O EPHEMERA FORA DO EPHEMERA: CRISTINA MARGATO – “O PAPELINHO COM CÓDIGOS SECRETOS DO 25 DE ABRIL” (EXPRESSO DIÁRIO, 24 DE ABRIL DE 2018)

A cábula de códigos de Sousa e Castro, usados para se deslocar ao norte de Portugal na véspera do 25 de Abril e para contactar com os restantes conspiradores, aos quais deveria entregar os planos finais da operação que acabou com a ditadura (ARQUIVO EPHEMERA).

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Durante 44 anos um papel pequenino permaneceu esquecido num arquivo muito particular: o de Sousa e Castro, um dos homens que esteve na génese do 25 de Abril, encarregado de entregar os últimos planos traçados por Otelo Saraiva de Carvalho para a operação militar que teria lugar no dia 24. O papel foi descoberto por um dos voluntários da Ephemera – Arquivo e Biblioteca de José Pacheco Pereira, Joaquim Matos. O Expresso falou com o próprio Sousa e Castro, com Otelo Saraiva de Carvalho e também com a historiadora Maria Inácia Rezola, reconstituindo parte do que aconteceu na noite e madrugada de 23 para 24, e que dá contexto a essa pequena nota


No final da tarde, os homens encontram-se em Lisboa, no local marcado. O engenheiro Silva Costa chega primeiro, Óscar depois, num Morris Mini 1000, branco-marfim, que estaciona na Av. Sidónio Pais. Num banco de jardim do Parque Eduardo VII fazem o que têm de fazer. O que ficara combinado. O encontro é breve. Óscar tira da pasta preta vários envelopes brancos, nos quais guardara as folhas que estivera a “bater à máquina” até às duas da tarde desse mesmo dia e um exemplar do jornal “Época”.

O engenheiro recebe alguns desses envelopes e parte de imediato num Datsun SSS emprestado por um amigo. As estradas são más, dadas a acidentes, mas o engenheiro sabe que tem de chegar ao Porto ileso, se possível antes do raiar do dia seguinte. Em casa, deixa a mulher e a filha, de quatro anos. No Porto, a irmã e o cunhado esperam-no, em casa, junto ao Jardim da Arca d’Água. Haveria de estar de volta a Lisboa no dia seguinte, com uma certeza, um sentimento inebriante e uma felicidade ainda inconfessável.

O engenheiro faz a primeira paragem na Figueira da Foz. Entra no café Nicola, toma uma bica ao balcão e sai. Um homem segue-o até ao carro, depois de perceber que o engenheiro é o estafeta esperado há vários dias. O jornal fascista “Época” servira de sinal entre os dois homens. No Datsun SSS, fazem o que têm de fazer. O engenheiro entrega ao oficial desconhecido, mas igualmente conspirador, um dos envelopes que recebera, horas antes, das mãos de Óscar. Lá dentro segue uma espécie de puzzle, que só alguns sabem como decifrar, mas que em caso algum pode cair nas mãos do inimigo. Folhas com frequências de rádio, uma senha e contrassenha, os planos finais de uma operação que se propunha mudar a História de Portugal nas 24 horas seguintes.

A AVANCA QUE AFINAL ERA AVEIRO

Da Figueira da Foz, o engenheiro segue para Aveiro, onde encontra o capitão Rodrigo, a quem telefonara horas antes de uma cabina de rua. Ao telefone disse-lhe: “Chego a Avanca às tantas horas”. Sendo que Avanca era afinal Aveiro, um código, como Macieira da Lixa fora para Figueira da Foz. Palavras que o engenheiro designara e transformara em senhas para lidar com todas as pessoas que tinha de contactar nesta missão secreta, sem que a polícia política, na possibilidade de intercetar uma chamada, pudesse saber aonde, de facto, se dirigia.

