10 PERGUNTAS A… POR INÊS MENESES
Helena Sofia Silva: “Sou mais feminista hoje do que há 20 anos”
13.05.2018 às 11h00
Helena Sofia Silva é investigadora em design e professora na ESAD. Juntamente com Pacheco Pereira, é curadora da exposição “O Que Faz Falta É Agitar a Malta”, cartazes de protesto do Arquivo Ephemera, para ver no Parque Empresarial do Barreiro até junho antes de serem reapresentados na Porto Design Biennale
RUI DUARTE SILVA
Um cartaz vale mais do que mil vozes?
Não, mas representa-as quando se calam. E fica a ecoar a mensagem.
Há uma surpreendente arte de copy num cartaz de protesto. Chegar aos mínimos para dizer o máximo?
Algumas exceções contrariam o padrão e são desabafos confusos ou tentativas de fazer pedagogia. Mas, em regra, extensão mínima para uma intensidade máxima. Já recolhi um pequeno pedaço de papel que diz apenas “Mais amor”.
O que sobressai de todo este arquivo da Ephemera?
Um respeito imenso pelo valor do passado e pela construção de memória futura.
Quem é o José Pacheco Pereira quando o vês mergulhar no seu espólio?
O último sábio, um ativista da memória, um personagem de Borges, Eco ou Auster.
Somos novos enquanto a curiosidade nos acompanha?
Espero bem que sim, falta-me vocação para as restantes estratégias antienvelhecimento.
O Porto está a mudar muito rapidamente?
Não tenho velocímetro para essa pergunta. Está a mudar, sim, e a acusar dores de crescimento, mas isso é inevitável e natural. Espero que haja sensibilidade e bom senso para que a mudança seja equilibrada. Eu conheci um Porto mais degradado e inseguro, menos cosmopolita. Não alinho na romantização desse passado.
Preocupa-te a perda de identidade da cidade?
Não sou puritana e sei que o identitário e o autêntico são conceitos complexos. A história do vinho do Porto passa por Inglaterra, e Nasoni e Eiffel vieram de fora ainda a francesinha não tinha sido inventada. O exterior e o novo cabem na construção da identidade, que é um processo contínuo.
Em 2019 acontece a Porto Design Biennale. Não há criação sem a questionarmos?
Especialmente quando a criação tem uma forte dimensão pública e coletiva e se quer ligada ao exercício da cidadania. O design diz respeito à sociedade, ao ambiente, à política, também económica, e à cultura. É fundamental divulgar, debater e pensar. Um dos núcleos da programação da Biennale de 2019, à qual vou levar este projeto, é dedicado à relação entre design e democracia. É em si mesmo uma questão.
Nunca a tua voz se deixou de ouvir por seres mulher?
Quase, de várias formas, mas eu levantei-a. Sou mais feminista hoje do que há 20 anos. Só recentemente se começa a valorizar a educação emocional dos homens, negligência que vai precisar de mais algumas gerações para ser reparada. Sou mãe de dois rapazes, preocupo-me muito com isso.
Que cartaz ganha mais força nesta exposição?
Os feministas dizem-me muito. Sei o que quer dizer “Existo, logo resisto”.

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