ARQUIVO – PAPÉIS DE ÁLVARO MOURÃO DO VALE (1933-2006)

Entrou por doação um vasto conjunto de papéis, dactiloscritos, manuscritos, panfletos, jornais em stencil, pertencentes a Álvaro Mourão do Vale. Agradecemos a Júlia Vale (sua filha) e Maria Sameiro Vale (sua esposa) a oferta. Os papéis foram recolhidos na freguesia de Nogueira (Braga) na casa da família e representam uma importante contribuição para o ARQUIVO EPHEMERA. Numa primeira observação, em conjunto com outro grupo de documentos com a mesma origem oferecidos por Júlia Vale numa sessão em Vila Verde, trata-se de centenas de manuscritos e dactiloscritos, em particular contendo informações interiores ao PCP dos anos 70 a 80, com relevo para informações sobre as Forças Armadas, com muito detalhe sobre a Marinha. Para além disso, encontram-se papéis e jornais clandestinos, panfletos circulando no interior das Forças Armadas e jornais de unidades militares.

Alguns exemplos :

(alguns papéis deformaram-se pela humidade, estas primeiras fotos serão substituídas mais tarde por melhores reproduções, após tratamento dos originais).

Sua filha Júlia Vale fez uma pequena biografia de seu pai, publicada aqui:

Nasceu a 1 de setembro de 1933, no seio de uma família que sempre apoiou o regime político então em vigor. Estudou apenas até à 4ª classe, por não querer outra professora que não a que tinha tido na escola primária. Ainda jovem, teve contacto com Vitor Sá no Couto de Cambezes, onde a sua família havia adquirido uma quinta e para onde era mandado, sozinho, pela mãe. Foi Vitor Sá quem lhe facultou livros clandestinos, que contribuíram para a sua formação pessoal e de carácter, livros e relacionamento esse que o levou a começar a ter preocupações sociais, de defesa dos mais desprotegidos e dos injustiçados.
Com um pai germanófilo, assumiu-se, com outros, como opositor do regime, tendo participado na campanha eleitoral do General Humberto Delgado. Num dos momentos dessa campanha ele e outros tiveram que fugir da PIDE desde O Nosso Café, onde se encontravam, escondendo-se no Theatro Circo.
Tendo em conta as suas opções políticas foi sempre considerado a ovelha negra da família.
Comerciante, aos 27 anos casou com Maria Sameiro Antunes dos Santos Vale, com quem teve duas filhas. Sendo ela enfermeira, e tendo optado por casar, o regime obrigou-a a abandonar a profissão. Passou a ser sua companheira também na atividade política. Na sua casa, na então Av. Marechal Gomes da Costa, hoje, da Liberdade, onde abriu um negócio de mercearia, realizaram-se reuniões clandestinas de oposição ao regime, em que participaram, entre outros, Vitor Sá, Humberto Soeiro, Alberto Couto, Lino Lima e Pinheiro Braga. Foi para essa casa que um elemento da PIDE se dirigiu após uma denúncia anónima, levando à desmarcação da reunião que efetivamente estava prevista ali para esse dia.
Foi o sócio nº 15 da Cooperativa Novos Pioneiros, desde 23 de maio 1970, constituída em abril desse ano, tendo vindo a desempenhar na mesma o cargo de gerente, já após a Revolução.
Tendo acompanhado a ação do MDP/CDE antes da Revolução, a seguir ao 25 de abril de 1974 militou no Partido Comunista Português, juntamente com a esposa, tendo assim permanecido até 2005. Esteve presente na sede do PCP no Campo da Vinha
quando a mesma foi incendiada sob o incentivo do Cónego Melo.
Destacou-se como membro da Comissão de Moradores da freguesia de Nogueira, para onde tinha ido residir em dezembro de 1973, comissão essa que, após o 25 de abril, conseguiu levar para a freguesia (Lugar do Cruzeiro, Lugar de Penouços e Lugar do Espírito Santo) saneamento, eletricidade e água públicas, inicialmente através da colocação de 3 fontanários, numa zona que era servida apenas por poços de que eram proprietários agricultores que cobravam às pessoas, até então, dinheiro
pela água para consumo doméstico e pela utilização dos tanques para lavar roupa. Juntamente com a esposa foi o motor da criação do então, e durante os anos seguintes, único jardim de infância, que ainda hoje se encontra em funcionamento, sediado nas Irmãs Missionárias do Espírito Santo.
Foi durante anos membro da direção da Associação de Amizade Portugal/URSS.
Foi várias vezes candidato à Assembleia de Freguesia de Nogueira, tendo integrado o executivo da Junta de Freguesia quando a autarquia teve uma gestão tripartida.
Faleceu em 14 de Outubro de 2006.
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[Texto de Júlia Vale, filha de Álvaro Vale.]
HOMENAGEM AOS DEMOCRATAS DO DISTRITO DE BRAGA

 

Durante a visita a Nogueira pudemos visitar a fonte a que se refere o texto acima ( FONTE EM NOGUEIRA (BRAGA) CONSTRUÍDA POR INICIATIVA DO “PODER POPULAR” (9 DE MAIO DE 1976)

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