BARREIRO: A CIDADE DOS ARQUIVOS (2021-2025)

A propósito de mais uma exposição colectiva dos arquivos da Cidade dos Arquivos, uma experiência de colaboração única no país.

Na verdade desde 2019…

 


A cidade dos arquivos: como o Barreiro se tornou um cofre de memórias coletivas?

Há uma parte da História do país guardada em antigos armazéns junto ao Tejo, entre panfletos proibidos, cartas de amor e mapas inéditos. No Barreiro é assim que se guarda a memória, o que faz deste lugar a “Cidade dos Arquivos”.
Isabel Costa na exposição minas no Barreiro, a cidade dos arquivos
Isabel Costa na exposição minas no Barreiro, a cidade dos arquivos, a propósito das celebrações do Dia Internacional dos Arquivos. Foto: Inês Leote

Ese a História do país tivesse morada? No Barreiro, a História não é um conceito abstrato: é um corpo vivo, organizado, partilhado — e cuidadosamente arquivado. O que lhe valeu um projeto e uma assinatura: Barreiro é a “Cidade dos Arquivos“.

Há fotografias de famílias portuguesas nas antigas colónias, panfletos contra o Estado Novo, mapas de minas e registos de navios que cruzaram o Tejo no século XIX. Foi entre antigos pavilhões industriais e novos espaços culturais, no Parque Empresarial da Baía do Tejo do Barreiro, que a cidade se tornou casa da memória do Barreiro e do país.

Ali, reúnem-se agora quilómetros e quilómetros de memórias arquivadas por instituições como o Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra, o arquivo Ephemera (de Pacheco Pereira), o Espaço Memória da Câmara Municipal, a Fundação Amélia de Mello, o Centro de Documentação do Museu Industrial da Baía do Tejo, o CHAPAS – Clube História e Acervo Português da Actividade Seguradora, a Escola Superior de Tecnologia do Barreiro/IPS, o Colectivo SPA e a ADAO – Associação para o Desenvolvimento das Artes e Ofícios.

São milhares de fotografias, jornais antigos, documentos… e histórias.

Mas afinal, por que razão é o Barreiro a “Cidade dos Arquivos”?

A designação “Cidade dos Arquivos” começou a ganhar força em 2019. Foi o Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra que terá dado o primeiro passo, para depois se juntarem aos atuais parceiros do arquivo e diversos coletivos artísticos sediados na cidade.

Juntou-se o útil ao que já era palpável. O Barreiro foi escolhido como a casa da iniciativa por, nesse mesmo ano, 2019, as diversas instituições que fazem parte do projeto terem acervos no Arco Ribeirinho Sul, uma zona que se tem qualificado para usos culturais e patrimoniais – com espaços expositivos que ocupam antigos armazéns industriais, projetos de preservação patrimonial, residências artísticas, entre inúmeros outros projetos.

A cidade cresceu ainda com um importante nó ferroviário e industrial, onde comboios e fábricas marcaram o ritmo da cidade. Esse papel trouxe não só trabalho, como uma enorme quantidade de documentos — registos de serviço, correspondências, projetos e as mais simples, mas importantes, memórias do dia a dia.

Exposição Minas na cidade dos arquivos, Barreiro
Exposição Minas na cidade dos arquivos, Barreiro. Foto: Inês Leote

Onde o tempo atraca

O que hoje é arquivo em tempos foi cais de chegada e partida. O Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra têm no seu acervo registos de décadas de atividade marítima — datados desde o século XIX à atualidade.

Localizado no edifício Guadiana em Barreiro, este arquivo foi criado em 2019 para centralizar documentos dos três portos. São 80 mil registos em digital e cinco quilómetros de documentação física, entre plantas de infraestruturas portuárias, registos de cargas, relatórios e cartografia… que contam histórias.

Sara Charneca, 44 anos, responsável pelo Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra não começou por aqui. “A minha licenciatura foi na área da psicologia, mas depois da vida académica fui para uma multinacional. Trabalhei nesta área (de arquivos), tive oportunidade de entrar no Porto de Lisboa na área do centro de documentação e arquivo e tomei gosto pela biblioteca e pelo arquivo” confessa.

Sara Charneca a na exposição minas no Barreiro, a cidade dos arquivos
Sara Charneca na exposição minas no Barreiro, a cidade dos arquivos. Foto: Inês Leote

Apesar dos avanços na conservação dos arquivos, o valor de uma memória física é subestimado, diz. “Atualmente não damos o devido valor ao papel, ao arquivo. É muito importante e útil o digital, para o arquivo, mas o papel perdura muito mais no tempo que um arquivo digital.”

Na “Cidade dos Arquivos”, o Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra contribui tanto com a dimensão do seu acervo, como pela forma como se disponibiliza à comunidade. “Fazemos lá exposições, é um espaço polivalente onde podemos ter não só o nosso acervo, mas também ter espaço para outras exposições.”

