CORRESPONDÊNCIA DO ESPÓLIO DE JOSÉ FONSECA E COSTA
(Escolhida e transcrita por Maria Mafalda Viana)
NOTA: Alguns documentos são originais inéditos, alguns poderão ter sido publicados, mas a sua memória perdeu-se.
- Texto de José Cardoso Pires
Caro Zé Fonseca
Aqui vai o texto de que falei e
de que não sei se houve publicação.
Abraço
Zé Cardoso Pires
Há meses, quando vi Os Demónios de Alcácer Quibir numa pequena sala de estúdio, o que me impressionou mais imediatamente foi a coragem antidemagógica da sua concepção. Descrever pelo lado da alegoria e da metáfora uma verdade tão directa como a de um país que colonizou e se colonizou é bem mais difícil do que recorrer ao documento ou à narrativa dita realista – todo o criador de ficção sabe isso, e José Fonseca Costa também. Ele não fugiu com a cara ao vento, não desviou a câmara para o ângulo transigente, antes pelo contrário: procurou na evidência mais palpável e dolorosa as “transfigurações culturais” que a tornam mais significativa e estendeu-a até às suas zonas de mito e de delírio.
Da paisagem elementar, cal e fome, do Alentejo sob a pata do fascismo à mascarada de uma burguesia em putrefacção sebastianista, o filme desenvolve-se numa atmosfera singular. Mais raro ainda: numa unidade formal que é, quanto a mim, o ponto sensível de uma obra, como esta, onde o fantástico e o real se revelam comprometidos e onde, aqui e ali, o traço da ambiguidade provoca o espectador para uma leitura mais crítica e mais criativa da tragédia que lhe está sendo contada. E isto – coisa importantíssima! – sem os vanguardismos provincianos nem os basismos freudianos com que a burguesia das artes faz o seu transfert culposo nas áreas da contestação.
Pesadelo ou insónia? Alienação ou vertigem final? Talvez tudo junto esteja aqui, neste[2] filme. Está, de certeza. Está isso e muito mais que fermentava a temperatura “irreal” do país da colonização e da fornicação de quatro séculos. Ei-lo ali, gasto e vicioso de sangue: espesinhando [sic] camponeses e flagelando-se “em palácio”; exibindo o corpo decrépito que trazia envolvido em sedas do Império.
Um bom filme, acho eu, vê-se muito depois do écran – e este, para lá das imagens que passaram, continua a enviar-me sinais de beleza e de verdade. Certos pormenores que revelam a coesão de que é dotado, certas “frases” que agora me parecem sublinhadas, certos acasos que afinal eram procura intencional, certa luz, certa suspensão. Acima de tudo, porém, o que permanece mais vivo e mais obcessivo [sic] é o seu profundo significado: o de uma obra de arte que vai directa ao nó essencial da nossa tragédia e da nossa vergonha – o colonialismo. Experimentámos-lhe o peso, aqui na aventura africana; conhecemos-lhe os catecismos e a voz paternalista; continuamos, ainda agora, a senti-lo, mesmo depois de morto, como uma maldição que nos ensombra os caminhos da democratização. Fonseca Costa soube apontá-lo como um nó vital da liberdade comum, a nós, colonizados de aquém e de além-mar. Rigoroso e ao mesmo tempo amplo na sua descrição, ele pôs à vista a chaga, mostrou-a gangrenada pela fome e pela repressão e por toda a parte sentimos a guerra. Sentimo-la sem a ver, é uma presença já tão íntima que não precisa de imagens para a reconhecermos.
Mas principalmente sentimos a África, a jovem Mãe-África que se liberta de toda esta humilhação, de todo este sangue putrefacto, e que se eleva connosco para a verdade e para a beleza. E assim o Requiem pelo mundo dos fantasmas paternalistas e colonizadores, que é Os Demónios de Alcácer Quibir, termina num Magnificat de cor e de alegoria – um cântico a anunciar um novo homem, com voz e pátria para viver.
José Cardoso Pires
2. Textos (cartas) de F. Gonçalves Lavrador
. F. Gonçalves Lavrador
(Porto, 1928-2005) – Engenheiro Electrotécnico; ensaísta (semiótica e estética cinematográfica); escreveu para a Vértice, O Comércio do Porto e outras publicações. Autor dos livros: Justificação Estética do Cinema, Plátano Editora, 1974; Estudos de Semiótica Fílmica, vols. I e II, Edições Afrontamento, 1986.
