ARTIGO DE NUNO PACHECO SOBRE O LIVRO DO EPHEMERA (PÚBLICO, 21 DE OUTUBRO DE 2021)

Opinião

Memórias e escritos que a pandemia nos vai legando

Aos muitos livros com ecos da pandemia vem juntar-se esta sexta-feira um Diário dos Dias da Peste, da Ephemera. Curiosidades avulsas de um vasto arquivo.

Desde que foi declarada a pandemia, em Março de 2020, que não tem parado a produção literária que dela faz eco ou acerca dela reflecte. Entre muitas dezenas de livros (e é um desafio procurá-los, agora que as livrarias já se libertaram da canga que em 2020 as paralisou), há títulos como Histórias da Pandemia – Da Linha da Frente ao Confinamento, como 17 Portugueses Viveram a covid-19, de Fábio Martins; Quando as Escolas Fecharam – Cadernos da Pandemia, de Paulo Guinote; Diário de Um Médico no Combate à Pandemia, de Gustavo Carona; Pandemia: Diário de um Abandono, de Carlos Almeida; Literatura e Cultura em Tempos de Pandemia, volumosa colectânea editada a UCCLA com contribuições de 75 autores do universo lusófono (por lá andam Manuel Alegre ou Mia Couto); O Vírus, a Cultura e o Futuro, de José Jorge Letria, entrevistando 17 figuras da vida cultural portuguesa; Tempo Suspenso, edição especial da revista Egoísta; Gente (con)fina(da) é outra coisa, com cartoons de Zépestana; Diário da Peste – O Ano de 2020, de Gonçalo M. Tavares; Santo Covid e, para crianças, Blue, a Gata dos Olhos Verdes, ambos de Carlos Leitão; e, editado já em Junho deste ano, até Vida Após a Pandemia, com recolha de intervenções do Papa Francisco.

O título do livro, como também se diz nesse texto introdutório, não tem nada de original: “É tomado de empréstimo ao célebre diário de Daniel Defoe sobre o ano da praga em Londres, no século XVII. Era em grande parte um diário ficcional, mas Defoe imprimiu-lhe uma aura de realidade, usando de grandes detalhes, em contraste com o ambiente mais testemunhal do diário de Samuel Pepys. Ambos são ‘retratos’ da praga que nunca deveríamos ter esquecido, a par do conto de Edgar Allan Poe sobre a ‘morte vermelha’. E devemos recordar por uma razão (a mesma por que a memória nos deveria servir todos os dias): no passado, em várias ocasiões, a humanidade já passou pela experiência da praga, e em muitos aspectos aprendeu sempre pouco com a história.”

E é assim que, de 30 de Março a 31 de Maio de 2020 e, numa segunda série, de 15 de Janeiro a 14 de Março de 2021, se misturam fotografias do passado colonial, cartazes políticos, desenhos infantis tendo por mote o 25 de Abril, panfletos pró-ditadura dos anos 30 destinados a raparigas (onde “ler, divertir-se, ir à praia”, são apontados como “fontes do pecado”), cartas, folhetos de propaganda comercial, antevisões futuristas dadas à página em jornais a partir dos anos 50, um desdobrável ilustrando os benefícios da Aspirina com uma historieta de um tal Dom Pancho (que, como o Sancho Pança do D. Quixote, também “cavalga um burro, radiante com o milagre da aspirina”; ambos riem, o Pancho e o burro), um postal, talvez dos anos 1930, com a imagem de um bebé e uma inacreditável legenda (“Tenho cara de Engenheiro, Vou ganhar muito dinheiro”) e até a reprodução de um disco editado pelo PS nos anos de brasa de 1975, intitulado Vitória, Vitória, Liberdade, que incluía, logo a abrir, A Internacional, com (escreve-se nas notas do livro), “uma tradução difícil e bem conseguida de Manuel Alegre”. Como se vê, uma alegre viagem.

Seja o primeiro a comentar

Leave a Reply