EPHEMERA DIÁRIO (16 DE MAIO DE 2020): “UM SONHADOR NOSTÁLGICO DO ABATIMENTO E DA DECADÊNCIA”

Estes poemas de Pessoa são hoje bastante conhecidos, mas em 1960 permaneciam (?) inéditos. Numa altura em que havia muitos exilados políticos portugueses no Brasil, o país era um foco activo de oposição ao regime do Estado Novo. Algum deles enviou os poemas anti-salazaristas de Pessoa ao Suplemento Literário de O Estado de S.Paulo e este publicou-os com gaúdio do jornal e do seu “anónimo” fornecedor. Logo a seguir, alguém os enviou a Fernando Abranches Ferrão, um dos mais importantes advogados da oposição, para a sua “colecção”. Uma parte dessa “colecção” está hoje no ARQUIVO EPHEMERA de onde veio esta reprodução. Havia quem soubesse de cor os poemas – não era bem como os dissidentes russos que tinham que decorar livros inteiros para que eles não se perdessem -, mas dava jeito, impressionava os ouvintes e era boa propaganda.

Mas como acontece com a memória e a oralidade, a versão que circulava era ligeiramente diferente:

Antóno de Oliveira Salazar

Tres nomes em sequência regular…

António é António,

Oliveira é uma árvore,

Salazar é apelido. (caia o “só”)

Até aqui tudo está  bem (acrescentava-se o “tudo” e em vez de ser “aí” ficava “aqui”)

Tudo isto faz sentido (acrescento)

So o que não faz sentido (acrescentava-se o “só”)

é o sentido que tudo isto tem.

Pessoa veria com ironia esras alterações dos aedos da oposição.

 

 

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