– “Festival de Cinema Avanca’10”, in Cineclube de Avanca. Notícias de um espaço de cinema (blogue)
Aveiro, 18 de Maio de 1973
Meu caro Fonseca e Costa:
Estou muito grato pelo magnífico acolhimento que concedeu à minha carta e pelos preciosos elementos que me forneceu sobre o seu filme “O Recado”. As suas palavras impressionaram-me profundamente pois através delas se vislumbra não só uma personalidade rica e inquieta, mas sobretudo um certo número de qualidades humanas que muito admiro (abertura de espírito, sensibilidade, inquietação intelectual, perfeita consciência do ambiente em que vive, etc.). Também fiquei lisonjeado pelo facto de o meu nome não ser para si o de um desconhecido.
Com a ajuda dos elementos que me forneceu (e que muito agradeço) vou ver se escrevo um artigo (ou mais do que um, ainda não sei…) sobre o seu filme para a página “Tela e Palco” de “O Comércio do Porto”.
Como o cinema apenas me ocupa as horas vagas, que não são muitas (e algumas delas terão de ser dedicadas à família e até ao descanso, pois não podemos trabalhar 24 horas por dia…), demoro sempre um certo tempo a escrever os meus artigos que são elaborados e pensados um pouco fragmentariamente.
Julgo, contudo, que “O Recado”, merecia um estudo mais profundo e uma publicação de tipo diferente. Por isso me atrevo a sugeri-la, embora não saiba neste momento se esta minha sugestão tem qualquer espécie de viabilidade no mercado editorial português. A sugestão é a seguinte: por que não se faz uma planificação a posteriori de “O Recado” (a partir de uma cópia do filme, com o auxílio de uma visionadora e recorrendo aos diálogos que me facultou) e não se publica acompanhada por um estudo crítico? Seria uma coisa um pouco no género do que faz a revista “Avant-Scène du Cinéma” ou a colecção “Points/Films”, dirigida por Jacques Charrière. Julgo que o filme merecia inteiramente esta edição mas não sei se seria fácil pôr em prática esta ideia… De qualquer modo, aqui fica a sugestão.
Sobre a minha actividade ensaística e crítica, pode resumir-se em poucas palavras. Na realidade, tem razão quando diz que houve uma paragem nessa actividade. Aborrecido com o ambiente que encontrei à minha volta no campo do cinema e também com as atitudes de alguns dirigentes do Cineclube do Porto, abandonei toda a actividade neste campo a partir de 1955 e só a retomei a partir de 1967. Foram realmente 12 anos de completo isolamento. Transformou-se numa espécie de meditação (e até de “purga”) espiritual.
Em 1967 regressei à actividade… Parecia-me que o panorama se tinha modificado bastante, para melhor. Na verdade, assim é, embora não tanto quanto eu supunha. Comecei por re-iniciar a minha colaboração na “Vértice”, e, mais regular, no Suplemento de Cultura e Arte de “O Comércio do Porto”. Presentemente, colaboro com certa regularidade na página “Tela e Palco” de “O Comércio do Porto” (às sextas-feiras de quinze em quinze dias).
