EXPOSIÇÃO “CASAR” NA GALERIA DE S. ROQUE (últimos dias) NA MENSAGEM DE LISBOA

Quando o amor parecia coisa (demasiado) séria: Pacheco Pereira leva exposição sobre casamentos ao Museu de São Roque

“Casar”, em exposição até final de setembro, reúne um vasto registo de imagens e objetos do Arquivo Ephemera, um curioso e elucidativo retrato da vida privada dos lisboetas e de um passado não tão distante, que já levou 600 mil pessoas à Galeria do Museu de São Roque.
Foto: Rita Ansone.

José Pacheco Pereira estaciona diante da imensa reprodução a preto e branco de uma imagem onde um casal olha para a câmara, ladeado pelos sogros. “Isso é o retrato de Portugal nos anos 1950”. Vê-se os pés descalços da sogra, o alfinete no lugar de um botão despregado, o vistoso busto da noiva…

A exposição Casar propõe uma viagem pela história de Lisboa através da vida privada dos noivos. Foto: Rita Ansone.

São estes “retratos de um Portugal”, de um passado não tão distante, que estão agora revelados nas imagens e objetos que compõem a exposição “Casar, na galeria do Museu São Roque, património cultural da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Um curioso e elucidativo passeio pela história privada dos lisboetas e o lado sentimental de Portugal, criado pelo rico acervo do Arquivo Ephemera, organizado pelo professor e ex-deputado parlamentar José Pacheco Pereira.

“No Ephemera temos milhares de fotografias e, entre elas, milhares sobre casamentos, que parecem ser as primeiras a serem descartadas pelas pessoas”, conta José Pacheco Pereira. 

Um padrão que pode ajudar a descobrir outros padrões da cultura portuguesa e foi essa busca que acabou por motivar a organização da exposição, que desde junho foi vista por 600 mil pessoas e está aberta ao público até 30 de setembro.

A vida privada dos portugueses

Assim como acontece num casamento, o acesso à exposição Casar começa pela porta de uma igreja, a de São Roque, um tesouro do barroco português. Ao lado do imponente altar está a passagem que leva ao resto do percurso, seguindo os passos de uma tradicional boda portuguesa de meados do século passado, da preparação dos noivos à chuva de arroz.

Casar” emula a decoração das casas de uma família tradicional, cuja decoração é composta por uma parede com registos familiares, bebés a sorrir, férias no litoral e, é claro, casamentos.

E não é preciso andar muito por esta enorme casa de uma família portuguesa para perceber o que José Pacheco Pereira quer dizer com “observar padrões da sociedade”.

Logo na primeira parede, fotografias ilustram um passado em sépia onde o must era o noivo e a noiva serem fotografados ao lado de um aparelho de televisão. “Afinal, houve um tempo onde ter uma televisão em casa era sinal de um certo estatuto social”, reforça José Pacheco Pereira, apontando para uma noiva aparentemente mais apaixonada pela televisão do que pelo noivo.

E por falar em paixão, esse sentimento relacionado às bodas parece não ter sido capturado pelos fotógrafos da época. Os registos mostram casais demasiadamente sérios para um momento que se esperava… tão sublime.

“Não parece haver afetividade entre os noivos, nenhum traço de intimidade”, aponta o curador da exposição. 

José Pacheco Pereira aponta para as crianças “com trombas” nas fotografias de casamento: ausência de afetividade. Foto: Rita Ansone.

Um outro padrão visível são as crianças nas fotografias. “As crianças nunca sorriem, estão todas de tromba, ao contrário das felicíssimas adolescentes”, frisa José Pacheco Pereira. Ele que conta ter-se divertido ao percorrer os quase seis quilómetros do acervo da Ephemera em busca destes registos da sociedade portuguesa, através de um ritual aparentemente tão banal.

Mas apenas aparentemente.

Noivas tristes, noivos asnos

Os retratos de casamento da exposição revelam ainda que casar foi, durante muito tempo, a alternativa mais segura e socialmente aceitável de emancipação da mulher portuguesa, notadamente durante o Estado Novo. Uma “alternativa” que nem sempre terminava numa emancipação feminina plena, muito menos feliz.

“As noivas que sorriem nas fotografias não suspeitavam que talvez aquele seria o último momento feliz de sua experiência matrimonial”, reflete José Pacheco Pereira. 

Esposas enfeitiçadas por maridos que se comportam como animais parecem fazer parte de uma longa tradição matrimonial europeia, e talvez até mundial, como sugere uma das paragens mais divertidas de “Casar” – a que conta os bastidores de um clássico omnipresente nas cerimónias de casamento: a Marcha Nupcial, criada pelo compositor alemão Felix Mendelssohn.

O Asno de Ouro, o mito no qual uma mulher apaixona-se por um asno: considerações sobre a Marcha Nupcial. Foto: Rita Ansone.

Mendelssohn escreveu a marcha nupcial em 1842 para uma adaptação de Sonho de Uma Noite de Verão de Shakespeare. “Recorreu a mitos greco-latinos sobre casamentos, entre eles O Asno de Ouro, de Lúcio Apuleio, no qual uma noiva se enamora por um burro”, explica o curador – não sem antes deixar um divertido aviso: “Portanto, pensem duas vezes”.

A exposição “Casar”, porém, não é feita apenas de registos fotógrafos e traz ainda ementas, publicações especializadas bastante populares na segunda metade do século passado, além de vestidos de noiva, pelo menos dois deles fora do “padrão nupcial” da época – como um modelo estival com bordados florais, assinado pela famosa modista da época, Maria Emília de Oliveira.

Um outro vestido José Pacheco Pereira considera o mais “sexy” da exposição, um ousado modelo em mini-saia usado no casamento de Isabel e Pedro em Las Vegas, numa cerimónia com direito a anúncio num luminoso neon com o nome dos noivos na porta e um pequeno boneco de Elvis Presley para enfeitar o bolo.

Os registos luxuosos e sexy, contudo, não seduzem José Pacheco Pereira como a já citada fotografia dos noivos ladeados pelos sogros – para ele, a imagem mais emblemática de uma exposição ao mesmo tempo divertida e enriquecedora, e que levou o curador a começar as pesquisas para uma segunda iniciativa sobre o mesmo tema.

Portanto, uma espécie de “Casar 2.0“. A prova de que, em tempos onde o divórcio parece ser um trend, ainda é possível aprender através de um ritual aparentemente démodé como é o secular casamento.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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