Jornal «O MUNDO PORTUGUÊS», Rio de Janeiro, 28 de Setembro de 1958//TEXTO INTEGRAL//ENTREVISTA “ESQUECIDA” DO GENERAL HUMBERTO DELGADO
(ortografia meio brasileira, meio portuguesa. )OLIVENÇA E O GENERAL HUMBERTO DELGADO [NOTA À MARGEM DO TEXTO ORIGINAL:nasc. 15-maio-1906 em Torres Novas, freg. Brogueira/fal., assassinado, pela Polícia Política Portuguesa P.I.D.E., a 13 de fevereiro de 1965, próximo de Olivença, em “Los Almerines”, diante de São Rafael; FIM DA NOTA]
(fotografia: o General falando com um jornalista, com a legenda:«O Gen. Humberto Delgado falando a O MUNDO PORTUGUÊS»)(1.ª Página)
COMO FALOU, A “O MUNDO PORTUGUÊS”, O ANTIGO CANDIDATO À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA – DEVEM TODOS OS PORTUGUESES SER GRATOS AS BRASILEIROS PELA SOLIDARIEDADE MANIFESTADA NESSA JUSTA E PATRIÓTICA CAUSA
Lisboa, setembro de (19)58 (Da Delegação) – Serenado o ambiente de paixões que todos os atos eleitorais justificam, em Portugal e em toda a parte do mundo, adquirida a calma com que devem ser enfrentados todos os assuntos, quis a reportagem de O MUNDO PORTUGUÊS escutar a palavra do General Humberto Delgado, cuja carreira de soldado é das mais brilhantes que se conhecem, sobre o caso de Olivença, que tanto vem interessando (Página interior) todos os portuguêses e os seus irmãos brasileiros.
Fomos encontrar o ilustre militar num cenário apropriado, pois o loacl tinha ao fundo a Bandeira do «Grupo Dos Amigos de Olivença», o que nos inspirou a não perder a oportunidade de uma breve palestra com Sua Ex.cia, tão certos estamos de que este digno português deseja, tanto como nós, ver solucionada a situação de Olivença, que a Espanha administra, contrariando os Tratados que ela mesma assinou. Encetamos, pois, as nossas perguntas:
O MUNDO PORTUGUÊS – Como encara V. Excia a criação do Grupo Brasileiro dos Amigos de Olivença?
General Humberto Delgado – É a mais viva demonstração de que o Brasil vibra intensamente pelos eventos e anseios da Pátria Irmã, a despeito da distância e dos interêsses geo-políticos que nos separam. Como português, sinto-me profundamente sensibilizado e reconhecido a todos os que têm tomado parte nesta sentimental idéa, particularmente aos senadores e deputados que dela participam, como sejam os senhores Luiz Teixeira, Benjamim Farab e muitos outros.
O MUNDO PORTUGUÊS – Acredita que a Espanha reconsiderará de sua atitude e entregará, como deve, Olivença?
General Humberto Delgado – Sem tergiversar, direi: acredito que a Espanha um dia entregará Olivença; porém, não creio que o faça espontaneamente, sem pressão nossa.
O MUNDO PORTUGUÊS – Acredita V. Excia que os governos dos dois países teriam facilidade em resolver amigàvelmente o caso de Olivença?
General Humberto Delgado – Depende dos governos. Os atuais, pelas ligações contratuais diplomáticas que estabeleceram e pelas extraordinárias afinidades dos seus regimes, estão, no meu entender, em excelente posição para dar início imediato a tais negociações.
O MUNDO PORTUGUÊS – Se V. Excia tivesse sido eleito Presidente da República, que diligências faria para a devolução de Olivença?
General Humberto Delgado – Em primeiro lugar é necessário que se saiba que o Presidente da República, pela atual Constituição, só tem uma função concreta: nomear e demitir o Presidente do Conselho de Ministros [NOTA À MARGEM DO TEXTO: Primeiro-ministro;FIM DA NOTA]. Todas as outras se expressam em eufemismo. Uma delas é a de que dirige a política externa, quando se sabe muito bem que êle não pode dar um passo nesse terreno, sem a referenda [SIC] exigida pela Constituição, o que compete ao Presidente do Conselho e ao ministro da respectiva pasta.Dentro deste quadro, direi que procuraria estabelecer as directivas mais convenientes para que o Govêrno, logo que estabilizado em sua nova forma, apresentasse à Espanha a necessidade de se estabelecerem negociações no sentido em causa. A Espanha nada teria que se admirar,pois, perdida a Praça de Olivença em 1801, pelo Tratado de 1815 bem especificado ficou que aquela deveria voltar ao país a que pertencia. E a Espanha sabe igualmente que continuamos a não aceitar a delimitação de fronteiras naquela área. Nada teria que se admirar, enfim, quando pretende reivindicar Gibraltar, que perdeu em 1704, apesar de concordar deixá-la nas mãos dos inglêses. A Espanha fidalga, cujo espírito cavalheiresco se retrata na criação de um «Dom Quixote», a Espanha, terra dos «filhos de algo», deve ser a primeira a compreender a fidalguia dos outros.
