Estes poemas de Pessoa são hoje bastante conhecidos, mas em 1960 permaneciam (?) inéditos. Numa altura em que havia muitos exilados políticos portugueses no Brasil, o país era um foco activo de oposição ao regime do Estado Novo. Algum deles enviou os poemas anti-salazaristas de Pessoa ao Suplemento Literário de O Estado de S.Paulo e este publicou-os com gaúdio do jornal e do seu “anónimo” fornecedor. Logo a seguir, alguém os enviou a Fernando Abranches Ferrão, um dos mais importantes advogados da oposição, para a sua “colecção”. Uma parte dessa “colecção” está hoje no ARQUIVO EPHEMERA de onde veio esta reprodução. Havia quem soubesse de cor os poemas – não era bem como os dissidentes russos que tinham que decorar livros inteiros para que eles não se perdessem -, mas dava jeito, impressionava os ouvintes e era boa propaganda.
Mas como acontece com a memória e a oralidade, a versão que circulava era ligeiramente diferente:
Antóno de Oliveira Salazar
Tres nomes em sequência regular…
António é António,
Oliveira é uma árvore,
Salazar é apelido. (caia o “só”)
Até aqui tudo está bem (acrescentava-se o “tudo” e em vez de ser “aí” ficava “aqui”)
Tudo isto faz sentido (acrescento)
So o que não faz sentido (acrescentava-se o “só”)
é o sentido que tudo isto tem.
Pessoa veria com ironia esras alterações dos aedos da oposição.


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