Posted by: JPP | 28/07/2013

RESTOS E RASTROS (NO PÚBLICO DE 20 DE JULHO DE 2013)

Aqui se reproduz o meu artigo do Público, que tem a ver com o EPHEMERA:

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Aqui há algum tempo escrevi sobre as bibliotecas mortas que recolho um pouco por todo o lado. Agora vou escrever sobre os papéis da vida das pessoas e o seu destino, quase sempre tão perecível como a morte dos seus donos e autores. Adeleiros, farrapeiros, recolhedores de tralha, como algumas comunidades cristãs como o Movimento Emaús, lidam com esses restos que ninguém quer, dando-lhe pouco mais do que o valor simbólico do peso, ou da reciclagem que os mais pobres dos mais pobres dão às coisas que precisam. Muitos anos a frequentar esses locais para onde vai aquilo que ninguém quer dão-me uma noção bem nítida da inanidade da vida de cada um e um muito maior apego ao sentido material do valor do “paraíso terrestre”. Numa altura em que nos dão cabo do presente real com o pretexto de um futuro virtual, eu valorizo cada vez mais a “família terrestre” em vez da “família celeste”, a felicidade que eu sei que existe de certeza, a da terra, não a desprezando em nome de qualquer paraíso futuro, muito menos do falso paraíso do futuro dos “nossos filhos e netos”, a moeda aldrabada de quem destrói o nosso presente em nome do presente deles. É o que me ensinam os papéis velhos.

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Não se trata apenas de “salvar” aquilo que mereceria ter sido conservado segundo os cânones tradicionais, aquilo que o desleixo, a incúria e a ignorância deitaram para o lixo. De vez em quando, o que aparece tem importância histórica e documental. Uma vez, em Évora, encontrei num farrapeiro, já feito num embrulho destinado a ser transformado em polpa de papel, um arquivo de uma casa agrícola alentejana, com toda a sua história desde a venda dos bens nacionais, até à sua ocupação em 1975. Havia os editais das compras das herdades no século XIX, os livros de salários durante mais de cem anos, as listagens dos trabalhadores e dos seus pagamentos, a contabilidade das herdades, correspondência com as organizações corporativas, o processo de aplicação de novos adubos e de maquinaria, ou seja elementos fundamentais para a história do latifúndio alentejano e da sua evolução em quase duzentos anos. Estes papéis eram colectivos, tratava-se da história das herdades e de um concelho, importantes pela sua dimensão, continuidade temporal e relevância económica. Mas não é disto que pretendo falar.

Refiro-me aos papéis das pessoas comuns, aqueles de que as famílias, quando existem, se querem ver livres rapidamente para encerrar uma casa, ou esquecer um passado. São papéis quase sempre de mortos, ou de gente que pode estar viva num lar, mas cuja luz interior também morreu, e já não tem existência para os vivos. O Alzhaimer faz bem essa função de apagar a luz, ou basta apenas a velhice. São papéis de gente que ninguém sabe quem é, que dez anos, cinco anos depois de morrerem já não existem ou são memórias vagas, de que algum descendente se lembra a propósito de uma anedota, ou de um passeio de infância. Mais provável ainda, gente de que ninguém, absolutamente ninguém se lembra. Pó puro, o que vem nas lápides. Mas eu lembro-me, quando os papéis aqui entram.

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Passei a última semana a ver essas caixas de vidas inteiras, todas demasiado iguais no seu conteúdo, mesmo que retratando vidas muito diferentes. Os amadores de velharias e de efémera, dizem os manuais, dão valor a todos esses papéis pelo trabalho de os classificar e organizar. É verdade: esse trabalho torna-os úteis para os estudiosos, como fontes para muitas áreas da história que se desenvolveu nas últimas décadas, histórias do quotidiano, de género, mesmo histórias do consumo, das mentalidades, etc.. Também é verdade que para a curiosidade humana, feita ciência, o voyeurismo ganha estatuto. E é mesmo de voyeurismo que se trata, porque há um mergulho na privacidade e na intimidade alheia, que de facto ressuscita do Hades algumas sombras.

