EPHEMERA DIÁRIO (22 DE MAIO DE 2020): A TEORIA DOS TRÊS COGUMELOS

O ano de 1975 foi um ano de profundas alterações nas organizações de extrema-esquerda vindas da clandestinidade. A maioria dessas organizações era maoísta, sendo os trotsquistas muito minoritários e os anarquistas quase inexistentes. Mas, as organizações maoístas eram predominantemente estudantis e estavam muito divididas. Uma delas, o Comité de Apoio à Reconstrução do partido (CARPML), era mais uma tentativa vinda da cadeia, com origem nos presos da Frente de Acção Popular, em particular Francisco Martins Rodrigues, sem grande sucesso até ao 25 de Abril. Com a libertação dos presos, o CARPML, com um discurso de unidade e reunificação, começou a pressionar os vários grupos e a crescer rapidamente. Os que resistiram, ou entraram em crise ou dividiram-se ainda mais. O processo culminou em Janeiro de 1976 com a criação do PCP(R) e da UDP, que varreram quase todos os pequenos grupos, com excepção do MRPP, que esteve sempre à margem deste processo. Não vos aborreço com a chuva de siglas, que é fruta da época e a sua descodificação não é  assim tão importante.

Maria José Abrunhosa, então estudante de arquitectura na ESBAP, cujo espólio se encontra no ARQUIVO EPHEMERA, era dirigente da UECML no Porto e deixou notas extensivas sobre as reuniões ocorridas em 1974-6, e reflexões próprias sobre o que se estava a passar. Essas notas, fundamentais para a história deste período, estão cheias de desenhos , ilustrando o manuscrito. Este é um deles sobre a “crise” do PCP(ML), perfigurada no crescimento desigual dos vários cogumelos. No meio do ambiente rígido, moralista, sectário e pouco imaginativo destas organizações, isto era heresia pura. Por menos, foi gente expulsa.

 

 

 

 

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