O engenheiro anotara esses nomes num papel pequenino, a tinta verde (“a primeira caneta que veio à mão”), e deles se servira para despistar quem o pudesse seguir, de modo a conseguir entregar os últimos planos daquela que ficou conhecida como Revolução de Abril. Porque o engenheiro não era o engenheiro, e Óscar também não era Óscar. O engenheiro era o capitão Sousa e Castro, e Óscar era o major Otelo Saraiva de Carvalho. Dois homens na génese do 25 de Abril. Dois homens-chave no chamado Plano Geral das Operações Militares de 25 de Abril.

NO LUGAR DE VASCO LOURENÇO

O papelinho, a cábula, um documento que atesta o cuidado, a complexidade, e o secretismo que esteve por trás do 25 de Abril, poder-se-ia ter perdido para sempre. Mas voltou ao presente, depois de ter sido resgatado do arquivo de Sousa e Castro. Por sorte, os ratos não roeram esse papelinho, como aconteceu com outros documentos. Por sorte, havia um destino para todos estes papéis, a Ephemera – Arquivo e Biblioteca, de José Pacheco Pereira; e por sorte, houve um voluntário, Joaquim Matos, ex-bancário reformado, que o descobriu no meio de milhares de documentos, depois de lhes ter dedicado horas e horas de trabalho ao longo do último ano e meio.

O papelinho, uma espécie de ‘post-it’ com o logótipo da cerveja Super Bock, estava dentro de uma mica de plástico, com uma anotação no canto direito: “senhas e contra-senhas do 25 de Abril”. Sousa e Castro já não se lembrava dele. Mas ao vê-lo não hesitou em explicar o contexto em que ele foi escrito: “Quando o capitão Vasco Lourenço foi ‘desterrado’ para os Açores, no início de março de 1974, eu herdei algumas das suas responsabilidades. Além de ele ser um dos elementos da ‘troika’, que era a cúpula do movimento dos capitães na clandestinidade, Vasco Lourenço estava encarregado de organizar a ligação entre os vários oficiais e unidades que se tinham comprometido com a revolta. Formou-se então uma equipa de oito oficiais, um major e sete capitães, que se encarregaram de todo o sistema de ligação, que tinha, por razões óbvias, de ser personalizado”.

Sousa e Castro, “o engenheiro”

Sousa e Castro, “o engenheiro”

FOTO ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Sousa e Castro é um dos oficiais de ligação, o responsável pela zona Norte, aquele que deve comunicar com as unidades de guarnição da Figueira da Foz/Coimbra, Viseu, Aveiro e Região Militar do Norte. O papel registava, por isso, os códigos que deveria usar para contactar os oficiais conspiradores mas também os próprios familiares que tinham ficado de lhe dar apoio logístico, como foi o caso da irmã e do cunhado, Rosa Cândida e Sílvio, que o ajudaram a concretizar a missão no Porto.

44 ANOS DEPOIS, SABEM DE COR AS MATRÍCULAS DOS CARROS

Hoje, tanto Sousa e Castro como Otelo Saraiva de Carvalho não hesitam nos pormenores. Entre eles recordam, por exemplo, as matrículas dos carros que cada um usou. Sousa e Castro avança a matrícula do Datsun: BI-77-84. Otelo a do Mini: ID-71-04. Otelo — que era Óscar, por O corresponder a Otelo, S a Saraiva e C a Carvalho — recorda que a necessidade de secretismo o levou, por exemplo, a prescindir do telefone, mal chegou da guerra da Guiné em 1973. Não o tinha em casa, e em caso de extrema necessidade só usava os das lojas e mercearias.

O segredo das operações terá sido aliás uma das razões para o sucesso. Sousa e Castro — que era o Engenheiro Silva Costa, porque o S correspondia ao Sousa e o C ao Castro — diz que se criou uma narrativa errada sobre o 25 de Abril: “Existe o mito urbano de que o regime ia cair de maduro. Uma ova! Eles foram apanhados com as calças nas mãos. Nós ocupámos-lhes os quartéis às três da manhã. E foi com mecanismos de segurança (como esses códigos) que o conseguimos fazer. Até as canções, e ‘E Depois do Adeus’, de Paulo de Carvalho, e ‘Grândola Vila Morena’, de Zeca Afonso, são coisas inéditas na história das revoluções.”

