MARIA MAFALDA VIANA – OS LIVROS DO EPHEMERA – EÇA NO BARREIRO

 

Eça no Barreiro

            Ao lado da Biblioteca Ephemera de JPP, cujo fundo se situa na Marmeleira, tem vindo a ser formada, nos últimos dois anos, além do Tejo, uma pequena biblioteca, a que nos referimos com a expressão “Os Livros do Barreiro” e tem crescido com muitas doações generosas de pessoas diversificadas. Este fundo é, de um modo geral, mais generalista e os seus títulos (e edições em particular desta ou daquela obra) são, em muitos casos, uma duplicação de livros existentes na Biblioteca Ephemera principal. Trata-se, pois, também de uma Biblioteca do e para o Barreiro. Começo por este núcleo mais recente o que pensei como uma forma de mostrar um pouco desta Biblioteca e do seu fundo e de, ao mesmo tempo, permitir uma espreitadela sobre alguns dos livros, em particular os que podemos integrar dentro da zona ampla das Humanidades.

Neste fundo dos Livros do Barreiro, Eça de Queiroz marca bem a sua presença com um conjunto de títulos da sua obra em diferentes colecções e editoras e mesmo com algumas obras de crítica e de ensaio sobre o escritor. Particularmente elucidativo do perfil de vários dos seus doadores é o conjunto de volumes da obra queirosiana da colecção dos Livros do Brasil. Também a isto se deve a opção de começar com o Eça. Esta colecção conta, por ora, entre os livros já arrumados nas estantes de forma organizada, com nove títulos. Pelas características das ofertas, porém, tudo leva a crer que haverá, entre o material ainda a ser sujeito a triagem mais fina, muitos outros títulos, de tal modo que, na estante, a colecção ficará em breve completa ou perto disso.

O friso das capas encadernadas a vermelho – aqui e ali interrompido pela cor neutra das suas capas singelas do pintor Lima de Freitas – parece-me especialmente significativo, porque de algum modo ele replica qualquer coisa que marca uma presença importante em muitas casas de pessoas com livros em Portugal. Não me refiro apenas a pessoas com hábitos de leitura fora do comum. A meu ver, aquele friso identifica um conjunto de pessoas que, não formando uma percentagem elevada da população, todavia está longe de caber na magreza de um determinado número de leitores sobre os quais se poderá dizer que são eruditos. Quando eu era adolescente, o caminho para a escola, fazia-o de combóio e lembro-me de haver várias pessoas que iam a ler. É a este tipo de leitores, vasto e genérico, que me refiro – composto por pessoas que a nossa escola ia educando de tal modo que esta não era propriamente uma actividade rara durante aquela viagem diária. O hipotético avistamento de um daqueles frisos a vermelho em alguma casa onde vamos é, pois, ainda qualquer coisa de familiar a muitas pessoas, que as une e permite mesmo uma certa cumplicidade entre si.

Não obstante as várias críticas de que, não sem sentido, foi alvo – e lembro-me de ter ouvido algumas nos meus tempos de estudante na FLL, em aulas de Literatura Portuguesa –, a colecção queirosiana dos Livros do Brasil, inevitavelmente ligada ao nome de Helena Cidade Moura, foi o que permitiu, sobretudo nos anos 60 e 70 do século XX, um alargamento da leitura de Eça de Queiroz a um grande número de pessoas em Portugal. Não critico a necessidade de uma edição crítica, de modo nenhum. A sua obra levanta problemas editoriais, o que aliás, além de ser normal, no caso de Eça, até fica bem patente no volume Correspondência (Eça de Queiroz, Correspondência, Lisboa, Livros do Brasil, s. d.) com cartas a Jaime Batalha Reis, Oliveira Martins, entre outros. Desde os anos 90 do século XX, tem vindo, pois, a ser feita a edição crítica da obra queirosiana, num projecto da Universidade de Coimbra coordenado por Carlos Reis. O meu intuito, todavia, era apenas o de salientar a importância da edição dos Livros do Brasil na sua ampla divulgação.

Várias décadas após a sua primeira edição em 1888, pela Livraria Chardron, já no tempo de Lugan & Genelioux, depois da morte daquele editor, a quem Eça vendera a propriedade d’Os Maias, aquela era a edição por onde líamos esta obra no 11º ano (eu já na primeira metade dos anos 80). Era uma leitura que marcava. Mesmo os que não levariam a empreitada até ao fim, ou porque não passavam das 50 páginas ou porque iam saltitando na leitura e assim, logo desde o início, deixando para trás a linda Vénus Citereia “enegrecendo a um canto”, dificilmente não dariam pela figura surpreendente de João da Ega, esse Mefistófeles de Celorico, cujas Memórias de um Átomo o leitor mais distraído e inexperiente, desde cedo, percebia nunca passariam do famoso excerto movido pela sua excitação com Raquel Cohen. Ou então era a Maria Eduarda que assomava ao nosso espírito, surgindo “com o seu passo de deusa”. E havia toda uma série de figuras mediante as quais víamos, pela sua lente fina, transparente, segura e sofisticada, não sem confiante ironia, a vida de uma aristocracia dirigente e da alta burguesia na capital, como o Dâmaso Salcede e o seu eterno fastio ora por não estar em França ora por tudo quanto não fosse “chique a valer”, ou, entre outros, o conde de Gouvarinho, cujos cristais da luneta de ouro o seu autor fazia faiscar, de forma tão eficazmente contrastante com alguma imbecilidade acabada de dizer e que, não muito depois, podia aparecer maçando Carlos da Maia com “explicações sem fim sobre a reforma da instrução pública”…

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