O MUNDO PORTUGUÊS – Como Presidente da Assembleia Geral do «Grupo dos Amigos de Olivença», que medidas pensa que êsse grupo deve tomar no presente momento?
General Humberto Delgado – Apresentar ao Govêrno o pedido para que sejam [abertas?] imediatas negociações com Espanha. Claro que só aquêles que vêem o assunto superficialmente poderão julgar que a entrega do território não contém problemas importantes e demorados a resolver, tais como os de propriedade, nacionalidade, e outros inerentes às minorias e aos direitos do homem. Mas o que importa é assentar na aceitação do princípio de que sejam entabuladas negociações.
O MUNDO PORTUGUÊS – Considera o caso de Olivença um caso local em relação à ordem geral, ou um caso geral em relação ao caso universal?
General Humberto Delgado – É uma pergunta um pouco embaraçosa… Mas, como sabe, passo rápido sobre os embaraços… Claro que, semelhantes ao caso de Olivença, haverá outras, embora menos típicas. Visto assim, entraria pois na categoria do caso geral. Contudo, apresenta um saber especìficamente local, pois que oferece diminuta importância territorial, comparada ao «espinho sentimental…». Esta característica sentimental resuma [?] clara da sua posição geográfica além do Guadiana, rio que poderia tomar-se como fronteira natural. De fato, porém, Portugal é muito mais uma unidade política do que geográfica, por mais que cientistas ou sonhadores nos queiram convencer da existência de uma evidente zona geo-morfológica no jardim ocidental da Europa…
O MUNDO PORTUGUÊS – Já havíamos escutado aquilo que supomos realmente importante para os nossos leitores. As palavras de um General ilustre, de um aviador distinto e de um português leal, merecem todo o nosso respeito. Aqui as deixamos ao devido apreço.
Jornal «O MUNDO PORTUGUÊS», Rio de Janeiro, 28 de Setembro de 1958//TEXTO INTEGRAL//ENTREVISTA “ESQUECIDA” DO GENERAL HUMBERTO DELGADO
(ortografia meio brasileira, meio portuguesa. )OLIVENÇA E O GENERAL HUMBERTO DELGADO [NOTA À MARGEM DO TEXTO ORIGINAL:nasc. 15-maio-1906 em Torres Novas, freg. Brogueira/fal., assassinado, pela Polícia Política Portuguesa P.I.D.E., a 13 de fevereiro de 1965, próximo de Olivença, em “Los Almerines”, diante de São Rafael; FIM DA NOTA]
(fotografia: o General falando com um jornalista, com a legenda:«O Gen. Humberto Delgado falando a O MUNDO PORTUGUÊS»)(1.ª Página)
COMO FALOU, A “O MUNDO PORTUGUÊS”, O ANTIGO CANDIDATO À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA – DEVEM TODOS OS PORTUGUESES SER GRATOS AS BRASILEIROS PELA SOLIDARIEDADE MANIFESTADA NESSA JUSTA E PATRIÓTICA CAUSA
Lisboa, setembro de (19)58 (Da Delegação) – Serenado o ambiente de paixões que todos os atos eleitorais justificam, em Portugal e em toda a parte do mundo, adquirida a calma com que devem ser enfrentados todos os assuntos, quis a reportagem de O MUNDO PORTUGUÊS escutar a palavra do General Humberto Delgado, cuja carreira de soldado é das mais brilhantes que se conhecem, sobre o caso de Olivença, que tanto vem interessando (Página interior) todos os portuguêses e os seus irmãos brasileiros.
Fomos encontrar o ilustre militar num cenário apropriado, pois o loacl tinha ao fundo a Bandeira do «Grupo Dos Amigos de Olivença», o que nos inspirou a não perder a oportunidade de uma breve palestra com Sua Ex.cia, tão certos estamos de que este digno português deseja, tanto como nós, ver solucionada a situação de Olivença, que a Espanha administra, contrariando os Tratados que ela mesma assinou. Encetamos, pois, as nossas perguntas:
O MUNDO PORTUGUÊS – Como encara V. Excia a criação do Grupo Brasileiro dos Amigos de Olivença?
