CARLOS BRAGA
O Grupo de Teatro da Associação dos Estudantes do Instituto Superior Técnico (1965-1971) – O Teatro como Arma
O Grupo de Teatro da AEIST (Associação dos Estudantes do Instituto Superior Técnico), também conhecido por Grupo de Teatro do Técnico, foi um espaço importante de formação artística, cultural, política e humana para os que dele fizeram parte e para todos aqueles que procuravam o seu convívio. Foi um espaço de debate estético e político.
Foi como que um laboratório permanente de relações humanas, de novas formas de relacionamento entre as pessoas e, nomeadamente, entre rapazes e raparigas (igualitarismo de género, igualitarismo de funções, não discriminação de qualquer tipo).
O Grupo, desde o seu início, integrou estudantes de várias faculdades e escolas de Lisboa, embora a maioria fosse do IST. Foi constante a procura de novos caminhos no campo da estética e do próprio processo de criação teatral.
Do teatro de autor e encenador evoluiu para a criação colectiva e de expressão explicitamente política (no conteúdo, na forma e na resposta às necessidades políticas do momento, como era o caso do racismo, do colonialismo e da guerra colonial, bem como o da Reforma do Ensino em preparação pelo ministro Veiga Simão e da luta contra o fecho da Associação de Estudantes Instituto Industrial de Lisboa).
No Grupo de Teatro, seguiu-se um caminho de emancipação das figuras do autor e do encenador, bem como da hierarquização e especialização na criação teatral, em direcção a uma criação colectiva e sem poderes hierárquicos formais e rígidos . Introduziram-se, também, técnicas diversificadas, nomeadamente as do teatro chamado de épico e didáctico, com efeitos de distanciação contra a ilusão e a simples manipulação emocional do espectador, e fomentou-se um contacto mais íntimo com o espectador, com a destruição do dispositivo clássico palco-plateia.
Este caminho, iniciado, em alguns aspectos, logo numa das primeiras encenações de O Urso, em 1967, atingiu a sua plenitude com o espectáculo O Racismo não Existe, em 1969, e com o espectáculo de intervenção directa na luta estudantil, realizado no Pavilhão Central do IST, sobre o sistema de ensino e o seu papel político-económico e destinado a mobilizar os estudantes contra a reforma de ensino em preparação pelo Ministério da Educação e contra o encerramento da Associação de Estudantes do Instituto Industrial de Lisboa.
Este espectáculo foi articulado com a luta que estava em curso, rapidamente escrito e encenado para contribuir para a mobilização dos estudantes para essa luta, coordenado com a Direcção da Associação, que o solicitou ao Grupo de Teatro.
O espectáculo foi proibido no próprio momento pelo Director do IST, que ameaçou com processos disciplinares os elementos do Grupo de Teatro e os Delegados de Curso. Mas, perante a firmeza destes em realizar o espectáculo e a exigência de que fossem retiradas as ameaças, o Director cedeu quanto aos processos disciplinares e o espectáculo continuou, apesar de formalmente proibido. Foi seguido de um amplo debate entre os estudantes presentes, que enchiam o átrio do Pavilhão Central, e de discussão acesa com o próprio Director da IST.
Foi repetido, depois, num plenário de estudantes sobre a luta em curso, realizado na Cantina da Cidade Universitária e, também, em Económicas (Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras)
Para além de outras fontes de inspiração, mais antigas (como o teatro de agit-prop e Bertholt Brecht), para este percurso e para a viragem de 1969, contribuiu em muito, para além do Canto do Fantoche Lusitano, de Peter Weiss (1967) e dos espectáculos do Living Theater, sobretudo, o conhecimento do teatro brasileiro dos anos 60, em particular de A Morte e Vida Severina, do TUCA, que veio a Lisboa em 1966, de Arena conta Zumbi (1965), de que se possuía uma gravação sonora, e de Arena conta Tiradentes (1967), ambos da companhia de teatro Arena.
Cronologia breve do Grupo de Teatro do Técnico
1965-66 – Feira do Livro organizada pela Secção Cultural da AEIST
1º Curso de Teatro, realizado por Rogério Paulo
Anúncio do primeiro Curso de Iniciação Teatral, 1965/1966.
