NO PÚBLICO – O DESINTERESSE DA COMUNICAÇÃO SOCIAL SOBRE A EXPOSIÇÃO”FRANCISCO SÁ CARNEIRO E A CONSTRUÇÃO DA DEMOCRACIA” (7 DE JUNHO DE 2025) (

RUÍDO DO MUNDO

ÀS VEZES PARECE QUE NÃO VALE A PENA, MAS VALE

 

Este artigo está escrito na base de interesse próprio, mas como o “próprio” não ganha nada com isso de tangível, trabalha e muito pro bono, e gasta muito do seu dinheiro, com todo o gosto aliás, sinto-me à vontade para o escrever. Sim há vantagens de influência, mas isso é mérito do trabalho do Arquivo Ephemera e não há volta a dar.

Vem isto a propósito da exposição sobre “Francisco Sá Carneiro e a construção da democracia” que está no átrio da Câmara Municipal do Porto até ao fim deste mês, organizada pelo Arquivo Ephemera. Sabem disso? Se for pela comunicação social não sabem. É uma exposição que não está na moda, uma exposição em que mais do que ver, é preciso ler, e não se compara com alguém a dar três saltos num palco e a gritar frases antirracistas, ou trans, ou feministas, que isso sim teria com certeza imprensa, rádio e televisão. A moda é muito destrutiva da informação e do bom jornalismo.

Como quem não se sente não é filho de boa gente, custa-me este silêncio e indiferença face a uma exposição, a única neste ciclo anual do aniversário do pós-25 de Abril e do ano “quente” de 1975, que traz elementos novos sobre a história  de Portugal, no período que vai da conquista da liberdade em 1974 à difícil construção da democracia só estabilizada nos anos oitenta . Sá Carneiro é uma figura chave deste processo em pelo menos três momentos: a construção do primeiro partido democrático pós-25 de Abril, a participação eleitoral como segundo partido em 1975-6, e a vitória da AD em 1979 e 1980, primeiro caso de alternância efectiva de poder resultado de eleições. Só por isso justificava a inserção da exposição no programa de comemorações do município, com um apoio importante de Rui Moreira, do 25 de Abril.

Mas há mais, muito mais, que torna a indiferença comunicacional  mau jornalismo. Felizmente cerca de 10.000 pessoas já a visitaram, incluindo o primeiro-ministro, vários membros do governo, assim como candidatos autárquicos do PSD e do PS ao Porto, fundadores do PPD, antigos e actuais deputados, centenas de estudantes do secundário, e muita gente que provavelmente nunca se imaginou interessada em Sá Carneiro como os que a vieram ver durante as manifestações do 25 de Abril e do 1º de Maio.

O grosso dos materiais da exposição são inéditos e foram salvos por Conceição Monteiro, a quem a exposição é dedicada, junto com a memória de Miguel Veiga, fundador no Porto do PPD. Francisco Sá Carneiro não confiava no partido, – e bem à luz do que aconteceu a muitos dos arquivos do PSD, – e deu-os a Conceição Monteiro para os “esconder”. Vários anos depois, Conceição Monteiro ofereceu-os a mim e ao Arquivo Ephemera que os tem guardado e tratado, e que permitiram a riqueza desta exposição, para a qual também contribuíram documentos, fotos, e correspondência de outros arquivos do Ephemera, em particular o espólio de Mário Brochado Coelho, e o de Nuno Rodrigues dos Santos.

Praticamente em cada mesa há “novidades”, que é suposto ser bom alimento comunicacional. Na primeira,  antes do 25 de Abril, o papel de Sá Carneiro na criação da Cooperativa Confronto, uma cooperativa cultural de esquerda ligada aos católicos progressistas, e de gente que fundou o MES. Do mesmo modo se relembra a entrevista a Jaime Gama em que, antes do 25 de Abril, Sá Carneiro considera que, num partido eventualmente a fundar, o modelo seria a social-democracia e não a democracia cristã. Esta entrevista e outros documentos mostram como é uma falsificação da história dizer que as declarações hoje tidas como esquerdistas de Sá Carneiro se deveram apenas à necessidade de sobreviver em 1974-1975.

Nas mesas sobre a fundação do PPD, a lista de nomes “a convidar” para o novo partido com comentários daqueles que a viram circular entre os fundadores, e os primeiros claríssimos documentos programáticos que colocavam o PPD  no centro-esquerda ou até na esquerda como os fundadores repetiram sempre à saciedade.  Também aí há documentos sobre a tentativa falhada de trazer para o PPD os sectores da oposição à ditadura moderada e não-comunista.

Está lá também a primeira ficha de inscrição do PPD com o aviso de deverem ser declaradas nas biografias todos os actos de colaboração com a ditadura, exemplos de fichas recusadas e do papel que um “serviço de informações” secreto teve no escrutínio das biografias. Desse Serviço de Centralização e Coordenação de Informações, cujos materiais foram adquiridos a um particular, há muita informação relevante para o período mais agudo do PREC, que complementa fotografias inéditas do grave incidente de Setúbal em Março de 1975.

Nas mesas seguintes os materiais inéditos acumulam-se e documentam aspectos que até agora eram conhecidos, mas tinham sido “revistos” na sua importância pela história oficial. É o caso da tentativa de entrada na Internacional Socialista, muito mais séria do que hoje se diz, todos os processos de dissidência no PSD entre 1976 e 1979, com as opiniões anotadas de Sá Carneiro, as campanhas contra Sá Carneiro do PCP através do Diário e do PS, pessoalmente mais vergonhosa, quando do encontro afectivo com Snu Abecassis.

Noutras mesas  há muito material inédito sobre a luta de Sá Carneiro pela plena democratização do regime, com a retirada dos militares dos poderes revolucionários que detinham, as más relações como Presidente Eanes, e o erro político da campanha de Soares Carneiro, que Sá Carneiro tentou salvar pelo seu empenho que o levou ao voo fatídico em que morreu com os seus companheiros. A exposição é agnóstica face às teses de acidente ou atentado, mas mostra os desenhos da queda do avião feitos por um desenhador de banda-desenhada para a PJ.

Há muito mais, mas basta. Tem até ao fim do mês para rectificar o silêncio.

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