10º ANIVERSÁRIO DO EPHEMERA – VENERANDO FERREIRA DE MATOS – CARTAS DA CADEIA DO FORTE DE PENICHE (1952-1955)

Venerando Ferreira de Matos (Coimbra, 17 de Fevereiro de 1926- Torres Vedras, 9 de Outubro de 1975) foi membro da Comissão Distrital do Mud Juvenil de Coimbra, pertencendo então ao PCP.

Em 19 de Abril de 1947 foi detido em Coimbra pela PIDE e enviado para Caxias em 26 de Maio, prisão onde permaneceu até 10 de Julho, saindo então em liberdade.

Voltou a ser preso em 29 de Setembro, libertado em 24 de Dezembro, ficando a aguardar julgamento.

É julgado no Tribunal Plenário de Lisboa em Julho de 1948, incluído no chamado “Processo dos 108”, e condenado a 18 meses de prisão correcional e a 3 anos de pena suspensa.

Vivendo já em Torres Vedras, toma conhecimento do acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 19 de Outubro de 1949, que lhe retira a pena suspensa e confirma a pena de prisão correcional, agravada com mais um ano de medidas de segurança.

 

Apresenta-se no Tribunal em 1 de Julho de 1952 para cumprir pena, ficando em Caxias até 8 de Julho, data em que entra em Peniche, de onde sairá em 23 de Junho de 1954, mantendo-se em liberdade condicional durante três anos.

É restituído à liberdade definitiva em 6 de Maio de 1957.



No seu arquivo pessoal encontra-se uma vasta correspondência dos tempos da prisão de Peniche, entre elas pouco mais de  200 cartas que, da prisão, o próprio enviou para a sua futura esposa, Maria Helena Costa Aspra de Matos.

Nesse vasto espólio podemos encontrar referências os gostos pessoais, na literatura, na música, no cinema, nas artes, as esperanças que tinha para quando saísse da prisão, assim como referências mais pessoais, mas são os aspectos sobre a vida na prisão que têm um maior interesse documental.

Convém, contudo, ter a noção de que essas cartas eram submetias à censura interna da própria prisão e nelas não se podia dizer tudo, principalmente o que fosse menos agradável.

Mesmo assim é uma documentação muito rica e inédita, da qual aqui apresentamos alguns excertos.


1952


31/7/1952

 

“Pusemos as camas cá fora, como é costume às 5ªs feiras. Uns leem, outros estudam, um outro lava a roupa (eu, de quando em quando, também a lavo – pois não!)

“O Sol está prestes a descobrir, e um galo de crista flamejante repete o seu cântico monótono a que outro responde.

“São 10 da manhã. Os muros que nos circundam têem úlceras que o salitre abriu; plantação rasteira num deles: Uma brecha, em um pedaço azul  de mar. O motor de um arrastão ouve-se ao longe. A “História da Civilização” em cima da minha cama, é desfolhada ao acaso por um golpe de vento, e fica numa folha que representa um camelo e as dunas de um deserto. Árabes sentados, de longas túnicas, olham, abstractos, um longe imaginário. Entre mim e eles existe uma certa correlacção : não é o camelo cansado nem as dunas onduladas. É o oásis…Eles, caminheiros perdidos, sabem da sua existência, e porfiam na sua procura; eu sei que ao sair, te tenho também! Oásis deste deserto sem carinhos que vislumbro para lá dos muros, que salta na crista das marolas e se repercute nas ondas do ar.

“(…)

“Fui informado que os Regulamentos não permitem troca de correspondência em  língua estrangeira, pelo que nos é vedado continuar com as nossas lições de inglês.

“Tal proibição é lógica. Sabido que todas as cartas são censuradas e se cada um lhe desse para escrever numa língua estrangeira não haveria possibilidade de controlar –pelos serviços de censura- toda a correspondência que é remetida”.


1953


28/3/1953

“Contráriamente o que julgas as cartas que vêm com as encomendas não são entregues logo, mas sim no dia seguinte, pois elas têm de ser censuradas.

“(…)

“Às vezes ouço um rádio, ao longe. Este mês, porém, tenho aqui no andar de cima a criada que trata dos miúdos ao Tenente da Guarda que está a par de toda as canções da voga. E por sinal, além de bom ouvido tem uma voz muito regular. Canta “a mala” (olha a mala, olha a malinha de mão) e que diz que não é dela é do “hidrobião”…O miudito mais pequeno, está a palrar à janela: blébléblé.

“Passa um gato e um companheiro com uma bilha na mão. A noite vem descendo aos poucos, e as estrelas já deviam ter feito a “toillete”. Vão aparecendo aos poucos também, aos ramos, formando figuras geométricas, cruzes, quadriláteros, reticências. As “ursas” lá vêm (a grande e a pequena) fazer companhia a Vénus que, nem por não ser estrela, deixa de ter um brilho tão lindo como os olhos de uma “saloia” torreense dos nossos conhecimentos”.

