“Coisas do Ephemera: Livros onde se assentavam despesas feitas na mercearia, de coisas que se levavam sem pagar e eram pagas ao fim de cada mês.
“Ponha no rol”, dizia-se. Ou nem era preciso dizer nada. Em muitos casos, cada núcleo familiar tinha acesso automático a essa informal venda a crédito, fossem os titulares da casa, as criadas ou mesmo os filhos menores que ali iam fazer “mandados” ou, a caminho da escola ou no regresso a casa, comiam uma sandes, levavam uns rebuçados e lá iam sem pagar.
Mas com tudo assente à mão pelo merceeiro, padeiro ou taberneiro. O rol dos fiados transformava-se em lista de calotes quando as dívidas não eram pagas no final do mês ou quando se recebia o ordenado em cada agregado familiar.
No Núcleo de Gastronomia do maior arquivo privado do país há alguns livros de fiados, correspondentes aos anos de 1957 a 1961, e respeitantes a uma família que nunca acumulou calotes.
Em algumas localidades mais isoladas, onde a única ”venda” continua a ser o também único ponto de acesso ao consumo, ainda há crédito deste tipo primário.
Mas, mesmo há 50 anos, havia sempre quem o recusava, apoiando-se numa célebre representação da figura do Zé Povinho, criação de Rafael Bordalo Pinheiro, com a não menos célebre frase “Queres fiado? Toma!” e respectivo manguito. Essa figura, ainda não temos no Núcleo do Gastronomia do Ephemera…”

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