“QUERO QUE NÃO ME DEIXEM DORMIR ATÉ LISBOA”

Sousa e Castro recorda agora que no regresso a Lisboa, e porque vinha sem dormir, aceitou dar boleia a dois rapazes que encontrou numa bomba de gasolina à saída do Porto. “Disse-lhes que aceitava levá-los com uma condição. Ainda pensaram que eu queria ajuda para pagar o combustível, como era comum, na altura, nas boleias de longas distâncias. Mas não era nada disso. Quero que não me deixem dormir até Lisboa.”

O militar havia feito a viagem para o Norte sem comer nem beber. Sozinho, entregue ao medo de ter um percalço: “O problema era haver uma acidente com qualquer um de nós. Aquilo que levávamos ir cair nas mãos de alguém. Era um perigo real.” Na viagem de volta, os dois rapazes animam-no inventando conversas. Na despedida, quando os deixa na Encarnação, ainda lhes diz: “Oxalá vocês não tenham de ir mais cedo do que desejam para o Porto. E eles ficaram a olhar para mim.” Nunca mais os viu.

À noite, ainda sem dormir, porque teve de dar apoio ao movimento, foi jantar ao restaurante João do Grão: “Olhei para as pessoas e pensei: esta gente não sonha o que vai acontecer. Aí tive a noção do que é o verdadeiro poder. O verdadeiro poder é conhecimento.” A convicção com que toda aquela gente recebeu as últimas ordens para o levantamento imprimiu-lhe um sentimento inebriante. “ Dali não havia volta a dar. Havia a questão de libertarmos os camaradas que estavam presos. Tínhamos dezenas de oficias presos. Entre os quais os que se tinham envolvido naquela quartelada das Caldas da Rainha”, a 16 de março do mesmo ano.

Otelo Saraiva de Carvalho, “Óscar”

Otelo Saraiva de Carvalho, “Óscar”

FOTO RUI OCHÔA

Otelo Saraiva de Carvalho lembra agora, em conversa com o Expresso, que o último envelope foi entregue às duas da tarde do dia 24 de abril. Ninguém teve um acidente, e a operação preparada nos meses anteriores, já se sabe, foi um sucesso. Papelinhos como estes podem surgir de outros arquivos, que o Estado nem sempre recebe, mas que o Arquivo e Biblioteca de José Pacheco Pereira acolhe com alegria e curiosidade.

“O 25 DE ABRIL NÃO FOI UMA MARCHA TRIUNFAL”

A historiadora Maria Inácia Rezola, especialista neste período da História de Portugal, não duvida que este tipo de documentos pode ajudar a perceber a real complexidade da operação que estava em curso: “As pessoas pensam no Quartel do Carmo, nas pessoas, nos cravos, no momento de tensão, em Salgueiro Maia, na saída de Marcello Caetano… mas houve um longo percurso até chegar aí. Fomos construindo uma imagem de que o 25 de Abril foi uma marcha triunfal, sem qualquer problema, uma vitória fácil. Não foi assim. Este tipo de documentos deixa patente que a operação era difícil, que requeria uma série de cuidados e preparação, e que isso foi um fator fundamental para o seu sucesso. Permitem desmistificar aquele romantismo sobre a facilidade da operação que levou ao 25 de Abril. Foi uma operação complexa, longamente preparada, como uma série de riscos, para todos. Eles eram muito novos, tinham famílias, tinham uma carreira.”

E também tinham preferências nas cervejas. O papel exibia o logótipo da Super Bock porque, diz Sousa e Castro, “já nessa altura a Super Bock era muito melhor que a Sagres!”, aludindo à carga negativa que o empresário produtor da Sagres tinha, por estar colado à ditadura.

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