EPHEMERA DIÁRIO (2ª SÉRIE) – O PAÍS PRECISA DE HERÓIS (22 DE JANEIRO DE 2021)


Os países precisam de heróis e, quanto menos heróis têm, mais precisam deles. Portugal olhou sempre para o passado das Descobertas para encontrar aí um grupo de heróis que alimentaram todos os surtos de nacionalismo, na Monarquia, na República e no Estado Novo, e que eram, na maioria dos casos, os mesmos e pouco controversos. A “fábrica de heróis” esmoreceu muito depois do 25 de Abril. Delgado vinha de trás, mas Amália e Eusébio já são dos tempos de hoje. Mas, no século XX, Gago Coutinho e Sacadura Cabral foram dos últimos heróis aceites e celebrados à época por duas nações, Portugal e Brasil. Eram os tempos dourados da aviação, o Brasil tinha Santos Dumont, nós o par heróico que tinha atravessado o Atlântico. Só que hoje, mesmo estes heróis ficaram tão anacrónicos como esta estampa que os pretendia imortalizar na sequência dos mitos das Descobertas. Vasco da Gama faz-lhes a continência, enquanto uma armada fantástica voa pelas nuvens adiante, por baixo do avião. 1500 realizava-se outra vez em 1922, por cima da Torre de Belém. Hoje perdeu-se toda esta inocência e podia dizer-se “ainda bem”, se não fossem as personagens “mediaticamente famosas”que substituíram os descobridores da Índia e os aviadores na sua frágil estrutura de lona e madeira.

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