JOSÉ PACHECO PEREIRA – O QUE É QUE AS PESSOAS GUARDAM? (PÚBLICO, 21 DE JULHO DE 2019)

Andando, como ando há muito tempo, “aos papéis”, posso fazer algumas afirmações que estão um pouco acima do impressionismo das opiniões. Uma delas é que posso responder à pergunta: o que é que as pessoas guardam? Já vi e organizei dezenas de espólios pessoais ou familiares e tenho uma ideia dos padrões de comportamento quanto ao que se guarda e quanto ao que se deita fora.

De que “pessoas” é que estamos a falar? Estamos a falar de pessoas da classe média ou alta, com rendimentos pessoais ou do trabalho, a maioria das vezes muito escolarizadas, com profissões como médicos, engenheiros, professores. No caso das mulheres, a maioria são “donas de casa” — esta eufemística categoria serve para designar as que trabalham em casa e mandam na casa, porque têm criadas, o que é habitual nesta altura. Que altura? Todo o século XX. Em particular, antes da década de 60.

O que é que as pessoas guardam? Principalmente quatro coisas: os livros da sua infância, os cadernos escolares, livros de cozinha e missais. O domínio da infância é o predominante, estendendo-se desde a infância propriamente dita até à pré-adolescência, o que inclui alguns cadernos escolares do ensino primário e básico. Isto significava também que havia um considerável mercado para a edição de livros infantis, que envolvia autores, tradutores, adaptadores e ilustradores. O estado dos livros revela que foram muito usados e, nalguns casos, estão juntos com ilustrações e páginas rasgadas com histórias infantis ou banda desenhada tirada de jornais e revistas. E não se encontram apenas um ou dois, mas dezenas, com a curiosidade de se encontrarem espólios técnicos, de engenheiros, por exemplo, em que a única coisa que está fora dos projectos de engenharia são os livros infantis. Isto significa que não se trata apenas de um passeio na memória da infância, mas de uma espécie de marca de identidade: “[estes livros] fizeram-me”.

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Desenho num caderno escolar em 1951; “intenções de oração” num missal, anos 30-40 (Arquivo Ephemera) 

Contrariamente ao que acontece nos países protestantes, o missal não é visto como sendo familiar, e não há a figura da “Bíblia da família”. Mas, os livros de cozinha, manuscritos ou impressos, são um dos raros casos de objectos que passam de uma geração para a outra, melhor, entre avós, mães e filhas, no universo feminino da cozinha. São anotados, marcados quando uma receita é experimentada e intercalados de novas receitas manuscritas ou recortadas de jornais e revistas. Têm todos sinais de muito manuseamento e de terem estado na cozinha. São uma janela para a própria história familiar, percebendo-se neles a condição social, os hábitos conviviais e culturais, o tempo disponível para cozinhar, a vontade de agradar com pratos elaborados, ou de “despachar” rapidamente uma refeição, e se eram feitos pela “patroa” ou pela criada. Talvez porque o know-how das cozinheiras ainda mantivesse um saber culinário mais antigo e rural, percebe-se que os livros eram mais úteis para os doces do que para os salgados, já para não falar da multidão de receitas hoje “politicamente incorrectas” com sal, gordura e açúcar em abundância.

Por esta amostra pode-se perceber porque é que “andar aos papéis” não tem um átomo de aborrecimento e como os papéis ensinam muito.

1 Comment

  1. Excelente trabalho! Obrigado e devia ou podia escrever mais vezes.
    José Brito Vieira

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