EPHEMERA DIÁRIO (5 DE MAIO DE 2020): FOI ASSIM TODOS OS DIAS DURANTE 48 ANOS…

Foi assim durante 48 anos, na imprensa, nos livros, no cinema, no teatro, na rádio, nos reclames, nem um único dia sem Censura. A Censura foi provavelmente a mais eficaz instituição da ditadura, a PIDE macerava os corpos, a Censura colocava um saco de plástico à volta da nossa cabeça e apertava. A sua eficácia vinha de ser invisível: não se sabia o que cortava, os milhares de notícias e textos anódinos pelos quais perpassava o mais ténue sinal de desrespeito pelas autoridades, do regedor até sua excelência o senhor Presidente do Conselho António de Oliveira Salazar. Muito mais do que subversão, ou a dissidência política ou a oposição, o que contava era a “paz nos espíritos” baseada no princípio de autoridade. Muitos destes cortes cheiravam a mofo, mas era um mofo pegajoso, que atacava os olhos, os ouvidos, a boca, as mãos, para entrar pela cabeça dentro e instalar-se como medo e submissão. 48 anos foi muito tempo. Nem todo o mofo saiu.

(Recortes da Colecção da Censura do ARQUIVO EPHEMERA).

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