EPHEMERA – NOTÍCIAS DA SEMANA (28 DE SETEMBRO A 4 DE OUTUBRO DE 2015) – 5

DESFAZER DE SEDES, DUPLICADOS DE CARTAZES, PAPÉIS, OBJECTOS DAS CAMPANHAS

Serão bem vindos no ARQUIVO. Vamos lá buscar, ajudar, empacotar, o que for preciso.

A destruição da memória desta campanha começa na segunda-feira.

O EPHEMERA é o único sítio em Portugal que guarda esta memória, coloca-a ao serviços dos investigadores e divulga-a.

JÁ HÁ LIVROS DA COLECÇÃO EPHEMERA / TINTA DA CHINA

livros 1

Chegarão às livrarias por volta de 16 de Outubro, mas podem já ser adquiridos directamente na Tinta da China com desconto, pela Internet:

Autocolantes do PPD

Amorzinho

NOTÍCIAS DA COLECÇÃO EPHEMERA NA COMUNICAÇÃO SOCIAL

“Um dos títulos mais singulares e originais deste ano literário”

Fragmento da crítica a Amorzinho de António Araújo no Malomil

   Amorzinho, pois é dele que falamos, saiu do arquivo de José Pacheco Pereira, onde repousava após ter sido praticamente resgatado do lixo. Foi trazido à estampa graças ao paciente e competente trabalho de transcrição e organização de Rita Maltez. Ao contrário do livro de Monnin, aqui nada existe de ficcional ou romanceado, é tudo  vulgaríssimo. Encantadoramente banal. Correspondência trocada por um casal de namorados, Maria de Lourdes e Alfredo, entre 1934 a 1943. Está lá tudo o que de mais íntimo existiu na vida de duas pessoas cujo anonimato, com louvável sentido ético, foi devidamente respeitado. Está lá tudo: os jogos e mecanismos da sedução, o dia-a-dia de um tempo lento e embaciado, a visão do mundo de um empregado de escritório e de uma costureira, sua namorada e, depois, mulher. É espantoso ver como o salazarismo, a «política» ou o «mundo» estão ausentes desta correspondência, mas ao mesmo tempo encontram-se presentes em cada uma das suas linhas. Está lá tudo, na verdade. Um casal e o seu tempo. Depois ela morreu, e ele voltou a casar. Ao que se sabe, também já morreu. Por certo, não imaginariam ambos que as suas cartas, em que se tratavam por «meu queridinho», «minha pretinha» ou «Querida Carocha», seriam publicadas um dia, em livro, e que esse livro seria um dos títulos mais singulares e originais deste ano literário. Muito próprio para os que navegam em cálidas águas twee, mas não só. Ridículo e delicodoce? Sem dúvida – e nem sequer vale a pena citar o estafado dito de Pessoa. O que vale a pena, e muito, é caminhar por este  Amorzinho dentro, que é volume multiusos: à superfície, o vulgar encontro de um homem e de uma mulher; depois, uma ilustração bem expressiva das artes de amar pequeno-burguesas nos alvores do Estado Novo; finalmente, e indo ao que mais interessa, dois seres humanos que existiram à face da Terra, de onde já desapareceram. Regressaram involuntariamente ao mundo devido a um facto tão simples como este: durante anos, trocaram centenas de cartas entre si. Depois alguém as resgatou do lixo e com elas fez um livro. E agora é como se as tivessem escrito (também) para nós. Agradecemo-lo, claro, pois somos muito curiosos. Sobretudo pela vida dos outros, que são passado. No presente estamos vivos, mas ninguém nos escreve assim.

*

Sábado, 1 de Outubro de 2015.

Texto integral enviado à Sábado:

  1. 2. Porquê a escolha destes dois títulos para arrancar com a colecção? Eles são indicativos de algum ou alguns caminhos, de alguma filosofia editorial?

A ideia foi escolher livros que retratassem a multiplicidade dos fundos do Arquivo e a sua atenção para áreas pouco estudadas da realidade portuguesa do século XX, neste caso. Qualquer dos volumes publicados e a publicar usa o Arquivo e os seus fundos como fonte primária.

Como o Arquivo se caracteriza por ter muitos materiais a que normalmente pouco se liga nas recolhas mais institucionais, queríamos que os dois primeiros livros fossem de alguma maneira pioneiros de um olhar sobre o nosso património histórico, documental, iconográfico. Lá existem os materiais habituais nos arquivos, mas também os objectos mais variados usados na propaganda política e sindical, como T-shirts, bolas de futebol, cinzeiros, balões, bandeiras, faixas usadas nas ruas e em comícios, cartazes amadores feitos em cartão, etc., etc. Por exemplo, se se quiser reconstituir as grandes manifestações dos últimos anos, só aqui se encontram os cartazes “espontâneos” que muitas vezes eram deixados no lixo e foram recolhidos por voluntários.

Os voluntários têm um papel na manutenção deste Arquivo fundamental. O Arquivo é uma iniciativa privada sem um tostão do Estado e vive do esforço e da dedicação voluntária de muitas pessoas, de que a publicação destes livros é exemplar. No seu conjunto dedicam-se a salvar, a tratar e a divulgar a nossa memória histórica. Eu dou-lhe o nome e as condições de existência, mas sem eles nada existiria com a dimensão actual. É essa a sua “filosofia”.

