JOSÉ PACHECO PEREIRA – O QUE SIGNIFICA “ANDAR AOS PAPÉIS” ( PÚBLICO, 20 DE DEZEMBRO DE 2025)

RUÍDO DO MUNDO

Notas de um funcionário do PCP num curso em Moscovo.

Carta de amor de um escriturário para uma costureira.

Nota de despesas de um alto  dirigente da PVDE numa viagem à Polónia em 1937.

Dedicatória de uma fotografia enviada durante a guerra colonial.

Faixa da Cometna numa manifestação de 1976 a favor da dissolução da Assembleia da República.

Postal esperantista.

(Arquivo Ephemera)

 

O QUE SIGNIFICA “ANDAR AOS PAPÉIS”

 

Para se respirar um pouco da política tóxica destes dias volto ao mesmo. Quando me perguntam o que faço, eu respondo que “ando aos papéis”. Depois de se rirem, perguntam o que significa isto de “andar aos papéis” e fica aqui a resposta. A resposta de como se alimenta o monstro omnívoro que temos de Bagdad a Estocolmo, do Texas ao Bangladesh, de Viana do Castelo a Tavira, – o Arquivo Ephemera. Todos os dias entram coisas, livros, papéis, cartas, fotografias, cartazes, objectos, garantindo que a memória, – e para nós a memória começa de hoje para trás, – não se perde de todo. E também não se perde porque mais de uma centena de amigos e voluntários por todo o lado também “andam aos papéis”. Sem ganharem um tostão, gastando dos seus tostões, para que exista em Portugal um arquivo-biblioteca-museu diferente e único, com forças e fraquezas, fragilidades e imaginação, mais ao modelo anglo-saxónico do que ao francês, que, como se sabe, a começar pelo direito e a acabar no olhar sobre a memória é muito diferente. E sim, não depende da minha vida física, o seu património está assegurado para o futuro como o maior arquivo privado em Portugal e arredores.

Na verdade, o Arquivo Ephemera é feito dos “Césares” e dos “cozinheiros”, usando o poema de Brecht “Perguntas de um operário letrado” que tem sempre a mesma estrutura retórica:   “César venceu os gauleses./ Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?

O que é que procuramos em primeiro lugar nos materiais que recebemos? Nos papéis dos “cozinheiros”, de gente comum, lavradores autodidatas, costureiras, operários, ferroviários, diários de “raparigas de baixa condição”, correspondência de soldados na guerra colonial, merceeiros, prostitutas, gente que viveu sempre em instituições de assistência porque era cega, donas de casa, serralheiros, procuramos o retrato da vida e do trabalho das pessoas anónimas que não aparecem na História com H grande. O que tiramos destas fontes permite-nos dizer sem arrogância que sabemos  coisas sobre a vida dos portugueses comuns que não estão em nenhum lado, nem na literatura neorrealista, nem nos estudos etnográficos ou antropológicos. A dimensão da “vida de dentro” destas pessoas a que chamamos “comuns” permanece invisível, a não ser quando lemos cartas entre namorados que nos ensinam muito sobre a condição feminina, o sexo, a economia de fazer um dote de casamento pobre, ou o desespero de um soldado em Angola que conta os dias que faltam para regressar à metrópole e escreve aos seus pais “só faltam 12 dias para acabar com esta merda”.

Na parte dos “Césares”, pequenos, médio e grandes, procuramos o que falta na história mais geral das classes de ”cima”, ou melhor do “meio”. Por exemplo, nos espólios dos militantes do PCP procuramos aquilo que não se sabe, documentos internos (há uma grande colecção destes materiais relativos ao “sector intelectual”, mas também de sectores operários como os ferroviários) , e notas de reuniões. Por exemplo, saber pelas notas manuscritas de um funcionário que fez um curso em Moscovo, que tipo de “aulas” tinha, quem eram os seus professores, ou como é que se fazia o “controlo” de organizações de agricultores.

Outro aspecto interessante nos espólios de gente com algum poder, é o mecanismo das “cunhas”, desde as de elevado montante, a roçar pela corrupção, como a facilitação de uma grande fábrica, ou “livrar” alguém da tropa. E também perceber como algumas são o único meio de ultrapassar uma burocracia de pequenos poderes, e outras revelam que mesmo um tenente pode receber “cunhas” reverenciais de um general se estiver no sítio certo da administração militar.

Esta actividade, independente, sustentável, eficaz, inovadora (falamos por exemplo com o pessoal da Higiene Urbano mostrando a que devem estar atentos e tendo salvo por isso um grande espólio de arqueologia), tem permitindo salvar muita coisa que após o nosso trabalho de inventariação, contexto, digitalização, e publicação se torna invejável, e que suscita uma muito portuguesa “dor de corno”. Mesmo  quando muita vez foi recusada por arquivos estatais, ou “andava por aí” sem ninguém se preocupar, ou não lhe dando o estatuto da memória. Mas o que fazemos tem servido para dezenas de publicações não só em Portugal como fora, e tem permitindo uma acção pedagógica sobre a memória. Depois há os “momentos”: o Arquivo Ephemera é especialista em funerais, divórcios, mudanças de casa, e na segunda-feira a seguir à eleições.

Se fossemos filósofos diríamos que esta obsessão com “tudo” é uma forma de lutar contra a morte, mas nós ficamos mais pelo lado da vida, das vidas, e como a memória, como tudo na polis é política, pela luta pela democracia.

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