Fazer arquivo das pequenas grandes histórias

Já o arquivo Ephemera, fundado por José Pacheco Pereira, abre as portas para outro tipo de memórias: são panfletos, jornais, fotografias e objetos do quotidiano. Aos 76 anos, o atual presidente do arquivo, ex-deputado, passa o tempo a “arranjar papéis”, nesta espécie de biblioteca privada que há no Barreiro desde 2017.

Desde a época da PIDE, durante o Estado Novo, que José Pacheco Pereira começou a guardar exemplares de documentos importantes. Mais tarde, começou a receber doações e, depois, foi mesmo a falta de espaço que o fez criar oficialmente o arquivo Ephemera.

Andou sempre de mão dada com a curiosidade pela memória: “Eu vivi em casa dos meus pais numa verdadeira biblioteca. A minha família tinha uma biblioteca de várias gerações, e eu vivia lá, portanto, li muita coisa”, conta Pacheco Pereira.

Hoje, o Ephemera é também um lugar de histórias, como aqueles livros que ele leu. Mais que um espaço onde se arquiva documentos, é onde histórias, grandes ou pequenas, ganham lugar e não se perdem na outra História – a de “H” grande. Para José Pacheco Pereira, perder histórias, sejam elas importantes ou modestas, “seria um enorme prejuízo”.

“Teríamos dificuldade em saber muito do que aconteceu do ponto de vista político nos últimos 50 anos. Teríamos dificuldade em saber como viviam as famílias portuguesas nas colónias, documentado em fotografias. Teríamos dificuldade em saber muitas matérias propagandísticas, quer do regime quer contra o regime” explica o presidente do arquivo.

Por isso mesmo, diz que é “mais um movimento pela memória do que um arquivo”. Com o lema “Se o Diabo publicar panfletos vamos ao inferno recolhê-los”, o arquivo Ephemera não faz distinção e aceita todo o tipo de documentos ­ — panfletos, cartas, todo o que possa ser arquivado — com o objetivo de garantir que nenhuma história fica esquecida. Desde histórias pessoais, espólios de organizações, documentos de natureza arquivistas e outros espólios “praticamente impossíveis de organizar”, o Ephemera retém um verdadeiro mosaico de história que, de outra forma, seriam perdidas.

“Eu fui feito pelos papéis e de alguma maneira agradeço aos papeis, salvando-os” , diz José Pacheco Pereira.

O arquivo funciona à base de uma equipa de voluntários, que contribuem para a preservação e organização destas memórias.

Arquivar o passado para ajudar o futuro

As celebrações do Dia Internacional dos Arquivos, 9 de junho, vieram mais cedo este ano. Uns dias antes, a 5 de junho, a “Cidade dos Arquivos” abriu a “As Minas na cidade dos Arquivos”, resultado do trabalho conjunto entre os vários arquivos e coletividades. Documentos, fotografias e mapas que contaram a histórias das minas no Barreiro.

Isabel Costa, 58 anos, professora adjunta na Escola Superior de Tecnologia do Barreiro, juntou-se a um geólogo que trabalhou numa mina, um mineiro e um professor que sempre estudou o tema para contarem esta história: as minas de onde se extraía pirite, que era trazida para Barreiro para ser utilizada pela CUF – Companhia de União Fabril.

Exposição Minas na cidade dos arquivos, Barreiro
Exposição Minas na cidade dos arquivos, Barreiro. Foto: Inês Leote

A presença da CUF marcou a cidade, o seu porto e a rede ferroviária que ligava Lisboa e outras regiões. Essa dinâmica estabeleceu no Barreiro um vasto complexo industrial que abrangia diversas áreas, incluindo produtos químicos e metalomecânica. A extensa rede ferroviária facilitava o escoamento de produtos acabados. Já o porto permitia a venda para um mercado internacional.

Esse tempo impulsionou o desenvolvimento económico da região e há hoje memória que o comprova. No caso das minas, os arquivos ajudam a preservar histórias de trabalho e transformações industriais.

“É muito interessante porque para além do arquivo relacionado como a CUF, que era a empresa que justificava a existência de materiais que vinham de minas, há todo um aspeto histórico. E depois também há o aspeto do futuro, que era importante preservar nestes arquivos para mostrar e ensinar o que devemos e não devemos fazer “, sublinha Isabel Costa.

Barreiro é, hoje, o espaço onde a História não fica encerrada em gavetas. Ganham vida através do trabalho de instituições, voluntários e da comunidade, nesta que é a Cidade dos Arquivos.


Bruno Reis

Tenho 21 anos e sou natural de França, apesar de ter vivido desde criança em Portugal. Desde pequeno tive um gosto pela escrita, maioritariamente uma escrita mais criativa ficcional. Apesar de nunca ter perseguido, ou tentado criar algo original do início ao fim, a liberdade e a beleza da escrita manteve-se sempre nos meus pensamentos. Sou aluno do curso de Comunicação Social da Escola Superior de Educação de Viseu e vim para a capital para estagiar na Mensagem de Lisboa.

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