NÚCLEO EPHEMERA SPORT: MÃOS DE FADA E FUTEBOL

“Nos últimos 30-40 anos a sociedade portuguesa parece ter ultrapassado (apesar haver ainda muito por fazer) a dicotomia futebol-mulheres, uma relação sempre hostilizada. Parecia que a bola não devia entrar na vida do mundo feminino.
Então se pensarmos aos anos do Estado Novo, ainda mais vincada é a separação: jogar nem pensar! A brutalidade viril do futebol não era compatível com o corpo da mulher – visto que as mulheres precisavam se preservar para a maternidade. A fada do lar, a mãe extremosa, a esposa dedicada, não podia ser manchada por um desporto vulgar, irracional e bruto! Se alguém falava de mulheres e bola, era só para citar esposas, filhas de jogadores, nada mais. Nem como público nas bancadas! Ainda durante a ditadura, quem ia ao estádio eram maioritariamente homens.
O Núcleo Sport encontrou no imenso arquivo dos periódicos e jornais do Ephemera um curioso e interessante material que mostra como, no Estado Novo, havia quem procurasse “vias alternativas” para aproximar o futebol do universo feminino: falar de bola através do … ponto cruz e bordados.
Encontrámos alguns suplementos da revista de bordados e afins “Mãos de Fada” (publicação inspirada na congénere italiana Mani di Fata) de 1948, com temáticas futebolísticas: modelos de emblemas de clubes como o Boavista FC e o menos conhecido Almada Atlético Clube, bem como desenhos de craques da altura: João Azevedo guarda-redes do Sporting Clube de Portugal e Manuel Pessanha, craque da equipa Brasileira do Vasco da Gama. Imaginamos que devia ser um orgulho enorme para um marido adepto, ver a sua doce e fiel esposa, a mãe devota, que não percebia nada de futebol, trabalhar no emblema do seu clube, bordar lavores de ponto cruz com a imagem dos seus ídolos. Bola e mulheres? Só se a bola for um novelo de lã! Outros tempos…”

Eupremio Scarpa

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