TIME OUT
A luta de Pacheco Pereira pela memória continua (e tem segunda casa no Barreiro)

Este fim-de-semana, a partir das 15.30, há festa para comemorar a inauguração do Armazém 2 (o primeiro abriu em 2018, na mesma rua). “Funcionamos de forma diferente”, afirma Pacheco Pereira, enquanto percorre os cantos ao armazém ainda em preparação para o evento de sábado. “Tudo começou pelo blogue Ephemera, começámos por receber espólios, ofertas e organizámos tudo”. O espólio de mais de 200 mil títulos, 25 mil periódicos e de mais de dez mil cartazes encontra-se repartido entre a Marmeleira, em Rio Maior, e o Barreiro, e não pára de crescer.

O novo armazém, gerido pela Associação Cultural Ephemera, funcionará com um pólo de documentação e de actividade cultural, à semelhança do primeiro naqueles terrenos. A inauguração terá patente a exposição “Coisas do Ephemera – Um Gabinete de Curiosidades Moderno”, que pretende “mostrar a diversidade dos fundos existentes e como eles se ligam entre si”. Há no arquivo perto de 200 espólios e colecções de cartazes, fotografias e objectos. Esta mostra, que será rotativa, tentará demonstrar a riqueza da curiosidade de quem a juntou, com o intuito de suscitar o mesmo sentimento no público.
Na última semana, conta Pacheco Pereira ao destapar uma lona preta empoeirada, a Associação 25 de Abril doou novos materiais que estarão em exposição pela primeira vez e que “complementam a colecção de 25 mil cartazes” relacionados com este período histórico. Uma urna do referendo catalão de 2017, doada pessoalmente pelo presidente da Generalitat, ou cartazes do Exército português a apelar à deserção dos membros da Frelimo, em Moçambique, durante a guerra colonial, serão outros dos objectos reunidos para a ocasião. Um copiógrafo Gastetner, ainda funcional, “usado na imprensa clandestina” lembrará a importância e o dever do jornalismo no desenvolvimento da sociedade.

O programa inicia-se com um concerto da Banda Filarmónica da Casa do Povo da Vila da Marmeleira e prossegue com a sessão comemorativa de inauguração, que contará com a presença de Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, e de outras figuras políticas. Às 22.00, George Silver e Camila Vale apresentam o espectáculo A Relatividade das Memórias, performance que é uma viagem pelo “multiverso das memórias aleatórias que compõem linguagens paralelas”. A festa e a música continuam noite dentro.
O funcionamento do Ephemera assenta na “base de 150 voluntários”, nota o fundador. “O que nos permite salvar muita coisa é esta rede de recolhas”, espalhada por 15 locais de todo o país e em Angola e no Luxemburgo. O arquivo-biblioteca celebrou dez anos de vida no ano passado e desde a sua criação que “anda aos papéis”, na busca incessante de preservar fragmentos de história do mundano.
Ephemera, Parque Empresarial da Quimiparque (Barreiro). A partir das 15.30, entrada livre.
LUSA
Arquivo-Biblioteca Ephemera aumenta capacidade com novo armazém no Barreiro
O Arquivo-Biblioteca Ephemera contará com um novo armazém, no Parque Empresarial do Barreiro (Setúbal), “vital” para aumentar a capacidade do projeto, mas ainda aguarda um novo enquadramento legal, disse à agência Lusa o historiador José Pacheco Pereira.
Atualmente, o Ephemera conta com seis quilómetros lineares de documentos, com mais de 200 mil títulos de livros e brochuras, milhares de periódicos, fotografias, discos, panfletos e cartazes e objetos que testemunham a história contemporânea, sobretudo portuguesa.
São fruto, em grande parte, de doações de particulares, anónimos, figuras públicas e entidades.
É no Barreiro que um grupo de voluntários faz a triagem e inicia o processo arquivístico de tudo o que lhes chega às mãos – seja de uma simples pasta com papéis seja o recheio de um camião TIR: “Qualquer coisa que entra está salva”, garantiu José Pacheco Pereira.
Entre caixas empilhadas, mesas de trabalho e estantes estão, por exemplo, doações de espólios dos políticos Francisco Sá Carneiro e João Soares, do realizador José Fonseca e Costa ou da antiga revista Mundo da Canção, doada por Avelino Tavares.
É durante a visita à imprensa – com as portas do armazém escancaradas – que Pacheco Pereira interrompe as explicações e exclama “Estão a chegar materiais!”, a propósito da entrada de um voluntário empunhando um cartaz, recolhido na manifestação que aconteceu na quinta-feira, em frente à Assembleia da República, por causa da eutanásia.
Uma pequena amostra da variedade do arquivo Ephemera estará exposta ao público no sábado, por ocasião da inauguração do Armazém 2, com a revelação de algumas doações recentes.
Entre elas está uma doação da Associação 25 de Abril e outra de uma mulher que documentou a deterioração física, por causa de problemas de saúde e onde registou expressamente um pedido de morte assistida. “Quero morrer antes de ficar cega”, lê-se nos papéis doados.
“Não é possível fazer a história contemporânea portuguesa sem vir aqui”, sublinhou Pacheco Pereira, embora admita que haja ainda desconfiança por parte de investigadores e académicos, porque o trabalho no Ephemera ainda é amador.
São seguidas as práticas mínimas arquivísticas e de conservação dos documentos doados, há um “embrião de departamento editorial”, e o historiador diz que a associação está aberta e disponível para avançar com mais protocolos de colaboração com entidades.
O que José Pacheco Pereira aguarda há vários anos é um enquadramento legal para potenciar o trabalho do arquivo.
“Queremos um enquadramento legal que combine a solidez patrimonial das fundações – tudo o que é privado passará para essa fundação -, com a flexibilidade das associações culturais sem fins lucrativos, para podermos usar o trabalho dos voluntários”, disse.
Segundo Pacheco Pereira, a inauguração do Armazém 2 do Arquivo-Biblioteca Ephemera, no sábado, contará com a presença, entre outros, do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, da ministra da Cultura, Graça Fonseca, e do antigo chefe de Estado António Ramalho Eanes.
Haverá ainda um programa de atuações entre as quais da Banda Filarmónica da Casa do Povo da Vila da Marmeleira.
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