A relação de cada um com os seus papéis varia muito e quem não deixa este rastro, então é que, se não tiver outros feitos, desapareceu mesmo. É impressionante como os papéis deixados pelas pessoas comuns são muito parecidos entre si, para falar de gente que viveu nas décadas de trinta até oitenta do século XX. Há quase sempre caixas com cartões-de-visita, estranho nome antigo, que nunca foram usados, envelopes com tarja negra de algum funeral passado, envelopes por usar, alguns documentos pessoais, cartões de identidade antigos, cartões de uma qualquer caixa de previdência, de um sindicato, de um clube de futebol, um passe da Carris, um cartão de empresa, quase sempre já desaparecida. Por aí se pode começar a “ver” as pessoas, nas fotografias “tipo passe”, a que se juntam meia dúzia de fotografias que ficaram nos papéis quase sempre por engano. As famílias recolhem as fotografias, deitam fora tudo o resto.

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Depois há cartas, muitas vezes cartas de amor, correspondências com centenas de cartas, guardadas com cuidado. São, como se sabe, ridículas, algumas com desenhos, com um canto dobrado que diz “amor”, ou mesmo em formato de um origami nacional, cheias de palavras em todas as margens. Estes exemplos são reais, são de várias centenas de cartas que recolhi há uma semana, em que uma rapariga de Setúbal namora com um rapaz de Leiria, que está na tropa. No final dos anos trinta, até à primeira metade dos anos quarenta, um período muito duro da vida nacional, entre o risco de guerra e o racionamento, de Setúbal a Leiria vai uma enorme distância. O namoro é vivido intensamente pelos dois, que acabam por se casar. Nas cartas passam de “querido Alfredinho” a “querido maridinho”. Ela, muito menos educada do que ele, com muitos erros de ortografia, ele com um cursivo mais de escriturário ou amanuense e um português mais pomposo. Usam e abusam dos diminutivos e é ele que transforma as cartas em origamis, enquanto ela conta a muito excitante viagem que faz a Sintra e as saídas com a família nas festas populares. Quem guardou as cartas? Os dois. Era outro Portugal.

Com o tempo, aparecem outros papéis: receitas médicas, contas de farmácia, diagnósticos, nalguns casos umas revistas de medicina alternativa, ou reclames recortados dos jornais de remédios homeopáticos. Alguém está à procura da salvação, onde quer que a encontre. Em vão, senão as caixas não estariam por aí.

Há também papéis que nunca aparecem. Há recibos, facturas, letras, extractos bancários, folhas de salários ou reformas, algumas contas à mão no verso de um envelope, algumas cartas pedindo dinheiro ou a cobrança de uma dívida. Mas não há quase nada dos impostos. Até há muito pouco tempo, o fisco era uma inexistência para a maioria das famílias comuns.

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E o resto do mundo? Política, nada. Não surpreende nos anos da ditadura e muito pouca depois do 25 de Abril. Algum comunicado que ficou no meio dos recortes, porque às vezes há recortes dos jornais. Crimes, casos do dia, curiosidades. Cultura? Nas vidas mais antigas, algumas folhas de fados populares, que se vê terem sido metidas no bolso, canções de revista, umas revistas de filmes. Nada mais.

Os meus amigos acham que perco muito tempo com estes papéis “que não valem nada” e que eu organizo como se fosse um arquivo de alguma instituição séria. Se calhar têm razão. Mas não fazem ideia do que se aprende, de tangível e de intangível. Queira-se ou não, essas sombras acabam por me habitar, numa forma especial de assombração. Mas formam à minha volta um exército muito especial contra o desprezo pela gente comum, tão habitual nestes dias de “protagonismo” yuppie, sem valores nem memória, destrutivos até ao tutano. Sempre posso invocá-los, que eles aparecem.


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