General Humberto Delgado – É a mais viva demonstração de que o Brasil vibra intensamente pelos eventos e anseios da Pátria Irmã, a despeito da distância e dos interêsses geo-políticos que nos separam. Como português, sinto-me profundamente sensibilizado e reconhecido a todos os que têm tomado parte nesta sentimental idéa, particularmente aos senadores e deputados que dela participam, como sejam os senhores Luiz Teixeira, Benjamim Farab e muitos outros.
O MUNDO PORTUGUÊS – Acredita que a Espanha reconsiderará de sua atitude e entregará, como deve, Olivença?
General Humberto Delgado – Sem tergiversar, direi: acredito que a Espanha um dia entregará Olivença; porém, não creio que o faça espontaneamente, sem pressão nossa.
O MUNDO PORTUGUÊS – Acredita V. Excia que os governos dos dois países teriam facilidade em resolver amigàvelmente o caso de Olivença?
General Humberto Delgado – Depende dos governos. Os atuais, pelas ligações contratuais diplomáticas que estabeleceram e pelas extraordinárias afinidades dos seus regimes, estão, no meu entender, em excelente posição para dar início imediato a tais negociações.
O MUNDO PORTUGUÊS – Se V. Excia tivesse sido eleito Presidente da República, que diligências faria para a devolução de Olivença?
General Humberto Delgado – Em primeiro lugar é necessário que se saiba que o Presidente da República, pela atual Constituição, só tem uma função concreta: nomear e demitir o Presidente do Conselho de Ministros [NOTA À MARGEM DO TEXTO: Primeiro-ministro;FIM DA NOTA]. Todas as outras se expressam em eufemismo. Uma delas é a de que dirige a política externa, quando se sabe muito bem que êle não pode dar um passo nesse terreno, sem a referenda [SIC] exigida pela Constituição, o que compete ao Presidente do Conselho e ao ministro da respectiva pasta.Dentro deste quadro, direi que procuraria estabelecer as directivas mais convenientes para que o Govêrno, logo que estabilizado em sua nova forma, apresentasse à Espanha a necessidade de se estabelecerem negociações no sentido em causa. A Espanha nada teria que se admirar,pois, perdida a Praça de Olivença em 1801, pelo Tratado de 1815 bem especificado ficou que aquela deveria voltar ao país a que pertencia. E a Espanha sabe igualmente que continuamos a não aceitar a delimitação de fronteiras naquela área. Nada teria que se admirar, enfim, quando pretende reivindicar Gibraltar, que perdeu em 1704, apesar de concordar deixá-la nas mãos dos inglêses. A Espanha fidalga, cujo espírito cavalheiresco se retrata na criação de um «Dom Quixote», a Espanha, terra dos «filhos de algo», deve ser a primeira a compreender a fidalguia dos outros.
O MUNDO PORTUGUÊS – Como Presidente da Assembleia Geral do «Grupo dos Amigos de Olivença», que medidas pensa que êsse grupo deve tomar no presente momento?
General Humberto Delgado – Apresentar ao Govêrno o pedido para que sejam [abertas?] imediatas negociações com Espanha. Claro que só aquêles que vêem o assunto superficialmente poderão julgar que a entrega do território não contém problemas importantes e demorados a resolver, tais como os de propriedade, nacionalidade, e outros inerentes às minorias e aos direitos do homem. Mas o que importa é assentar na aceitação do princípio de que sejam entabuladas negociações.
O MUNDO PORTUGUÊS – Considera o caso de Olivença um caso local em relação à ordem geral, ou um caso geral em relação ao caso universal?
General Humberto Delgado – É uma pergunta um pouco embaraçosa… Mas, como sabe, passo rápido sobre os embaraços… Claro que, semelhantes ao caso de Olivença, haverá outras, embora menos típicas. Visto assim, entraria pois na categoria do caso geral. Contudo, apresenta um saber especìficamente local, pois que oferece diminuta importância territorial, comparada ao «espinho sentimental…». Esta característica sentimental resuma [?] clara da sua posição geográfica além do Guadiana, rio que poderia tomar-se como fronteira natural. De fato, porém, Portugal é muito mais uma unidade política do que geográfica, por mais que cientistas ou sonhadores nos queiram convencer da existência de uma evidente zona geo-morfológica no jardim ocidental da Europa…
O MUNDO PORTUGUÊS – Já havíamos escutado aquilo que supomos realmente importante para os nossos leitores. As palavras de um General ilustre, de um aviador distinto e de um português leal, merecem todo o nosso respeito. Aqui as deixamos ao devido apreço.
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