  1. Quanto tempo de trabalho, entre recolha, catalogação, escolha, edição, calcula que tenha colocado em cada título?

Mais de um ano, com problemas diferentes. No caso do catálogo dos autocolantes do PPD, feito por mim e pelo Júlio Sequeira, havia as dificuldades de uma iniciativa pioneira: não existe qualquer catálogo deste género, nem mesmo nos países onde os autocolantes tiveram um papel importante como em Espanha e onde estão mais estudados. A razão é simples – são muito difíceis de fazer. A ideia era fazer um catálogo de autocolantes ao modelo dos catálogos de selos e por isso escolhemos para começar uma amostra pequena e contida, os autocolantes do PPD de Julho de 1974 a Outubro de 1976. Só estão lá os autocolantes com a sigla PPD. A esse catálogo, muito atraente do ponto de vista gráfico, somamos informações e depoimentos sobre a génese da propaganda do PPD e outros materiais existentes no Arquivo, onde as “três setas” apareciam, alguns dos quais dos anos trinta.

Quanto ao Amorzinho, uma antologia da correspondência amorosa entre uma costureira Maria de Lourdes e um empregado de escritório Alfredo, entre 1934 e 1943, feita pela Rita Maltez, o trabalho foi igualmente muito. A correspondência encontrada literalmente no lixo, – uma entre vários grupos de correspondência amorosa existente no Arquivo, com diferentes datas e diferentes contextos sociais, – teve que ser limpa, ordenada, seriada e depois lida e escolhida, para dar uma sequência à história pessoal da relação. A escolha e a transcrição das cartas, cerca de 600 ao todo, mantendo os erros de ortografia e a decifração de referências crípticas principalmente à vida sexual, representou um enorme esforço.

E, embora ninguém nesta correspondência esteja ainda vivo, houve que expurgar nomes, locais, elementos de identificação, mantendo o valor documental, “literário” e de história social desta correspondência sobre aquela parte dos portugueses que normalmente não se “veem” à superfície: as pessoas comuns, o povo.

  1. A ideia é publicar com uma periocidade regular? Existe já uma lista com os próximos títulos?

Até ao fim do ano sairá um outro volume igualmente muito diferente, uma série de fotografias estenopeicas de António Campos Leal feitas nas muitas salas onde estão os livros e os papéis, retratando a passagem da luz pelos livros. A sua publicação far-se-á ainda no Ano Internacional da Luz. Depois para o ano, já estão previstos volumes na Tinta da China, – uma excepcional parceria pela sua atenção, dedicação, qualidade gráfica e editorial, – cobrindo outros fundos do Arquivo. Um deles será sobre a propaganda anti-FRELIMO nos últimos anos da guerra colonial em Moçambique (com base nos cartazes, panfletos e documentos do Espólio Sousa e Castro); continuar-se-á os catálogos de autocolantes, neste caso sobre as organizações socialistas radicais (MES, FSP, UEDS, LUAR); um estudo com os fundos do Espólio Vítor Crespo sobre as suas tentativas de fazer uma Lei de Bases da Educação; uma biografia de Nuno Rodrigues dos Santos, oposicionista de antes do 25 de Abril desde a década de quarenta e dirigente do PSD, com documentos do seu espólio em anexo, etc., etc.

O material iconográfico é excepcional, assim como os fundos documentais, pelo que a Colecção feita com a Tinta da China não tem mãos a medir.

*

Foram já realizadas entrevistas sobre os volumes e estão mais previstas para a semana.

ENTRADA: CORRESPONDÊNCIA DE E PARA HENRIQUE GALVÃO (VENEZUELA, 1959-1960)

Agradeço a J.S. a oferta de um dossier contendo os originais da correspondência enviada de e para Henrique Galvão durante o período em que esteve em Caracas na Venezuela (embora algumas cartas tenham sido trazidas de Buenos Aires). A importância desta correspondência, completamente inédita, para a história da oposição portuguesa exilada na América Latina e para a compreensão da acção de Henrique Galvão no período imediatamente anterior ao assalto ao Paquete Santa  Maria, é fundamental. Numa primeira organização, mantendo a separação original por pastas, ela compreende cerca de 200 cartas (cartas dirigidas a Galvão e cópias de cartas enviadas por Galvão e pelo Movimento Nacional Independente), materiais destinados a emissões de rádio, artigos originais e textos inéditos, e comunicados. Em seguida faz-se o inventário das pastas seguindo a ordem inicial, com alguns exemplos do seu conteúdo.

Outros originais inéditos e publicados

Correspondência expedida – Vária

Cópia de carta de Henrique Galvão a Patrice Lumumba (Caracas, 23 de Julho de 1960)

Correspondência com Lins

Rádio

Guião da primeira emissão para África e folha de subscrição da Voz de Portugal Livre.

Correspondência de S. Paulo

Santana Mota

João Alves das Neves

Carta de João Alves das Neves para Henrique Galvão , S. Paulo, 17 de Outubro de 1959.

Manuel Sertório

Carta de Manuel Sertório para Henrique Galvão, Rio de Janeiro, 13 de Maio de 1960.

Sarmento Pimentel

Correspondência Estados Unidos e Canadá

Águas

The Nation

Primo de J. A. Rodrigues

Ciríaco da Cunha

Sarah Borba

Correspondência Argentina

P. de Lima

Da Cunha Galvão

Ruy Luís Gomes

Carta de Ruy Luís Gomes para Henrique Galvão, Bahia Blanca, 30 de Julho de 1959.

Fabacién

Jorge  António

Rudolfo Prada

Barros Prado

Diversos

Manifesto da Frente Democratico para la Liberación de los Pueblos de la Peninsula Iberica, Caracas , 21 de Dezembro de 1959.

COLHEITA NA 2º MOSTRA DE EDIÇÕES SUBVERSIVAS (LISBOA, 25 – 27 DE SETEMBRO DE 2015)

DIGITALIZAÇÕES

Emblemas de instituições do Estado Novo.

Continua a digitalização dos emblemas e pins com origem na colecção do Arquitecto Távora. Mais de 250 foram já digitalizados.

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