BANDEIRA DA FEDERAÇÃO MUNDIAL DA JUVENTUDE DEMOCRÁTICA

Deu entrada no ARQUIVO / BIBLIOTECA (2011) uma peça única adquirida num leilão fora de Portugal. Trata-se duma bandeira da Federação Mundial da Juventude Democrática, a organização internacional pró-soviética da juventude. O seu possuidor original tinha-a coberto de cerca de 300 emblemas, pins, fitas, dos anos setenta, relativas não só à FMJD e seus congressos, como aos movimentos políticos e às causas associadas, como por exemplo, a luta contra a guerra do Vietname.  Todos os objectos serão removidos e terão entrada própria no EPHEMERA, de modo a que a bandeira seja restaurada, embora se encontre em relativo bom estado.

 

1 Comment

  1. Fiquei extasiado com a qualidade dessa magnífica bandeira, cravejada de emblemas. É uma peça museológica notável! Muitos parabéns por a ter conseguido agarrar no leilão.
    Na minha modesta opinião, não deveria jamais retirar-lhe os emblemas ou fazer o que quer que fosse para eliminar o rasto do seu contexto de uso, da sua alma, que lhe foi impregnada ao longo de muitos anos por um proprietário infelizmente anónimo.
    Esse propósito depurativo – que pode parecer legítimo, dentro de um paradigma ultra conservacionista – reduz todos os objectos a uma condição de peça arqueológica, muda, desprovida da alma e do rasto impresso do seu uso.
    A riqueza suprema dessa peça é precisamente a marca do uso e do utilizador. Sem isso, qualquer réplica faria o mesmo papel.
    Tenho a certeza de que o dr. Pacheco Pereira também não apaga os autógrafos e os apontamentos dos livros antigos que consegue adquirir, para os devolver a um estado mais próximo do original.
    Não desmantele essa bandeira, por favor. Não me leve a mal a minha preocupação, mas receio estarmos perante (mais uma) irreversível perda de um objecto etnográfico notável, aniquilado com a melhor das intenções.
    Por detrás do seu zelo está a velha questão da “autenticidade”, esse desígnio que persegue o Homem desde os primeiros filósofos.
    Simon Thurley, presidente do English Heritage, dizia há tempos, no Público: “Há dois erros comuns no que diz respeito ao património. O primeiro é pensar que é sobre edifícios – é sobre as pessoas e o que elas investem nos tijolos. O segundo é pensar que é sobre o passado – é sobre o futuro, o que ficará depois de nós desaparecermos.”
    Se não preservarmos as memórias associadas aos objectos, de pouco nos valerá ter um imenso espólio, defendido num abrigo nuclear, com os maiores rigores da conservação. As memórias dissipam-se e corrompem-se com muito mais facilidade do que os testemunhos materiais que lhes estão associados. Se não se investir decisivamente na memória social dos objectos, de nada servirá o esforço de conservação material. Doutra forma, em vez de atravessarmos o tempo, anulamo-lo, pois acabaremos por reduzir todos os objectos à condição de peça arqueológica, completamente fria, muda e inócua, sendo indiferente que tenha dois dias ou dois mil anos.
    Perdoe-me algumas impropriedades na minha linguagem, mas a escrita aqui nesta pequena caixa de comentários torna-se pouco fluente.
    Disponha sempre, se achar que não fui esclarecedor.
    Muito obrigado

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