ENTRADAS: PAPÉIS DE ARMÉNIO FERREIRA E DO MPLA

Copy of Scanner_20140927 (2)

Entrou27 de setembro de 2014 no ARQUIVO / BIBLIOTECA um vasto conjunto de documentos, cartas, circulares internas, notas manuscritas, fotografias, etc. que pertenciam a Arménio Ferreira, militante do PCP e do MPLA (1920-2002). A biografia publicada pela Embaixada de Angola revela a importância da sua actuação no MPLA (ver ANEXO).

Os papéis (quase todos originais dactilografados e alguns manuscritos)  incluem documentos da PIDE, relatórios sobre encontros com personalidades portuguesas, informações regulares envidas para a direcção do MPLA, em particular para Agostinho Neto, sobre a situação política em Portugal, correspondência com altos dirigentes do MPLA (incluindo Agostinho Neto), documentação pessoal de Arménio Ferreira, circulares internas do MPLA, e  materiais do MPLA – Órgão Coordenador para a Europa, Comité de Acção 4 de Fevereiro  e MPLA – Porto.

A documentação está a ser digitalizada.

 Relato de um encontro com Mário Soares sobre a situação no Zaire (12 de Abril de 1977).

Correspondência com referências a Cita Valles e à sua actuação.

ANEXO

ARMÉNIO DOS SANTOS FERREIRA nasceu a 15 de Junho de 1920, na cidade de Luanda, no popular e antigo bairro das Ingombotas.

Seu pai, António Cipriano Ferreira, fora dirigente da Liga Nacional Africana, uma instituição ligada à dignificação do homem africano e que veio a antecâmara da consciencialização nacionalista de muitos angolanos.

Arménio Ferreira frequentou o primeiro liceu existente em Angola, o Liceu de Salvador Correia, em Luanda, tendo posteriormente vindo para Portugal em 1939, onde se licenciou em Medicina, em 1946, pela Faculdade de Medicina de Lisboa.

Seguiu posteriormente para França, onde se especializou em cardiologia no Hospital de Brousset.

De regresso a Portugal, entrou para a carreira dos hospitais civis, onde exerceu a profissão com dedicação, carinho e elevado espírito de humanismo e profissionalismo. Reformou-se em 1989 já com o estatuto de Director dos Serviços de Cardiologia do Hospital de Santa Marta, local onde acabou por falecer, após prolongada doença.

Como membro da Casa dos Estudantes do Império, local onde se forjaram também grandes dirigentes políticos e intelectuais das ex-colónias portuguesas, Arménio Ferreira exerceu gratuitamente a sua profissão de médico, dando consultas aos estudantes e a quem necessitasse.

Também na qualidade de médico do Sporting Clube de Portugal, clube da sua paixão e a cujos órgãos sociais pertenceu, publicou vários trabalhos ligados à medicina desportiva, e participou de várias reuniões internacionais de carácter científico-técnico, tendo-se deslocado nomeadamente ao Brasil e a França, a convite, neste último caso, da Organização das Nações Unidas para a Ciência e Cultura (UNESCO).

Como activista político, Arménio Ferreira esteve ligado às primeiras actividades dos nacionalistas africanos na Casa dos Estudantes do Império, onde trabalhou com Agostinho Neto, Amilcar Cabral, Lúcio Lara, Pedro Pires, Marcelino dos Santos, Paulo Jorge, e outras destacadas figuras do meio político e literário da época.

A sua inquietação maior era para com os humildes e os mais desfavorecidos. Daí a sua ligação ao Partido Comunista Português. Mais tarde, na qualidade de angolano, tornou-se, desde a primeira hora, militante activo do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), o que o levou a ser perseguido pela então polícia política do regime fascista-colonial e preso por actividades políticas que desenvolvia de apoio aos nacionalistas das então ex-colónias portuguesas, que lutavam pela independência dos seus países.

Pouco antes da Independência de Angola, em Portugal, dirigiu o Comité 4 de Fevereiro e o Órgão Coordenador do MPLA para a Europa, mas a sua formação e o seu elevado espírito humanista levaram-se a não só a acompanhar a acção política, mas também a ajudar os feridos de guerra que vinham a Portugal em tratamento, na sequência das acções armadas travadas por altura da Independência. Mas não só estes. Era um aliado natural dos membros do Clube Marítimo Africano, a quem recebia no seu consultório particular, na Rua Braancamp, que estava sempre de portas abertas para qualquer consulta gratuita aos angolanos.

Mas a expressão mais marcante da coragem política e da militância do Dr. Arménio dos Santos Ferreira está incontestavelmente ligada ao acto histórico que foi a sua cumplicidade na preparação e concretização da célebre fuga de Lisboa para o exílio do seu colega de profissão, amigo e companheiro de sempre, o Dr. António Agostinho Neto, e de sua família. Este acto veio a possibilitar que o Dr. Agostinho Neto se pudesse juntar às forças nacionalistas que, como único recurso, se haviam levantado em armas.

Depois da Independência de Angola, Arménio dos Santos Ferreira, na qualidade representante do MPLA em Portugal, criou as condições para a abertura da primeira Embaixada de Angola em Lisboa, tendo efectuado diversas missões ao estrangeiro, nomeadamente aos Estados Unidos da América, por incumbência do Presidente Agostinho Neto.

Em reconhecimento da sua contribuição desapaixonada e sempre desinteressada em prol da edificação do Estado Angolano, Arménio Ferreira foi condecorado pela Assembleia do Povo de Angola.

Por tudo isto, e por muito mais coisas que aqui não foram ditas, é que o Governo da República de Angola rende a sua maior homenagem ao militante, ao patriota, ao nacionalista e ao humanista ARMÉNIO DOS SANTOS FERREIRA, a quem o país muito deve e de quem o país ainda muito precisava, especialmente neste momento em que novos rumos são trilhados no sentido de uma paz definitiva e duradoura que o nosso povo já bem o merecia, e que os conhecimentos e a experiência dele iriam agora ser tão necessários. No fundo, esta paz não deixa de ser também um legado seu.

Nesta hora de dor, em nome do Governo da República de Angola, apresento as minhas mais sinceras e profundas condolências à família, à Ana Maria, Tó e aos netos.

Que as novas gerações saibam erguer bem alto o exemplo de dedicação e humanismo patriótico legado por este homem de quem hoje com tristeza e já com saudade nos despedimos.

(Elogio fúnebre feito pelo Embaixador de Angola em Portugal, Sua Excelência Oswaldo de Jesus Serra Van-Dúnem – 18 de Outubro de 2002)

Seja o primeiro a comentar

Leave a Reply