Tenho prometida a publicação do ensaio “Justificação Estética do Cinema” para Outubro deste ano. Mas promessas não são certezas… Trata-se dum livro escrito em 1953-54 (portanto, já antigo) actualizado com um prefácio explicativo e dois Apêndices. Apesar do tempo que decorreu entretanto, julgo que o texto do livro continua com actualidade. É certo que se o tivesse escrito hoje, seria um tanto diferente sob alguns pontos de vista e os exemplos apresentados ao leitor seriam mais recentes. Mas, mesmo assim, parece-me indispensável a sua publicação por três razões fundamentais que vou apontar seguidamente:
1ª Para a boa compreensão de tudo o que escrevi depois deste ensaio, é necessário lê-lo com atenção e não posso no momento actual perder tempo a refazê-lo pois o tempo de que disponho já é muito escasso para fazer os estudos que desejo empreender;
2ª Porque o estilo espontâneo e vivo, juvenil, do livro me parece também interessante e hoje já me não era possível reproduzi-lo, desde que entretanto evoluí [?] e amadureci;
3ª Porque é necessário que tal ensaio se publique e fique registada a data da sua elaboração, pois muitas das ideias expostas só podem revelar o seu verdadeiro alcance quando confrontadas com as correntes na sua época e com a evolução posterior (isto é, pós-1954) do cinema, da filmologia, da estética geral e da própria linguística geral. Talvez se possa interpretar isto como “vaidade”, mas trata-se dum facto que me parece bem objectivo (pelo qual, aliás, devo dizê-lo francamente, não tenho qualquer espécie de vaidade ou de orgulho…) e que se torna necessário para avaliar o que representava, no Portugal de 1954, o esforço teórico dum estudioso isolado e desamparado, sem qualquer apoio de espécie nenhuma (antes pelo contrário) e apenas sob a inspiração inicial da obra de Eisenstein, dos filmólogos franceses Cohen-Séat e Étienne Souriau e do grande pensador português que se chamou Abel Salazar.
Cumprimentos e um abraço do amigo sempre à sua disposição,
Gonçalves Lavrador
2.
Aveiro, 28 de Abril de 1974
Meu caro Fonseca e Costa:
Como sabe (deve ter recebido o número do jornal), publiquei um pequeno artigo sobre “O Recado” em “O Comércio do Porto” (Página “Tela e Palco”). Todavia, prometi nessa altura a publicação dum estudo mais extenso e aprofundado sobre o seu filme. Para isso, precisava, contudo, de o ver segunda vez. A oportunidade surgiu, finalmente, numa sessão do Clube Português de Cinematografia, cineclube do Porto. Fui convidado para orientar um colóquio sobre a película no dia 2 de Abril p. p., na sede daquele cineclube. Coligi então uma série de apontamentos em que analisava “O Recado” com maior detalhe e profundidade e em que fazia longas citações dos diálogos que teve a gentileza de me fornecer. O colóquio realizou-se e, no fim, a assistência pediu-me para publicar esses apontamentos. Como o cineclube não o podia fazer (por falta de verba, esclareceu Alves Costa) foi combinado que os enviasse à “Vértice” a qual editaria uma separata, ficando o Clube Português de Cinematografia com um certo número de exemplares. De acordo com esta decisão, já enviei para a revista de cultura e arte de Coimbra os meus apontamentos, depois de passados “a limpo”. Contudo, seria interessante acompanhar o artigo com uma ou duas gravuras de enquadramento do filme. Como não possuo nenhuma fotografia que sirva para tal, peço-lhe o favor de fornecer à revista “Vértice”, com essa finalidade e o mais depressa possível, duas ou três fotografias de “O Recado”, se as tiver ou se de qualquer modo, as conseguir obter. Desde já lhe agradeço este favor.
Para não se perder tempo, julgo que o melhor seria que o meu amigo entrasse em contacto directo com a revista, cujo endereço é:
VÉRTICE
Revista de Cultura e Arte
Rua das Fangas, 55-A 2º
Coimbra
Cumprimentos do amigo e admirador sempre à sua disposição,
Gonçalves Lavrador
3. Texto (carta) de Jorge ?
Los Angeles, 26 de Novembro 1980
Amigo Zé
Cá estou pelas terras americanas, muita poluição algum sol e nenhum ouro.
Tenho-me sentido optimamente por estas lados, para isso, tem contribuído o facto de cada vez gostar mais de frequentar o A. F. I.
Acabei ontem de montar o filme, tem no total 16 minutos, e é uma merda. (é longo demais e “chato”)
Passo a explicar. Nós aqui temos apenas, 3 dias para filmar e 3 dias para montar.
O problema do tempo de rodagem é parcialmente “aliviado” porque levantamos o material a uma sexta-feira à noite, assim, podemos filmar Sab. E Dom. No período de montagem, o problema não tem resolução, isto é, 3 dias a 10 horas por dia, no final, nem mais um minuto.
Assim, filmei dentro do prazo estipulado, com uma equipa de 6 pessoas (5 nacionalidades diferentes), e três actores.
A montagem também foi levada a cabo dentro do prazo, mas o filme ficou com dezasseis minutos, em vez de doze, o que o tornaria mais interessante e tenso.
