10º ANIVERSÁRIO DO EPHEMERA – HENRIQUE GARCIA PEREIRA – RETALHOS DA VIDA DE UM PROFESSOR VISITANTE QUANDO NÃO ESTÁ A VISITAR

Henrique Garcia Pereira esteve em Fortaleza, Brasil no período da campanha eleitoral de Outubro de 2018. Este é o seu especial relato desses dias, original (muito original) e inédito.


RETALHOS DA VIDA DE UM PROFESSOR VISITANTE QUANDO NÃO ESTÁ A VISITAR

(Contensaios do Atlântico Sul)

Prolegómenos/

Se acordo da sesta e já não tenho de ir à Faculdade, procuro uma ‘atividade’ do meu (previsível agrado). Estas atividades podem ser de vários tipos: apresentação (e leitura) de livros, peças de teatro, derivas, filmes, participação em conferências, cantigas, exposições de arte, festivais, colóquios …

Nas páginas seguintes afloram-se fragmentos de algumas dessas atividades, acentuando o seu aspeto político, singular e irónico, e relacionando o que está a acontecer naquele momento com coisas passadas há mais ou menos tempo (evita-se tanto quanto possível a “Crónica de costumes,  as “Conversas com o leitor, os “Diários” os livros de “Autoajuda”, escritos por outrem).

Obviamente que vou sempre para as minhas atividades com o espirito (e os olhos) bem abertos, pronto a receber insights para enriquecimento pessoal (e coletivo, se houver posterior ‘transmissão de conhecimentos’). Vou sempre acompanhado de um caderninho onde escrevo as minhas impressões (mesmo na mais profunda das escuridões). Tenho caderninhos destes desde que me conheço, onde aponto as mais disparatadas ideias feitas frases (ou triviais frases feitas sem ideias, ouvidas na rua ou no Café, e dificilmente legíveis num contexto ulterior).  Estes caderninhos são os building blocks da minha escrita, e amontoam-se – sem qualquer ordem – no meu escritório.

Prefiro sempre andar nestas atividades by myself, para me poder perder à vontade (se for caso disso), e para não empatar ninguém com as minhas idiossincrasias. Por vezes, dou com alguém na minha vizinhança a olhar-me de través, e a dizer (em silêncio): “este gajo é maluco…”

Com a impunidade que a idade me confere em sociedades dominadas pela juventude, e farto de ‘manter um certo ‘civismo‘  durante toda a vida, é meu costume:

  1. Falar ‘portugabralisence’ sem qualquer vergonha em todos os lugares públicos onde devo intervir (como emissor ou interpelador)
  2. Interromper abruptamente um qualquer palestrante (que fica, em geral, intimidado pelo meu – aparente – gray power);
  3. Passar á frente do projetor do Power Point sem fazer aquela figura ridícula das pessoas que fingem abaixar-se, projetando uma sombra de corcunda sobre o ecrã;
  4. Entrar num recinto onde está a decorrer um “espetáculo” quando me apetece, sem fazer aquela figura ridícula de andar ‘pé ante pé’;
  5. Sair de uma sala a meio de uma qualquer exibição (e do meio de uma qualquer fila), sem o mínimo pejo em “incomodar os outros”;
  6. Visitar qualquer Museu ou Exposição sem ‘respeitar aquele religioso silêncio’ que um ateu não pode aceitar, por motivos de convicção antirreligiosa
  7. Troçar sarcasticamente de todo e qualquer ‘imprevisto’ que possa acontecer (por exemplo, um velho que cai da cadeira, o som que começa a dar aqueles uivos dilacerantes, o Power Point que deixa de funcionar, e que não se consegue consertar a murro)

TEXTO INTEGRAL

RETALHOS DA VIDA DE UM PROFESSOR VISITANTE

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