ENTRADAS: UMA BIBLIOTECA MUITO ESPECIAL (NOTA PRÉVIA)

Local onde se encontravam os livros; colocação em novas caixas dos que estavam dispersos pelo chão; conjunto da biblioteca (a vermelho) no Armazém do Barreiro.

Histórias aos quadradinhos; livros a arejar; máquina de escrever histórica.

Tudo começou com uma proposta de “salvamento” de uma biblioteca em risco.

“Na ocasião de uma mudança de casa, o meu pai, António dos Santos Ferreira (1910-2004), armazenou várias dezenas de caixotes cheios de livros numa arrecadação anexa à casa da família (na Póvoa, concelho de Cadaval), onde assim ficaram durante três décadas, pelo menos. (…)  Pode crer que é um grande peso que me tiram dos ombros, quando já imaginava todos estes livros destinados à lixeira (uma proposta à biblioteca municipal não tinha resultado).

(…) Os caixotes de livros não estão todos em perfeito estado (a humidade danificou alguns deles) mas, segundo uma sondagem do conteúdo dos caisotes feita no ano passado, julgo que muitos são recuperáveis. Trata-se de uma parte substancial da biblioteca do meu pai e da biblioteca do meu tio, José Hattenberger Rosa (1910-1939). É essencialmente constituida por obras literárias (portuguesas e francesas, algumas espanholas), por livros de arte (não muitos, talvez), por livros de história e por livros de carácter político (uma boa parte deles dos anos 1930). (…)  Uma parte dos livros de carácter político, adquiridos numa época em que eram proibidos, pode também ter algum interesse. O meu pai também tinha quase toda a obra do Aquilino Ribeiro com dedicatórias personalizadas. Embora esteja na posse de uma parte desses volumes, julgo que alguns deles durmam ainda nos caixotes. “(Rodolphe Dos Santos Ferreira)

E assim foi: recolheram-se os livros e começou-se a tarefa de os limpar, arejar e organizar. E, com apenas quatro ou cinco caixas abertas – as que estavam mais deterioradas e com sinais de bolor, – começou a descoberta de uma bilbioteca muito especial, que o facto de ter estado tanto tempo guardada torna numa espécie de cápsula do tempo. A parte que pode ser assacada a José Hattenberger Rosa (1910-1939), comunista, é particularmente preciosa: dezenas de edições socialistas, anarquistas e comunistas dos anos vinte e trinta, portuguesas, espanholas e francesas, revistas e jornais da guerra civil de Espanha, etc., etc. Na parte que podemos ligar a António dos Santos Ferreira (1910-2004), apareceu para já um primeiro “esconderijo”, habitual nas bibliotecas e nos papéis de oposicionistas (por exemplo, Manuel Sena Rego tinha também um), em que por detrás de uma capa anódina, – neste caso uma brochura de viagens ao Egipto, – estava um grupo de papéis de circulação clandestina. E, como se disse antes, nem sequer é 10% do total dos caixotes.

 

Em breve e em colaboração com a família, faremos uma nota biográfica mais detalhada.

Agradeço por tudo isto a  Rodolphe Dos Santos Ferreira, a João José Rabaça  e a Isabel Santos Isidoro, que ajudaram a concretizar esta oferta.

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