15/7/1953

“Já sai algumas vezes para tratar dos dentes. Amanhã, 5ª feira, é o ultimo tratamento. Da ultima vez que sai vi na varanda de um colégio ou escola comercial o professor de contabilidade que esteve aí em Torres durante muito tempo. Conhece-lo por certo. Olhou para mim, muito admirado, e eu, na falta de melhor, sorrir. Sorri e continuei. No retorno, ainda mal refeito da primeira surpresa, dei de caras com o irmão da Celsa, chefe ou sub-chefe da secção de Finanças aís de Torres. Ia com a Esposa e deu-me as boas tardes gentilmente. (…) O mundo é pequeno. Toda a gente se conhece  e se encontra.

“Na sala de espera muitas pessoas. Ao canto uma rapariga nova fazendo tricot. Um casaquinho amarelo, muito pequenino, tomando forma à espera do miúdo prestes  nascer. Um camponês queixando-se da vida; e um pescador a relatar os dias que ficou sem dormir por causa duns dentes cariados. Eu a um canto, guardado à vista, a servir de pasto aos olhos curiosos duma miúda muito esperta que, de vez em quando, me lançava uns olhares medrosos. Regresso. E de novo a sensação dos portões que se fecham, da vida que ficou lá fora, dos dias que passam e jamais se podem recuperar. Estou desejoso de acabar estas saídas que só trazem tristeza, pensamentos lúgubres, e uma dolorosa saudade de ti, do emprego, desse movimento de vila de primeira classe a fingir de cidade, do meu quarto modesto e da minha vida toda destroçada”.


20/9/1953

“Aqui já começou a “invernar” com força. Tem chovido muito e as nuvens baixas dão um tom acinzentado às pessoas, aos pensamentos e às coisas.

“Ontem, no entanto, o dia conservou-se bom tendo começado as festas  da vila com foguetório, gaiteiros e circo, barracas de tiro, etc. À noite houve a procissão no mar. Fomos autorizados a assistir no fim da rua ao cortejo. Trepou-se a bancos e dali assistimos ao espectáculo bastante interessante. Os barcos todos iluminados dos quais era lançado fogo de artifício como se abrisse sobre a agua um chuveiro de estrelas – brancas, vermelhas, azuis, verdes- que a água reflectia a cintilar. Por alti-falante era transmitida musica […?] por um coral masculino. As traineiras no momento da partida fizeram ouvir as sereias que um rebocador com voz de “baixo” acompanhava de quando em quando. Um navio de guerra lançava “very light’s” verdes. Pela muralha do forte e nas paredes do porto agitavam-se archotes. A procissão saiu acompanhada por uma litania apropriada, largou o porto, deu uma volta o mar e retornou em fila indiana com o andor iluminado por um fogacho encarnado. Mais um “bouquet” [?] de lágrimas, novos apitos e os pescadores tendo dado forma ao misticismo que há em cada homem saltaram em terra e foram acabar a noite nos carrosséis, tabernas e barracas de tiro para, no  pino do inverno, rogarem pragas ao mar, às tempestade e à fome que se avizinha. É isto a vida: fogacho breve e luminoso, misto de fé e de raiva, esperança, esperança e muita esperança.

“Mas, confesso francamente: gostei!”.


1954


6/1/1954

“Sabes o que tenho ali numa caixa de fósforos? (…) Um “bicho doirado”! Uns companheiros que vieram de Cabo Verde traziam na bagagem, sem saber, alguns destes insectos. São lindíssimos. Têm o feitio dos cágados. Mas do tamanho das “joanhinhas”, e doirados. Por cima da carapaça usam uma casca transparente absolutamente redonda. Parecem um alfinete de gravata, em oiro. Pois meti um numa caixa de fósforos, mas fiquei indeciso: que diabo de comida lhes havia de dar? Como é um insecto e, de uma maneira geral, se sustentam de comida, à base de associar dei-lhe uma folha de laranjeira, uma casca de maçã e (não digas nada à tua tia) um bocadito de pera cristalizada!…

“Mas o sujeito, ou porque vinha cansado da viagem, ou porque estranhou o clima, está ali há já bastantes dias…a dormir. Encolhido, não se mexe; Parece morto. Hibernará? Aguentar-se-à até 14 de Fevereiro? Incógnita tremenda, esta, a da vida! Todos os dias de manhã vou vê-lo. Sei que está vivo pelo brilho do “vestuário”. Quando morrer, fica branco , segundo disse o companheiro que o trouxe. Mais uma vez se prova que os “doirados” são só possíveis entre as vaidades da vida. A morte…é branca. Tudo nivela!”.


13/6/1954

“Já só somos três no quarto. O meu parceiro de xadrez foi posto em liberdade. Faltavam-lhe quatro dias para acabar o tempo. (…) faltam-me, na pior das hipóteses, quinze dias (…)”.

“A miudagem acendeu perto da muralha uma fogueira para comemorar o Santo António. Como já estava deitado só via o clarão e ouvia, a par do crepitar dos ramos. Estoirar algumas bombas. E na vila havia foguetes também.  Enfim! Um Santo António muito barulhento e pouco convidativo. Estava frio e vento”.

“(…)

“São perto de 4 horas. Já vim do recreio. Estou esfolado num braço pois cai…a jogar o oquei! Não percebo nada daquilo e do lado em que jogo sabem logo quem perde!

“(…)

“Lá fora está o circo! Ouve-se daqui a musica sempre igual dos discos gastos e regastos. Mas é uma companhia. E alegra-se a gente de a ouvir. É sinal de vida. É alegria”.

 

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