A morte da nossa amiga e voluntária do Ephemera, Maria Augusta Novo, deixa-nos um vazio e uma saudade pela sua dedicação silenciosa e pelo seu trabalho rigoroso. Como acontece com muitos dos nossos amigos e voluntários, nunca perguntamos de onde vem, o que pensam, e o que os motiva, mas acabamos por ter surpresas, algumas vezes quando a morte chega. Sabemos sempre que foi uma vida cheia, ser voluntário do Ephemera atrai quem tem vida, experiência e saber, e mais uma vez issi se confirma. A nota biográfica afectiva dos seu familiares mais próximos que publicamos a seguir, em particular os seus filhos e aos “seus”, Jorge, Teresa e Filipe Novo Palma, revela essa vida.

No Arquivo Ephemera, a Maria Augusta Novo, trabalhou no polo da Ler Devagar, e no polo de Arroios, participando na organização da correspondência de José Fonseca e Costa, e depois em Arroios na colecção de calendários das campanhas políticas. Como doadora, ofereceu ao Arquivo materiais do PS, das mulheres socialistas e da Liga dos Direitos das Mulheres.
Obrigado por tudo.
Nota biográfica
Maria Augusta Gonçalves Novo, nascida a 15 de abril de 1937, nas Caldas da Rainha e que faleceu a 4 de fevereiro de 2026, em Lisboa, foi uma mulher livre e corajosa, cidadã exigente e solidária, que viveu com sentido crítico e dedicação à família e à liberdade.
Infância e Adolescência
Viveu a infância e adolescência nas Caldas da Rainha. Filha de António de Sousa Novo, oriundo da Faniqueira, aldeia vizinha da Batalha e de Clotilde Gonçalves Novo, das Caldas da Rainha. Cresceu envolvida pelas interrogações próprias de um pai, expulso de Alcobaça no início dos anos 30, pelo Estado Novo, por ser dirigente sindical dos caixeiros e que veio a estabelecer-se como armazenista nas Caldas da Rainha, atividade que exerceu com pulso, disciplina, dedicação e integridade e que trouxe algum desafogo à família. A Maria Augusta, Marga ou Augustinha nos círculos de amigos da Foz do Arelho e das Caldas da Rainha, viveu num ambiente de livre pensamento e de oposição, a que se juntaram depois os valores da solidariedade e iniciativa, já que o pai foi membro do Rotary Club das Caldas, fundado em 1953 e ao qual mais tarde presidiu.
Juventude e vivência universitária
Aos 17 anos foi estudar para Lisboa, tendo ficado a residir num Lar de estudantes. Cursou Geologia na Faculdade de Ciências, frequentou as tertúlias universitárias e demorou o curso, vindo a conhecer o futuro marido, Domingos Manuel Fialho Palma, oriundo da Cuba, no Alentejo e então oficial da Armada.
Casamento, família e período em África
Casou-se em 1960, tendo o casal residido em Oeiras durante alguns meses até ao nascimento do filho em 1961. Partem para África no final desse ano, instalando-se em Luanda com o filho, enquanto o marido está embarcado numa fragata estacionada em Angola. Regressam, mãe e filho a Portugal Continental em meados de 1962 para o nascimento da filha, logo regressando os três a Luanda. Com o fim da comissão do marido na fragata, a família regressa a Portugal em 1963. Após um curto interregno em Lisboa, seguiu-se outra “comissão”, agora de 4 anos, acompanhando o marido em Moçambique, como capitão do porto de Nacala e no último ano, de Inhambane. Aqui, a estabilidade temporal, permitiu-lhe outro envolvimento, lecionando o ensino básico, animando os círculos locais e, anfitriã, recebendo as guarnições dos navios em missão naquelas águas quando aportavam a Nacala ou a Inhambane. Ficam deste período os relatos dum fino sentido de anfitriã, cultivado pela Maria Augusta, de ter a casa cheia e da busca do convívio social abrangente, intenso e duradouro.
No início da década de 80 divorciou-se, casando-se em 1983 com José Carlos Ferreira de Almeida, voltando, contudo, a divorciar-se novamente ao fim de pouco tempo.
Trabalho, profissão, empresas, serviço público
Regressada a família a Portugal Continental em 1968, nasce o 3.º filho no ano seguinte e nesse mesmo ano inicia atividade nos estudos de mercado, primeiro na Lever e posteriormente na Contagem, que fundou com uma colega e amiga. Desta época conturbada e desafiante, a Maria Augusta recordava amiúde os ensinamentos recolhidos através de um estudo sobre a alfabetização, em que percorreu as aldeias no norte do país. Passou mais tarde para as empresas IMAVIZ, para a Norma, na década de 80 e a partir do final desta década, para a Euroteste, consolidando e desenvolvendo o seu percurso profissional.
Especializou-se em estudos qualitativos, mas acompanhou com a sua sensibilidade e interpretação a introdução das primeiras projeções eleitorais nas noites eleitorais, no início dos anos 80.