Ficou aquilo que eles chamam um “inff-ent” e não o “final-ent” como seria de desejar.
Agora no dia 4 de Dezem. o filme é projectado para todos os alunos e professores.
Depois desta projecção começa o “sacrifício”, isto é, tenho que me sentar, com o produtor, frente a esta multidão, aproximadamente 60 pessoas, e ouvir as criticas.
É suposto neste “exercício” o realizador não “falar”, quero dizer, “explicar” ou “defender” o filme, toma-se por básico o princípio que todas as explicações e defesas devem estar no próprio filme.
Até agora já foram projectados 18 filmes, 11 dramas e 7 comédias, o melhor, na minha opinião, foi uma comédia.
Alguns destes filmes, são bastantes interessantes.
As criticas de um modo geral são duríssimas, ainda que, na minha opinião, são feitas de um modo extremamente construtivo e saudavel.
Evidentemente que é um bocado duro para quem está lá sentado.
O último filme que foi projectado, o realizador no final era própria imagem de abatimento, porquê? porque o tipo fez um filme de 20 minutos, e o que é facto é que ninguém percebeu nada, isto é, a história.
E os americanos quando não querem perceber, é o diabo.
Estas criticas, assim como todo o sistema didactico da A. F. I. assenta no principio, que fazer filmes é contar histórias, de gente “verdadeira”, “real” (as personagens) através de gente real (os actores) e com obrigação de atrair audiencias, enfim o classico cinema americano.
Filmes de “arte”, “intelectuais” ou de “ambiente”, desconhecem, dizem que não percebem, e que o público não gosta.
A U.S.C. tambem assenta todo o ensino de cinema nesta visão, um filme, é um “SHOW BUSINESS”, talvez possa vir a ser mais qualquer coisa, mas é depois…
O dificil aqui, a nivel de estudo, porque o mais trabalhoso é produtor. De facto, ser produtor nestas terras é só para alguns.
É suposto o produtor dominar todos os estádios, no sentido de profundo conhecedor, “script”, realização, produção, distribuição e lançamento
Este negócio aqui, tem dois pontos vitais.
O “script” onde tudo começa e distribuição onde tudo acaba (bem ou mal).
O “script” porque é a base “real” possível, a distribuição porque nenhum produtor por mais independente que seja não faz um filme ser ter contratos de distribuição com um estúdio (as grandes distribuidoras), isto é, sem ter vendido o filme, (falo como sabe de longas-metragens de ficção).
O curso de “screen writing” é interessantíssimo, mas infelizmente, não posso aproveitar completamente, porque é-me impossível escrever uma sinopse que seja, em Inglês, sem dar erros, o que seria hilariante senão trágico.
Aqui na América é difícil, um exemplo: Este ano a A.S.C. (directores de fotografia) recebem à volta de 3.000 candidaturas para novos membros, aceitaram 8.
O ritmo de trabalho é intenso, agora começo a filmar no dia 9 de Fevereiro, o que quer dizer que tenho que dar o “script” ao produtor o mais tardar 15 de Janeiro, e ainda não tenho ideia do que vou fazer.
Entretanto agora que lhe mando estas desalinhavadas e parcas noticias, mande-me noticias, aí do remansoso rincão natal. Televisões, Film — [?], espanholas (?), sócios(AH) (AH) e demais elementos da opereta.
Gostaria de ter noticias do Kilas, datas de lançamento, etc…
O filme “O outro” penso podê-lo enviá-lo até ao Natal, vou tentá-lo vê-lo aqui. Hoje estou convencido que aquilo não é exibivel, devido à sua falta de qualidade, deve ser visto apenas como um filme de “estudante”, mas como disse não voltei a ver o filme e pode ser que estas considerações sejam erradas.
Um abraço do
sempre amigo
Jorge
4.Texto (carta) de Reynaldo Varela
(Angola, ? – Rio de Janeiro, 1995) – Os pais são de Ponte de Lima. Foi jornalista, realizador e produtor de TV. Trabalhou ao serviço da RTP durante 34 anos. Desenvolveu o seu trabalho em Portugal, Angola e Brasil, onde foi correspondente da RTP. Autor de grandes reportagens.
