EPHEMERA DIÁRIO (2ª SÉRIE) – A POBREZA COMO TURISMO (28 DE JANEIRO DE 2021)

O “típico”, o rural, o campo, o que se quiser, dificilmente pode justificar que Leiria possa ser apresentada como “centro de turismo”, com esta imagem de uma feira, nos anos 30. O que esta imagem nos diz é muito sobre a pobreza rural de Portugal, a enorme pobreza da maioria da população portuguesa, que é o mais que visível nesta imagem, muito pouco “turística” por mais que António Ferro quisesse vender Portugal. Nós costumamos ampliar as imagens e ver nelas os pormenores e, aqui, todos os detalhes agravam a ideia da pobreza: os trajos (e se presumirmos que houve alguma encenação na imagem, ainda pior), os produtos, pão e fruta pouco variada, mesmo a escassez de gente a comprar. A forma da fotografia não permite ver se a maioria dos que lá aparecem estão descalços, mas é muito provável que estejam, porque ainda na década de 50, o “pé descalço” era tido como um problema de “profilaxia social”. Já não me refiro às condições higiénicas, porque nesta época ninguém dava muita importância a este factor. Saliente-se que a “Comissão de Iniciativa” que produziu esta imagem é uma organização de empresários locais, que não encontraram melhor para propagandear o “turismo” de Leiria.

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