FRAGMENTO DO ENSAIO INÉDITO DE MARIA MAFALDA VIANA SOBRE VASCO GRAÇA MOURA

 Maria Mafalda Viana, “V.G.M a 27 de Abril de 2020”

(…)

Numa altura em que as Metamorfoses de Ovídio continuavam a marcar presença entre as leituras da elite cultural europeia, e até porventura com mais força, compreende-se que um mito como o de Actéon, que é justamente o próprio Desejo, tenha uma presença tão segura na cultura do Renascimento. Por si só, o Diana e Actéon de Ticiano (uma das poesie, para Filipe II) irradia sobeja claridade pela largueza e à vontade do movimento com que o herói, ao levantar o braço a desocultar Diana, com o afastar do pano, parece até saudar as raparigas e, como isso, deixar mesmo desarmada a deusa e a tradicional fúria com que no mito castiga o herói caçador (metamorfoseando-o em veado e fazendo-o ser devorado pelos próprios cães), e cuja acção ficaria assim mais inibida. De facto, o Actéon de Ticiano apresenta-se com um passo de tal modo seguro que dificilmente acreditaríamos pudesse alguma vez vir a sofrer o castigo subsequente da deusa, como se veria posteriormente na Morte de Actéon. Na verdade, a segunda composição de Ticiano não desvaloriza a afirmação que, por si só, constitui Diana e Actéon e, pela minha sensibilidade, só supostamente apresenta a surpresa do herói…

Há outras obras importantes. Aliás, a este tempo, o tema da nudez (envolvendo naturalmente outros mitos) parecia ter a preferência de muitos artistas, de tão frequente que era, até também pela importância que então assume o estudo do corpo humano e a sua representação.

Mas só a obra de Ticiano é mais do que suficiente para mostrar como este mito está sobejamente entranhado na cultura do Renascimento, bem como as metamorfoses por que a esse tempo passara. O à vontade com que este Actéon nos interpela ao deparar, sponte sua, com Diana indicia a familiaridade do mito entre os círculos artísticos europeus. Na versão de Ovídio, porém, a que mais se disseminou e está na memória dos artistas, é muito claro que Actéon avista Diana não por sua vontade, mas porque isso lhe acontece, sem que ele tenha sido tido nem achado. O destino conduzira-o por caminhos cada vez mais recônditos na densa floresta e, a certa altura, de súbito, depara com Diana nua, a tomar banho, juntamente com as ninfas, suas companheiras… Quanto ao que é ou não justo, a fábula não se demove. Enfurecida, Diana vinga-se do pobre neto de Cadmo, transformando-o num veado que, posteriormente, diz Ovídio, se surpreendia vendo nas águas os seus cornos. Queria falar, mas não podia … e acaba mesmo por ser devorado pelos próprios cães que o acompanham na caça.

Em termos mais genéricos, é neste enquadramento artístico-cultural, que integra todo um conjunto de questões suscitadas em torno do mito de Actéon e aqui exemplifico com a conhecida obra de Ticiano, que V. G. M parece estar a introduzir o seu gracioso diana no banho. Mesmo ainda antes de o pensarmos equacionando a presença fundamental  deste mito em Camões – e em Portugal o mito tinha também forte presença, em testemunhos como os de Sá de Miranda, António Ferreira ou mesmo Duarte Resende (no Cancioneiro Geral) –, o conhecimento da referência de Ticiano é já bastante para que, à partida, sem grandes cuidados interpretativos,  esbocemos um sorriso, ao começarmos a ler este poema de V. G. M:

via diana
pelo buraco
da fechadura.
era jacuzzi?

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