos e financeiros avultados que não está à vista o município poder dispor.
Quem vai então financiar o dito “ centro”? Até acredito que generosos descendentes
atuais das “forças vivas” do antigo regime possam contribuir para facilitar a coisa. Mas
a coisa que daí sairia seguramente pouco teria a ver com as boas intenções
anunciadas.

Por tudo isto não vejo motivos para mudar de opinião. Bem pelo contrário.


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