MARIA MAFALDA VIANA – “TÁBUA RASA” (NO ESPÓLIO DE MAURÍCIO PINTO)

  1. Transcrição do Manuscrito «Tábua Rasa»:

 

“Uma festa na «Tábua Rasa» festejando o seu quarto aniversário

 

             Cremos que já não há ninguém, nos meios cultos portugueses, que desconheça a existência, em Lisboa, dêste núcleo cultural, que está dando uma nota de cultura, de graça, de espírito e de elegância no ambiente alfacinha descolorido e sorna.

             Começando, há quatro anos, por uma simples reunião de amigos, escritores e jornalistas, num modesto restaurante de S. Paulo, veio até agora, à guisa de bola-de-neve, agregando a si alguns dos nossos mais altos valores intelectuais, contando-se, entre outros associados, Afonso Lopes Vieira, Hernâni Cidade, Gago Coutinho, Matos Sequeira, Rui Coelho, Carlos Selvagem, Paço de Arcos, Joaquim Manso, Reinaldo dos Santos, o poeta brasileiro Ribeiro Couto, os directores do Instituto Britânico e do de Cultura Italiana, respectivamente George West e Gino Saviotti, o actor Assis Pacheco, o pintor Varela Aldemira, o arquitecto Cotinelli Telmo, o escultor Raul Xavier, etc.

             Os seus jantares literários mensais são sempre concorridíssimos, já de sócios já de convidados. Foi com um banquete que a “Tábua Rasa” celebrou há dias no lisboetíssimo Chiado o seu 4º aniversário, o qual decorreu com entusiasmo e estreita camaradagem dos 70 convivas sem que por isso perdesse o caracter intelectual que devia imprimir-se-lhe.

             Depois que o secretário geral do cenáculo, o nosso amigo e colaborador Dr. Cardoso Martha leu o expediente e fêz as apresentações oficiais, expondo a razão porque se não fizera esta comemoração no dia 10, data da fundação, usaram da palavra vários sócios, até que, por fim, o eminente escritor e académico Sr. Dr. Queiroz Veloso pronunciou uma brilhante e erudita conferência sobre um assunto da maior actualidade – a Normandia.

             Extintos os últimos aplausos que coroaram a optima lição do ilustre historiador, o Sr. Luis Keil, director do Museu Nacional dos Coches, disse algumas palavras sôbre as preciosas tapeçarias de Bayeux, que representam a invasão dos normandos em França, no século IX.

             O Dr. João Valério agradeceu ao Sr. Dr. Q. Veloso, depois do que alguns poetas presentes recitaram versos que foram muito palmeados.

             A próxima reunião ficou aprazada para o dia 10 de Julho.”



2. O manuscrito «Tábua Rasa»

Este manuscrito encontra-se entre um conjunto de muitas dezenas de cartas de Cardoso Martha, que integram o núcleo da Correspondência de Maurício Pinto, um republicano da Figueira da Foz e opositor ao regime de Salazar, cujo espólio faz parte do Arquivo e Biblioteca Ephemera. Estava dentro de um envelope timbrado da “Tábua Rasa”, cujo carimbo do correio está muito esborratado, o que impede a sua leitura. Além disso, o manuscrito não vem acompanhado de nenhum outro documento (por exemplo, uma carta a acompanhá-lo) que pudesse indicar uma data, algum contexto.

Mesmo chegando nestas condições, é possível situá-lo na primeira metade do século XX, porventura em 1944, na medida em que ali se fala da Normandia como um assunto “da maior actualidade”.

Apesar de integrar o conjunto de cartas de Cardoso Martha, este ms. não tem a sua caligrafia. À primeira vista, desprevenidamente, parece ser a sua, até porque se encontra entre as suas cartas e, de facto, a letra, que é da mesma época, tem algumas semelhanças com a de Cardoso Martha. Mas lido o documento mais em pormenor, percebe-se a caligrafia não é a sua. Por outro lado, o texto também parece não ser da sua autoria. Pelo menos Cardoso Martha é referido na terceira pessoa. No envelope endereçado a Maurício Pinto, a caligrafia é de Cardoso Martha.

O texto, com o aspecto de uma notícia que terá saído em algum periódico, relata um jantar de um círculo literário com o nome “Tábua Rasa”. Trata-se de um Cenáculo Artístico e Literário cuja existência se situa entre 1939/40 e 1985[1]. Em vários jornais regionais, mas não só, foram publicadas notícias sobre outros jantares deste Cenáculo em diferentes datas. Actualmente, na internet, é possível encontrar, pelo menos, uma boa meia meia dúzia de notícias deste tipo de entre as décadas de 1940-1970, saídas em jornais nacionais como o Diário Popular, ou noutro tipo de publicações como o boletim Olisipo, a Gazeta dos Caminhos de Ferro ou o Jornal Feminino. Será, portanto, muito plausível que a notícia em rascunho neste manuscrito tenha sido publicada em algum lugar, por volta de 1944.

Apesar de a caligrafia não ser a de Cardoso Martha, não é de estranhar encontrar este manuscrito entre as suas muitas dezenas de cartas dirigidas a Maurício Pinto, pois ele foi um dos grandes entusiastas e dinamizadores deste Cenáculo lisboeta. Por outro lado, muitas das suas cartas a Maurício Pinto testemunham bem o seu movimento em Lisboa em torno de iniciativas culturais, muito para além daquilo que lhe era exigido no âmbito da sua actividade profissional, e até uma certa felicidade semelhante à que transparece no texto do Manuscrito Tábua Rasa. O texto poderia perfeitamente ser da autoria de um amigo ou de alguém do meio jornalístico que lho enviara para publicação.

O texto é contextualizado entre o desembarque dos Aliados na Normandia em 1944 e um certo marasmo cultural que, aparentemente, se vinha vivendo em Lisboa e a que esta tertúlia parecia desejar pôr termo, com “espírito” e “elegância”. Lemos o manuscrito e, mesmo se ele não nos devolve um “ambiente alfacinha descolorido e sorna”, porque sugere uma certa alegria e vivacidade no ar, todavia parece talvez inibido de ir além daqueles “espírito” e “elegância”, manifestamente insuficientes quando o que está em causa é a vida cultural plena de uma cidade que é a capital de um país.

Neste tempo próximo do desembarque dos Aliados na Normandia, porém, parecia haver uma alegria e esperança no ar.

[1] Veja-se o título da obra com edição da responsabilidade da Tábua Rasa, MANUEL GUIMARÃES, História da Tábua Rasa – Cenáculo Artístico e Literário 1939-1985, Edição Tábua Rasa, 1985. Por outro lado, no próprio texto do ms. há alusão aos começos destas reuniões “há quatro anos”, o que permite situar os começos em 1940, aproximadamente. Em 1986, o “Cenáculo Artístico e Literário Tábua Rasa” deu lugar à “Academia Literária e Artística Tábua Rasa”. Cf. Documento com o código de referência PT/SGMAI/GCLSB/H-B/001/04221; Caixa 316, da Divisão de Documentação e Arquivo da Direcção de Serviços de Documentação e Relações Públicas.

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