NOTÍCIAS DA INAUGURAÇÃO E DA FESTA NA COMUNICAÇÃO SOCIAL (2) – PÚBLICO

 


PÚBLICO

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Ao princípio da tarde deste sábado, a Ephemera inaugura o segundo armazém na baía do Tejo, no Barreiro, com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, da ministra da Cultura, Graça Fonseca, do general Ramalho Eanes e do presidente da Câmara do Barreiro. “Vêm como amigos”, esclarece José Pacheco Pereira, o criador do invento que, como reza o subtítulo da iniciativa, anda há dez anos aos papéis.

Porque é da nossa memória de que se trata. Em números avassaladores: 200 mil títulos de livros e brochuras, dezenas de milhar de jornais, outros milhares de cartazes, posters e imagens, mais panfletos, folhetos, tarjas, outdoors e emblemas, pins e autocolantes.

Tudo o redigido, desenhado, impresso, pintado em todo o leque da comunicação possível. Da revolta de um tosco cartaz às convocatórias uniformes das centrais sindicais de mais de 100 anos da nossa história está na Ephemera. Sob a fórmula de doação de documentos avulsos a 200 espólios organizados entregues à associação cultural: de Francisco Sá Carneiro a Vítor Crespo, de Nuno Rodrigues dos Santos a Sousa e Castro, de José Fonseca e Costa a Pedro Ramos de Almeida.

São seis quilómetros lineares de estantes e armários. Mas também há objectos cuja funcionalidade marcou uma época na nossa vida colectiva e é testemunho das mutações no país e dos avanços da sociedade civil portuguesa.

Tudo isto está concentrado em dois centros. O original, de seis casas e um armazém na Marmeleira e, desde a tarde deste sábado, nos dois armazéns no Barreiro.

A estes centros chega o material recolhido em Viana do Castelo, Porto, Lamego, Guarda, Coimbra, Figueira da Foz, Santarém, Lisboa – na livraria Ler Devagar do Lx Factory -, Barreiro e Lagoa, Luanda e Luxemburgo.

A cobertura continua com novos centros de recolha previstos para Viseu, Portalegre, Leiria e Braga. Uma verdadeira network que conta com o trabalho de 150 voluntários.

“O arquivo faz parte de uma cultura de papel”, afirma Pacheco Pereira, mas online estão publicadas mais de 24 mil pastas de documentação contendo 100 mil imagens e textos.

“Não lhe oculto que quero morrer”

A inauguração nesta tarde do novo espaço tem aliciantes. A Associação 25 de Abril enviou um espólio, ainda encaixotado e tapado por um plástico negro nesta sexta-feira, ao estilo de embrulho de prenda de aniversário. Em diversas vitrinas, há documentos, manuscritos, objectos e cartazes. São apenas provas do material recolhido nesta década.

“O único caminho, a revolta”, proclama um cartaz em vermelho escuro, desenhado e impresso para comemorar uma acção que, no entanto, falhou. A missiva é da LUAR [Liga de União e Acção Revolucionária, fundada por Palma Inácio, que fez luta armada contra a ditadura] e destinava-se a empapelar as paredes da Covilhã. A operação não teve êxito e os guerrilheiros não conseguiram o controlo da cidade, então importante centro fabril dos lanifícios, em Agosto de 1968. Mas consta da mini-exposição do armazém da Ephemera, no Barreiro.

Tal como o caderno de prisão de Caxias da militante comunista Fernanda Paiva Tomás, ou a recriação, em desenho do próprio a uns estudantes finlandeses, da fuga do Hospital de Santa Maria de Henrique Galvão. Uma fuga espectacular, em 1959, onde se encontrava internado e sob custódia da PIDE, a polícia política, por transferência da cadeia de Peniche.

A odisseia deste militar nascido no Barreiro que se refugiou na embaixada da Argentina em Lisboa e, depois, na Venezuela, é presságio de outra acção contra o regime de Salazar. O assalto, em 1961, liderado por Henrique Galvão, do paquete Santa Maria que os opositores portugueses e espanhóis rebaptizaram como Santa Liberdade.

Noutra vitrina estão notas manuscritas de José Magalhães, então militante do PCP, de uma reunião com Álvaro Cunhal com o Parlamento Europeu. E, curiosidade a que Marcelo Rebelo de Sousa certamente não resistirá, lá está o exemplar do relato das conversações do seu pai, Baltazar Rebelo de Sousa, então governador de Moçambique, com o Presidente do Malawi.

Em folhas A 3 e desenho de letras garrafais, uma senhora apelou ao fim do seu sofrimento: “Senhor Francisco, não lhe oculto que quero morrer antes de ficar cega.” É o espólio de um pedido de eutanásia, através do qual se prova que a memória não é coisa do passado, e que em política há antecedentes.

 

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