– “Ponte de Lima em 1963”, in Ponte de Lima Cultural. Portal de Promoção e Divulgação do Património Cultural de Ponte de Lima
Rio, 12/10/1977
Caro Zé
“Aquele abraço”, Saravá[3] e tudo de bom para ti. Uma dose igual extensiva ao Fernando Lopes.
Bicho. Aqui chegou o verão. As menininhas estão agora mais descascadas e assim a gente consegue ter um pouco mais de alegria de viver. Entretanto, como diz o Chico, “a coisa aqui está preta”, ou melhor, continua preta. Mas como Deus é brasileiro cá vamos cantando e rindo carregando a nossa fé.
Eu, Zé Manel e Galveias já tivemos bastantes papos com o Ruy Guerra sobre o teu caso. Assunto Dina Sfat o Ruy falou com o Paulo José e nada feito. Dina está no momento a fazer teatro (Seis personagens à procura de um autor) e assinou contrato com a TV Globo para uma novela a gravar em breve. Entretanto o Ruy sugere, a Sonia Braga, o Lima Duarte e o Armando Bogus que talvez estejam em Lisboa em Novembro contratados pelo Vasco Morgado. Claro que não está ainda confirmada esta ida a Portugal. Vou tentar ainda falar hoje com o Galveias e qualquer outra novidade deixo para o final desta carta. Assunto Chico o Ruy também falou com ele e no momento está super ocupado. Entretanto o Ruy gostaria de saber se dá para aguentar até janeiro ou Fevereiro (aí o Chico talvez arranjasse um tempo disponível) ou se precisas da música já. O Ruy sugeriu ainda que caso já tivesses uma música seria mais fácil o Chico pôr só a letra. Num desses papos e com referência à atriz eu e o Coelho ainda chagamos a sugerir a Itala Nandi mas creio que o Ruy tem uns problemas com ela. Ele disse que tu também a conheces. Como acima disse ainda vou bater hoje um papo muito sério com o Galveias pois sei que ele falou contigo ontem pelo telefone (por causa desse telefonema seguramos mais um rabo de foguete) e pode ser que tenha mais novidades para contar. Acho que devias bater um telefonema direto para o Ruy Guerra para ele ver estes assuntos.
Quanto ao livro “O que diz Molero” o Oliveira Pinto mandou-nos um exemplar e achamos sensacional. Bola p’rá frente rapaz.
Assuntos “Demónios” em São Paulo está tudo OK e a fita entregue no Museu de Arte Moderna. Dias atrás o Jaime Conde (da Secretaria de Estado de Emigração no Rio) comunicou-nos que o Consulado de S. Paulo tinha recebido uma cópia dos “Demónios” e que não sabiam o que fazer ao filme, pois não tinham recebido instruções. Chegamos a pensar que fosse uma cópia fantasma voando por aqui e alertamos o Jaime Conde para que ao fim de um tempo (caso as instruções não viessem) a cópia viesse para o Rio. Com o telefonema teu para o Galveias o assunto ficou esclarecido e ontem mesmo se falou com São Paulo e a cópia entregue ao M. A. M. Entretanto fazemos uma pergunta que espero não deixes sem resposta. Essa cópia fica no Brasil ou o próprio Consulado devolve para Lisboa? E como é que esses caras aí mandam a cópia sem instruções para São Paulo?
A cópia que ficou com a gente já foi levantada na Cinemateca do Rio onde foi exibida a sessão especial com convites. Tão logo a recebi dei uma big revisão na mesma, que está riscada em algumas partes, com algumas colagens e que já não se apresenta tão nova como dizias. Creio que algumas cenas do filme foram exibidas no programa CINEMATECA da TV Educativa (nos disseram) e isso justifica os riscos e colagens pois sabemos como aqueles caras tratam os filmes. Entretanto (O Pinto sabe que nós gostamos de tudo certinho e bonitinho e que e termos de revisão de filmes ainda somos mais a gente) a cópia agora está super OK pois foi limpa, as colagens refeitas com durex especial que o Narciso nos manda etc. Na próxima terça feira e numa promoção nossa juntamente com os Serviços Culturais da Embaixada de Portugal vamos exibir o filme no Palácio de São Clemente em sessão especial com convites. Mandei uma lista para a Embaixada para eles convidarem a pato—da Embrafilme, TV Globo etc. Por sua vez a Embaixada manda convites para Centros Académicos, Professores Universitários e outros Colunáveis. Na nossa lista (os convites serão expedidos pela Embaixada) incluí também críticos de cinema. Depois te escrevemos e contamos como a coisa correu. Essa projeção (sem riscos e filme partido) nós garantimos.
