ASSINATURA DO PROTOCOLO MUSEU DE LAMEGO – EPHEMERA (LAMEGO, 29 DE SETEMBRO DE 2018)

 

 

Foi assinado no dia 29 de Setembro de 2018, em Lamego, um protocolo de cooperação mútua entre o Museu de Lamego e a Associação Cultural Ephemera que vai permitir que o Museu de Lamego funcione como ponto de recolha de doações para o arquivo e biblioteca, através de um horário regular de recepção e colabore na organização e transporte dos materiais, assim como no apoio aos voluntários de Lamego. Em contrapartida, a Associação apoiará as iniciativas do Museu, assim como colocará à sua disposição material para a organização de exposições e palestras.

A assinatura ocorreu numa cerimónia em que esteve presente a Directora do Museu Alexandra Falcão, o Presidente da Câmara Municipal de Lamego Ângelo Moura, a Vereadora da Cultura Ana Catarina Rocha, e Nuno Resende, autor do livro Um Rico Pano. Antologia de Verso, Prosa e Imagem de Lamego, com prefácio de José Pacheco Pereira (em anexo), cujo lançamento foi feito em simultâneo.

Foram lidos excertos de alguns dos textos antologiados no livro, de autores como Camilo Castelo Branco e Abel Botelho.

Em contacto com vários dos presentes foram já combinadas várias entregas de espólios e acervos,  respeitantes à vida política autárquica desde o 25 de Abril, assim como papéis pessoais de figuras públicas, e documentação gráfica relativa à actividade vinícola na região do Douro.

 

ANEXO:

AS NOITES DO TEMPO EM LAMEGO

Nunca imaginei voltar a Lamego pela leitura e pela escrita, pela leitura de Um Rico Pano de Nuno Resende e pela escrita deste prefácio. Na verdade, Lamego não é uma terra qualquer para mim. A minha família dos dois lados, o plebeu e o nobre, tinha raízes e ligações a Lamego, e a minha mais antiga memória é de umas férias numa velha casa de granito, de que me recordo de uns assentos, também em pedra junto da janela, coisa que nunca tinha visto em lado nenhum. Era tudo escuro, forte e duro, havia fumo na cozinha, e ainda não tinha idade para saber que se comia muito bem. Depois, tinha em Lamego e nos arredores aquela coisa sinistra que as famílias antigas tem, a que o meu pai chamava a “parentela”, que se devia cumprimentar quando se lá ia, mas não entreter com muita frequência. Por isso, escrever a pretexto deste livro, não me é inocente.

Camilo descreve as “noites de Lamego” como sendo “proverbiais em comprimento, profundidade e largura”, ou seja longas e escuras, como nós nas cidades já não sabemos como são. E quando nos seus livros e noutros textos aqui antologiados se diz qualquer coisa como “chegou de noite” eu percebo bem como isso é algo que não sabemos o que é. O caminho é diferente, o tempo é diferente, a luz é diferente, e sair de uma carruagem “de noite” para entrar para uma casa ou numa estalagem é diferente. Há criados, saudações, perguntas, cheiros, sons, velas, já para não falar da meteorologia que faz também toda a diferença. É isso que encontramos neste livro, a diferença que faz o tempo e que faz do passado, como dizia Hartley, um “país estrangeiro”.

Nuno Resende, que se classifica a si próprio com modéstia de “antologista”, faz esse trabalho de recolha de imagens e palavras à volta de Lamego, e o resultado é isso mesmo: “um país estrageiro”, a que chegamos pelo caminho das coisas e do nosso olhar sobre elas.  Os homens deixam atrás de si um rastro de coisas, muitas vezes demasiado humano, mas que fazem a única memória possível, mortos os que foram testemunhos dos eventos de há cem anos para trás. E cem anos já é muito optimismo. Pouco a pouco muito daquilo que deu cor, som, luz, contentamento e tragédia, no passado, vai-se esmaecendo como as fotografias antigas ou mudando de cor como as pedras, o papel, a tinta, ou estalando, apodrecendo, transformado em pó, comido pelos insectos e pelos ratos, enterrado, desaparecido para sempre.

Não estou a falar dos objectos que consideramos mais dignos e importantes da nossa história, que esses fazemos um esforço, nem sempre conseguido, para salvar. Estou a falar dos milhões de cartas, fotografias, publicidade, rótulos, ementas, listas, editais, manuscritos, recibos, bilhetes, artigos em obscuros jornais locais, circulares de um grupo associativo, instruções de um jogo ou de um medicamento, livros que já não são lidos há muito. Não é preciso ir mais longe –  como os de Camilo. Seria um cemitério se não fosse o sempre vivo olhar do curioso. E esse olhar dá resultados como este livro.

Quando se tem um olhar retrospectivo sobre estes milhões de objectos menores, um olhar que transporta o tempo de forma diferente, um olhar activo, sem preguiça, vê-se sempre mais coisas, e mesmo os mais efémeros dos objectos transportam uma mensagem qualquer. Que interesse tem os recibos de uma empresa de transportes dos anos trinta a não ser perceber que está lá um triângulo maçónico numa gravura rudimentar de uma camionete? Ou numa pilha de cartas de amor quando aparece uma frase reveladora de como era ser soldado num quartel português em vésperas da República, e onde se passava fome? Ou num papel de uma cunha, onde se percebe como o sistema de patrocinato funcionava e era a regra? Ou uma fotografia num palácio real em que, no fundo, aparecem uns vasos e vê-se como a maioria não está cuidada e muitos estão partidos, e pode o Rei passar em frente, que os vasos dizem mais sobre a penúria que está por detrás da pompa, muitas vezes engalanada a papel num arco de triunfo, pobre, muito pobre?

Aquilino nas Arcas Encoiradas, diz isso mesmo, o nosso olhar é que cerca o tempo e vê o seu retrato fugaz, por exemplo, num cartão de visita dos “officiaes de infanteria nº 9”, escrito numa língua antiga que era o português; ou a luta já esquecida nas cidades entre o poder da Igreja e a laicidade que vai inventar um “Lamego” guerreiro, como também há no Porto; ou em ruas em que há sempre muitos animais de grande porte, cavalos, burros, bois; ou que olha para o chão e vê, diante do monumental Paço do bispo, que há “um terreiro enlameado”, como aliás era o chão quase todo.  A “iconotopografia de Lamego” e a antologia no capítulo seguinte revela isso mesmo, o tempo.

E o tempo é sempre estranheza. Como se vê por trás do Rico Pano.

José Pacheco Pereira

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