Com a aceleração tecnológica e a digitalização acompanhou as linhas da frente das inovações tecnológicas, sem nunca perder o sentido de consumidora exigente.
Com a adesão nacional à CEE, participou na realização de diversas campanhas do Eurobarómetro, de que foi ponto de contato nacional.
Com o virar do século, foi colaboradora da então Alta Autoridade para a Comunicação Social, trabalhando na verificação da conformidade técnico legal da publicação de sondagens.
Colaborou na realização de estudos sociais e investigação com diversas instituições de ensino superior e de investigação associadas.
Cidadã e Atividade Política
Viveu a Revolução com a alegria própria de quem se tinha envolvido em privado no debate dos desafios da política e do regime, acompanhando neste aspeto o marido, que passara em 1970 à situação de reserva da Armada e iniciara uma carreira de gestão na Phillips. Foi igualmente um tempo em que o casal acompanhou desenvolvimentos e debates relacionados com o futuro do país, designadamente na SEDES.
Envolveu-se nos desafios da implantação da Liberdade e da Democracia, sempre participativa e com uma particular sensibilidade crítica, e em busca da afirmação do papel da mulher.
Como cidadã foi presidente de mesas eleitorais logo nas primeiras eleições, exercício que assegurou durante anos a fio na freguesia onde residia, em Algés.
Envolveu-se e participou ativamente na fundação e atividade das associações de pais nas escolas dos filhos.
Foi mulher socialista e fundadora da Liga dos Direitos da Mulher.
Foi membro eleita da Assembleia de Freguesia de Algés.
Cultivou a opinião política, o debate de ideias e a intervenção na base. Em 50 anos não falhou nenhuma descida da Avenida no 25 de Abril, sempre de cravo vermelho ao peito e dois ou três na mão para oferecer a quem pedisse.
Personalidade
Apoiou incessantemente os filhos nos seus projetos, disfarçando ansiedades, saudades ou o coração apertado quando identificava riscos para ela inaceitáveis, fosse em ambientes mais benignos como a ida do filho mais novo, aos 17 anos, para um ano de intercâmbio nos Estados Unidos da América, através do American Field Service (AFS), ou anos mais tarde, mais desafiantes, em viagens por territórios inóspitos, dando a volta ao mundo, em expedições nos Himalaias ou na Antártida.
Acolheu em sua casa jovens americanos, ainda no âmbito do AFS, ou familiares que tal como ela décadas antes, vinham estudar para Lisboa e precisavam de acolhimento.
Cultivou as suas relações pessoais, as suas paixões e aprendizagens autodidatas, quando o tempo lhe permitia, desde o Arraiolos, criando os seus próprios padrões, ao Bridge, no qual se iniciou com o seu marido Domingos na década de 60 e para o qual revelou rara intuição, estudando e atualizando-se, até animando, durante a Pandemia, círculos virtuais de prática e socialização pelo Bridge.
Voluntária
Na sua postura cidadã, reconhecendo o alcance e os efeitos produzidos, associou-se como voluntária à Ephemera, à qual se dedicou com denodo nos últimos anos, assegurando o funcionamento regular e periódico de um ponto de recolha e o registo e classificação dos documentos e materiais recolhidos.
A Família alarga-se
Com o nascimento de 5 netos e netas no início dos anos 90 a que se juntaram mais dois em 2009, nunca descansou, sempre atenta, generosa, alegre e disponível. Com o nascimento dos bisnetos que lhe trouxeram um orgulho e alegria desmedidos (seis no momento do seu falecimento), manteve o seu perfil de prontidão e braços abertos, contudo exigente nas responsabilidades de cada um no seu papel próprio e autonomia.
Conclusão
Exigente consigo própria, mesmo dura, assim o exigia aos que a rodeavam e aos filhos, mas sempre numa perspetiva de crescimento, de autonomia e de responsabilidade. Crítica acérrima das mudanças sem sentido, nunca abandonou esta postura, cultivando o humor e a hospitalidade.
Apreciava um bom desafio nunca se furtando aos que a si própria colocou, ou que os filhos ou com quem se relacionava, lhe colocassem.
Apreciava o ar livre, a caminhada e um piquenique em família e com amigos.
Como um amigo procurou descrevê-la, “em paz com a sua vida e a sua prole, orgulhosa dos seus filhos, personagem imponente, exigente e politicamente esclarecida, de humor refinado e subtil, não ligando ao supérfluo, nem às minudências da existência, honesta sem transgressões, ou curvas, ou zonas cinzentas, de amizade difícil e severa”.
Conduziu-se com a liberdade e a autonomia que defendeu e exigiu sempre para si e para todos, sabendo ouvir e decidir.
Amava a vida e lutou por ela, mesmo em desigualdade, até ao último suspiro.
Algés, 5.02.2026
Jorge, Teresa e Filipe Novo Palma






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