O Oliveira Pinto e Narciso também nos mandaram na remessa habitual de jornais o “Diário de Lisboa” com o teu artigo “Os inimigos do Cinema português estão em todo o lado (até do nosso)”. Lemos, gostamos e LAMENTAMOS. LAMENTAMOS PROFUNDAMENTE que sejas obrigado a escrever um artigo desses. Zé. Escuta bicho. Diz a esses filhos da mãe QUE O POR DO SOL NÃO ACABA NO BARREIRO. QUE O MUNDO CONTINUA DALI P’RA FRENTE, QUE MIL E UMA TRANSAS ANDAM PELO AR E QUE COM ESSAS POLITIQUICES NÓS (TODOS) ACABAMOS PERDENDO. DIZ ISSO, GRITA, BERRA, E METE ISSO NA CUCA DESSES CARAS NEM QUE SEJA DA FORMA CUJA SUGESTÃO APRESENTAOS A SEGUIR:
imagem (um recorte colado)
Tu e o Lopes estiveram aqui, contataram com a malta e viram a explosão que vai ser neste país não tarda muito. São milhares de caras fazendo e querendo fazer cinema e uma explosão de juventude vem por aí. Tives-te [sic] um exemplo naquela noite no Opinião de como vai ser a coisa no dia em que soltarem a juventude deste país. Devias ter visto a zorra que foi no Teatro Ruth Escobar durante a leitura da peça “Calabar” com a presença de Ruy e Chico e que nós gravamos para uma próxima edição do Tropicália. Entretanto aí, a turma continua a fazer politiquices e como agora é inverno as coisas vão piorar. É isso aí bicho o cachecol aperta o pescoço e as ideias custam mais a subir à cabeça. Sabes be como nós estamos inseridos no contexto (êta chavão) deste país e o que queremos para o futuro das relações Brasil-Portugal. Mas qual vai ser o papel de Portugal no meio disto tudo? O Dias Gomes (agora trabalhando a peso de ouro no esquema Global) no seu regresso de Portugal talvez tenha visto tudo. «A “Gabriela” domina na Televisão, “Dona Flor” domina no cinema e “O Santo Inquérito” domina no Teatro. É isso aí minha gente. Portugal virou colónia do Brasil». Isto veio publicado (sic) no jornal o Globo. A gente só acrescenta (da nossa autoria): – Já dizia o Fernando Pessoa «“A minha pátria é a língua portuguesa” (só que com sotaque brasileiro)». E nem adianta fazer mais comentários porque senão isto não seria uma carta (à qual tentamos imprimir um pouco do saber carioca pois aí é inverno e isso põe as pessoas na fossa) e sim um relatório. Apenas temos e devemos de [sic] acrescentar que esta piada, (de nossa autoria, repetimos) é considerada por nós como de humor grego.
Os jornais daí noticiaram (e o “Globo” aqui deu enfase à notícia por conveniência claro) que em Portugal até o Alvaro Cunhal e o Mário Soares chegaram atrasados a compromissos pois não conseguem sair de casa sem ver a Gabriela. Pergunta aos milhares de estudantes de São Paulo, Rio e esse Brasil por aí afora se eles chegam atrasados às passeatas por terem estado a ver novelas, que aqui são o pão de cada hora. Pergunta. Pergunta também a eles o que é que essa turma esperava de Portugal e da sua mensagem cultural pós 25 de Abril. Pergunta da desilusão que estão apanhando. Enquanto isso alguém (muitos) não estão dormindo no ponto e entrando de fininho naquilo que por direito Portugal deveria ser cabeça de ponte. Ou seja, o ponto de partida, o elo maior, da divulgação da cultura portuguesa no mundo. A propósito, o folclore continua a ter aqui muita aceitação no seio da colónia portuguesa no Brasil, porque o resto eles nem cheiro sentem.