Curso de Cenografia, por Nasar Veziri
Criação do Grupo de Teatro do Técnico
Elaboração de 3 encenações alternativas de O Urso, de Tchekov (por três grupos de encenação)
Programa do 1º espectáculo do Grupo de Teatro (3 encenações da peça O Urso, de Tchekov), 22 de Abril de 1967
Apresentação de um espectáculo com as 3 encenações de O Urso, de Tchekov, cuja elaboração se iniciara no ano anterior
O Urso, de Tchekov (encenação do Estúdio I), 22 de Abril de 1967.
O Urso, de Tchekov (encenação do Estúdio III), 22 de Abril de 1967.
O Urso, de Tchekov (encenação do Estúdio II), 22 de Abril de 1967.
1966-67 2º Curso de Teatro, realizado por Rogério Paulo
Colóquio, na AEIST, com o actor e director (Nico Pepe) e um outro actor (Ferruccio Villagrossi) do Piccolo Teatro di Milano, uma das mais importantes companhias de teatro europeias e mundiais da época (Maio de 1967), que tinha vindo ao São Luiz apresentar a peça Arlequim, servidor de dois amos, de Goldoni
1967-68 3º Curso de Teatro, realizado por Rogério Paulo
Espectáculo com uma Antologia de Autores Clássicos
Espectáculo com uma Antologia de Autores Modernos (direcção de Mário Sério).
A Morte de Danton, de Georg Buchner (excerto), do espectáculo Antologia de Textos de Autores Modernos, 1º semestre de 1968
O Judeu, de Bernardo Santareno (excerto), do espectáculo Antologia de Textos de Autores Modernos, 1º semestre de 1968
A Resistível Ascensão de Arturo Ui, de Bertholt Brecht (excerto), do espectáculo Antologia de Textos de Autores Modernos, 1º semestre de 1968
Os Sequestrados de Altona, de Jean-Paul Sartre (excerto), do espectáculo Antologia de Textos de Autores Modernos, 1º semestre de 1968
Espectáculo de Poesia (selecção e direcção de Carlos Braga)
Anotações de dicção para um dos 50 poemas do espectáculo de Poesia, Fevereiro de 1968.
1968-69 Antígona, de Bertholt Brecht (direcção de Mário Sério)
Antígona, de Bertholt Brecht, 1º semestre de 1969
A Máquina de Naufragar, de Carlos Manuel Rodrigues (direcção de Carlos Manuel Rodrigues)
Cartaz de A Máquina de Naufragar, 1º semestre de 1969
1969-70 O Racismo não Existe – Criação colectiva (primeiros espectáculos em 16 e 17 de Novembro de 1969; diversos outros espectáculos, alguns com excursões organizadas do exterior para a ele assistir na AEIST; um espectáculo em Agronomia e um espectáculo em 9 de Abril de 1970, inserido numa “organização mais ou menos oficial” e especialmente autorizado)
O Racismo não Existe, espectáculo de criação colectiva, estreado a 16 e 17 de novembro de 1969 e com sessões até Abril de 1970.
Assistência no final de um espectáculo de O Racismo não Existe
Disco com música de O Racismo Não Existe.
Espectáculos nas Associações de Estudantes.
Publicação dos Cadernos de Teatro e de vários números de Textos para Discussão
1970-71 Espectáculo sobre o Sistema de Ensino e de apoio à luta pela reabertura da Associação de Estudantes do Instituto Industrial de Lisboa
–– Criação colectiva (15.12.70, com ocupação do átrio do Pavilhão Central do IST, apesar da proibição do Director do IST; o espectáculo foi repetido na Cantina da Cidade Universitária, num plenário de apoio aos estudantes do II, e no ISCEF)
27Espectáculo de agit-prop sobre o sistema de ensino e para a mobilização dos estudantes para a luta pela reabertura da Associação dos Estudantes do Instituto Industrial de Lisboa, com ocupação do átrio do Pavilhão Central do IST, 15 de Dezembro de 1970.
Vozes off e som
Assistência.
Ir ou não ir – Criação colectiva (proibido em Maio de 1971 e não estreado, devido à ameaça de encerramento da AEIST e do clima geral de luta que se vivia no momento; a sua produção iniciou-se, com escrita e ensaios, ainda em 69-70, após a estreia de O Racismo não Existe)
Texto sobre o Ir ou Não Ir.
Comunicado sobre a proibição do espectáculo Ir ou não ir (criação colectiva), Maio de 1971.






























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