O EPHEMERA FORA DO EPHEMERA: COLECÇÃO COVID NO PÚBLICO DE HOJE (14 DE FEVEREIRO DE 2021

 

A pandemia que aconteceu na rua e as palavras que ficam para o futuro

Mesmo que grande parte da nossa memória colectiva do que foi e é a covid-19 nos remeta para o sofá de casa, a eternidade do teletrabalho ou as aulas à frente de um computador, a pandemia também aconteceu para lá das quatro paredes de cada confinado. E é isso que os elementos da Associação Cultural Ephemera, a biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira, tentam preservar. “A nossa preocupação foi logo começar a guardar todo o material que sabíamos que ninguém iria preservar”, diz Fernando Correia de Oliveira. “Estávamos a acompanhar o efeito covid-19 em termos digitais, nas redes sociais, e percebemos como tudo explodiu. As repercussões políticas, os vários motivos de humor, com sátira a Donald Trump e Jair Bolsonaro. Tudo aquilo começou a ganhar um caudal impressionante. E pensámos: se ninguém estiver a guardar isto, daqui a 20 anos, estas intervenções nas redes sociais vão desaparecer”, sublinha.

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Cartaz para muppie da Swatch lançado durante o confinamento. Este é um dos muitos materiais gráficos relacionados com a pandemia que o arquivo Ephemera tem à sua guarda DANIEL ROCHA

Um aspecto que prendeu a atenção destes voluntários em particular foi o das representações da pandemia na rua. Mesmo com o país confinado, as ruas desertas, em verdadeiras cidades-fantasma, também houve acção nas estradas e imagens para guardar para a posteridade. “Durante o primeiro confinamento, que foi mesmo muito violento, houve uma campanha da Swatch, em muppies, que pegou naquela frase do ‘vai ficar tudo bem’, e em que quase ninguém reparou. Poucas pessoas se recordarão dessa campanha, porque estavam em casa. E nós pedimos para guardar isso. É mais um retrato do que foi a covid-19”, conta. Mas há mais. Os moliceiros, em Aveiro, por exemplo, “começaram a pintar a proa dos barcos com motivos relacionados com a covid-19”, diz, destacando este exemplo para mostrar como a covid-19 se apropriou dos elementos simbólicos das cidades.

A pandemia, além de todos os hábitos desta nova normalidade, trouxe também expressões que, embora já existissem, eram pouco usadas. “‘Confinamento’, inoculação, ​venda ao postigo, são tudo palavras e expressões que hoje usamos, mas de que daqui a uns anos já ninguém se lembrará. A nossa missão, do ponto de vista mais sociológico, é fazer textos para contextualizar o que iremos apresentar mais à frente. A exposição que o Museu de Lisboa tinha pensado contemplava material nosso, mas teve de ser congelada”, lamenta Fernando Correia de Oliveira.

 

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