Com todos os defeitos (e tem muitos) a Embrafilme tem à sua frente um cara como o Roberto, ou seja, um cara que abriu as portas à turma quer de direita, quer de esquerda. Áplaudidos por uns, combatidos por outros, os caras vão fazendo cinema. Coma a grana da Embrafilme tanto um Zelito Viana faz a “Morte e Vida Severina”, como um Rosemberg faz “Assuntina das Américas” (proibido no Brasil como um Rovai faz a “Viuva Virgem”. Tem muita política e politiquices no meio mas a turma faz e trabalha cinema. Quase cem por cento. E nós? Para o Mercado Comum do Filme vamos levar filmes ou politiquices?
Escuta Bicho. Faz uma superprodução baseada no folhetim TIDE e vais enriquecer em Portugal. Para “O que diz Molero” creio que escolheste o país errado. Esse país efetivamente é muito pequeno é o país do PÁ. Olha pá, escuta pá, paciência pá, aguenta pá. Eu sou o maior pá. É tudo na base do Pá. Todos se conhecem, todos se comem. É uma espécie de bastidores dos Festivais da Canção da R. T. P. Um dia, pessoalmente, te conto essa piada feita por mim antes do 25 de Abril. Hoje continua atualíssima pois as mentalidades são as mesmas. Meu caro Zé sempre gostei de fazer piadas pois não quero levar isto a sério, nem quero que me tomem a sério. Espero ir aí em breve e soltar as minhas piadas em cima das pessoas certas, ou erradas, sei lá. Como te disse sempre gostei de fazer piadas. Aqui vai uma, da qual o O. Pinto riu paca. Naqueles que antecederam a saida do Carlos Cruz da R. T. P. quando o Pinto me disse pelo telefone que ele deveria ser substituido por um cara que era crítico literário, na mesma hora eu perguntei ao Pinto se a partir daí as pessoas em Portugal, antes de ligar o botão da TV iriam cuspir no dedo.
É isso aí bicho. É tudo uma piada.
Falei agora com o Galveias. Ele me disse que o Ruy Guerra te escreveu. Manhã vou tentar falar com o Ruy. Pelo Galveias fiquei sabendo que as informações que te dou no inicio desta carta estão atuais e mesmo em função do teu telefonema nada mudou. Mal recebas a carta do Ruy responde logo pois ele está de abalada para Moçambique. O Ruy é o cara ideal para tratar dos assuntos do teu filme aqui no Rio. Para a semana vamos estar com o Roberto e estou preparando um dossier para ele com recortes de jornais. Vou anexar também uma fotocópia do teu artigo de duas páginas no “Diário de Lisboa”.
No final deste mês o Zé Manel deve estar em Lisboa e baterá um papo contigo. Tenho pena de não ir também. O Zé Manel levará a cópia dos “Demónios”.
Espero que não deixes de tomar a tua dose diária de Gabriela. Aqui, como não tivemos a fartura de filmes que vocês viram e vêm aí, como ainda temos uma censura que trabalha não com uma tesoura mas com um alicate de pontas, a turma prestigia o que de bom aparece. No momento os dois filmes que estão faturando mais no Rio (tem filas (aí dizem bichas) na porta dos cinemas) são: – “O Enigma de Kaspar Hauser” de Warner Herzog e “Derzu Uzala” de Kurosawa. Felizmente que as novelas ainda deixam sobrar muita gente para ir ao cinema. Aí acho que o esquema é outro. E o 25 de Abril vai fazer 4 anos.
A carta vai longa. Um dia a gente bate um papo. Escreve rapaz e conta coisas. Apesar dos pesares e da falta de grana a gente cá vai cantando e rindo e vivendo para os amigos.
Esse sacana só pensa em ler o Expresso. Qual é o meu papel?
O
O
O
FOTO Abraços
Reinaldo
e
Zé Manel
MERCADO COMUM SÓ O EUROPEU E MAIS NENHUM.
Não esquece Zé. Mal de malandro é pensar que todo
mundo é otário.
O
O
O
FOTO
- Varela
Rio, X-77
[1] No original está “todas cinematografias”.
[2] No original, está, com certeza por lapso, “nesta filme”.
[3] Nesta transcrição aparecem muitos acentos que na digitalização original parecem não estar, mas de que, no documento original, se conhecem as marcas do ferro da máquina (das teclas de vários acentos). Há, porém, outros casos de falta de acento que mantemos conforme o original.
























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