EPHEMERA EM VISEU – EXPOSIÇÃO DE RUI SERRANO “EPHEMERA ETERNA” NO INSTITUTO POLITECNICO DE VISEU (6 DE NOVEMBRO DE 2020)

Exposição de fotografias retratando o trabalho dos amigos e voluntários do EPHEMERA nos armazéns do Barreiro em 2019-2020,  de autoria de Rui Serrano. Uma primeira versão desta exposição foi apresentada no Barreiro e, acrescentada de algumas novas fotografias, encontra-se agora no Instituto Poilitécnico de Viseu.

 


Folha de sala:

EPHEMERA ETERNA – UM PROJECTO FOTOGRÁFICO DE RUI SERRANO

Um discurso de objectividade está subjacente à fotografia desde a sua origem, na medida em que a produção da imagem não depende de uma intervenção directa do homem, antes acontece por inscrição directa no papel fotográfico, como refere Dubois, (actualmente, no ecrã digital), ou nas palavras de Roland Barthes, aquilo que a fotografia reproduz até ao infinito só aconteceu uma vez; ela repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente. A inegabilidade da objectividade na fotografia coexiste com um outro elemento indispensável à sua leitura – a aura; que Walter Benjamim definiu como uma figura singular, composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais próxima que ela esteja, tendo como principais elementos a autenticidade e a unicidade, se atendermos a uma perspectiva mais erudita, ou se pensarmos numa perspectiva mais prosaica, pode somente referir-se ao ambiente psicológico que envolve e/ ou influencia o fruidor da obra.

Quando Rui Serrano me mostrou pela primeira vez este projecto documental que  fez para a Ephemera, esse paradoxo foi evidente. Em cada imagem estava implícita a sensação de proximidade e de distância inerente. A proximidade explica-se pela espontânea incorporação deste grupo de pessoas que se une sob o mote de preservar a “memória colectiva”. Pela recolha, catalogação e arquivo dos mais variados objectos, num continuum. Existe uma frequência nestas interações que acontecem nas instalações da associação Ephemera no armazém do Barreiro.

Este trabalho fotográfico surge como registo dessa narrativa quotidiana, quase diarística e de caracter intimista (sendo o próprio fotógrafo também um elemento deste grupo). Nas suas palavras é notória essa ligação: Comecei por fotografar o arquivo duma forma completamente diferente, sem pessoas, apenas livros, papel, cartazes. Aos poucos o factor humano foi tomando conta das fotografias. Reparei que assim as imagens faziam mais sentido pois a dimensão humana do arquivo é extraordinária. (…) O factor humano é o que verdadeiramente busco no meio de tanto papel, livro, documento, caixas e caixas infindáveis de estórias por abrir.
As fotografias do Rui Serrano comportam uma dimensão orgânica. Oscilando entre os contrastes duros que lhe permitem o preto e branco, como se procurasse purificar a forma fazendo destacar o significante, passando pelos esbatimentos dos cinzentos e/ ou exaltando pontualmente a cor, num exercício de articulação estética, cuja manipulação do real também permite.

Quanto à sensação subjectiva de distanciamento, a mesma prende-se à impossibilidade de manipular o tempo, essa condição descrita por Barthes, e acima referida, de inevitabilidade irrepetível, embora transversal à essência fotográfica, que tem implícita a necessidade de assinalar a nossa presença, de preencher uma espécie de vazio ou de congelar essa concretude no tempo, que constantemente nos foge.

Esta exposição nasce assim de um espírito colaborativo, que não nos fala só de memórias, fala-nos também de afectos.

Carla Pacheco

Seja o primeiro a comentar

Leave a Reply