JOSÉ PACHECO PEREIRA – REFERÊNCIAS AO EPHEMERA NO DISCURSO DO DOUTORAMENTO HONORIS CAUSA PELO ISCTE (16 DE DEZEMBRO DE 2020)

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Por isso, o nosso olhar, aquele que informa o trabalho do Arquivo Ephemera, uma genuína instituição da sociedade civil, autónoma e ferozmente independente, o nosso olhar é mais céptico do que optimista, mais crítico do que complacente, até porque vemos e sabemos de muita coisa. Muita coisa.

A nossa ambição é ser um “gabinete de curiosidades” moderno, movido pela curiosidade, a maior força criativa. O que nós fazemos no Arquivo Ephemera é recolher os traços desta história grande ou pequena. Desde arquivos e espólios que mudam a história portuguesa, como o de Sá Carneiro, de Vítor Crespo, de Nuno Rodrigues dos Santos, de Sousa e Castro, de Henrique Galvão, dos espólios científicos, dos partidos políticos grandes e pequenos, das associações e sindicatos, da extrema-direita, da censura e das polícias, das lutas operárias, culturais, sociais e económicas, das eleições fáceis, como as presidenciais, às eleições muito difíceis como as autárquicas, com as suas muitas dezenas de milhares de itens por eleição, cobrindo desde os últimos duzentos anos atrás até hoje de manhã.   E com a intenção de o fazer numa perspectiva internacional, para dotar Portugal e os seus investigadores da possibilidade de trabalhos comparativos quer no presente quer nesse “país estrangeiro” que é o passado. E também de preservar e trazer para uma biblioteca e arquivo tudo aquilo que durante 48 anos não podia cá entrar, publicações comunistas, anarquistas, fascistas,  desde a Rinascita e o L’Humanité até ao Volk und Reich. E fazê-lo numa tentativa de criar um contínuo entre os manuscritos, os panfletos, as cartas, os livros, as publicações, os fanzines, os cartazes e iconografia diversa, e os objectos, o analógico e o digital. O arquivo é patrimonial, mantém a ideia de que as coisas físicas têm um valor de per si, porque remetem para os sentidos e a sua dimensão humana de proximidade.

Quanto àquilo a que por facilidade chamei de pequena história, os objectos humildes, as histórias comuns, o mundo dos que não ficam na grande história, mas que a fizeram com dor e sangue e sacrifício muitas vezes vãos, como aqueles que lembra Brecht num seu famoso poema:

César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?

Nós tratamos de César e do cozinheiro.

O que aprendemos é imenso, sem lugar para qualquer aborrecimento, porque é tudo aquilo de que a grande história não fala e situa-se onde estão os detalhes, o lugar em que, como se sabe, reside o Diabo. Por exemplo, o que era um rapaz solteiro pobre viver numa pensão, o interior dessa vida nos anos 30-40. Nem imaginam. Garanto-vos que olharão os filmes portugueses dos anos trinta e quarenta cheios de rapazes solteiros, marçanos, escriturários, empregados de armazém, que viviam em pensões, com outro olhar. Ou saber como se passava mal, fome, mesmo fome, nos quartéis dos anos 10 e 20 do século passado, traduzido em cartas a namoradas pedindo que lhes trouxessem um cestinho de comida para levar quando passassem em formatura pela Praça do Comércio. Ou a permanente presença das cunhas e do patrocinato, um fenómeno social que traduz a inexistência de uma administração burocrática capaz, em que o único poder era o do empenho.

Por aí adiante.

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Voltemos à memória. Sabemos que em grande parte ela é construída e selectiva, e sujeita a grandes pressões do presente para controlar, lembrar ou apagar, o passado. Sabemos também que nunca se escapa ao olhar do tempo, que muda com o tempo, e o que vemos hoje ignoramos amanhã. Por isso, nos dias de hoje sabemos até que ponto a defesa da memória é um elemento crucial na defesa da democracia, numa altura em que ela está sitiada por forças muito poderosas, vindas quer do poder político, quer de mutações de mentalidade que favorecem o crescimento de uma forma de ignorância agressiva contra as mediações da democracia, a começar as do saber e do conhecimento. As teorias conspirativas que hoje conhecem uma idade de ouro, porque servem o poder político e a ignorância, pululam nas chamadas redes sociais, que são muito menos redes e muito menos sociais do que se pensa. São menos redes porque parecendo igualitárias e democráticas, têm um sentido e uma direcção e têm quem as controle para servir os seus objectivos. E são na sua força, antes de serem “sociais”, espelhos narcisistas, com origem na ignorância igualitária e na solidão das sociedades modernas, que geram mais tribos do que “sociedades”, incorporando na vida dos mais excluídos a ilusão de que são ouvidos, ou que têm poder.

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Vídeo da intervenção:

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