CRISTINA LOPES – HÁ CEM ANOS

 

Ilustração Portuguesa 1 jan 1921

Questões centenárias

 

Em 1 de Janeiro de 1921, a revista “Ilustração Portugueza” abre com um texto (Crónica da Semana) de Acácio de Paiva, à guisa de editorial, onde este autor analisa a situação política e económica da época, dando conta de diversas preocupações que, um século depois, continuam a merecer atenção.

Poeta, prosador e jornalista, Acácio de Paiva (1863-1944) colaborou em vários jornais, revistas e outras publicações, nomeadamente “O Século” (e a revista semanal deste jornal onde publica o texto que transcrevemos), “Século Ilustrado“, “Diário de Notícias”, “Notícias Ilustrado”,O Mundo“, entre outros. Para além da sua intensa atividade poética (publicou centenas de poemas com o pseudónimo Belmiro), também produziu várias peças de teatro, algumas delas em colaboração com outros grandes vultos intelectuais da sua época.

Esta Crónica da Semana inclui três abordagens: a primeira sobre as finanças, a política e a identidade nacionais; a segunda sobre as peculiares perspetivas de desenvolvimento comercial da aeronáutica em 1921 e, a terceira e última, um apelo à arte com uma nota de poesia e de esperança no novo ano.

Mas é na primeira parte que recai a nossa especial atenção. São as «propostas das finanças», ou seja, o equivalente ao atual Orçamento de Estado, o objeto da primeira reflexão do autor que, admitindo não tê-las lido (tal como alguns  comentadores nos media do século XXI), dá por certo que nelas haverá «coisas boas, coisas más e coisas medíocres» criticando os extremos de análise, que considera ser «um dos nossos maiores defeitos». Trata-se, para o autor, de uma questionável noção de identidade nacional na qual «tudo no nosso país (…) há de ser necessariamente o pior ou o melhor que há?». E remete para uma comparação com a instabilidade em Espanha (então num derradeiro esforço para manter o protetorado de Marrocos e prestes a sofrer a ditadura de Primo de Rivera), para sublinhar que «onde o ouro abunda, não abunda o bem estar» e concluir que as exceções às regras estabelecidas são tantas que esse conjunto de normas não poderá ser considerado como ciência, sobretudo no que se refere à Economia Política, uma «estopada» que o autor se recusou a estudar sem que isso o impeça de «dar sentenças económicas como outro qualquer.»

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ENTRAM pelo novo ano, formidáveis e ameaçadoras, as propostas de finanças, contra as quais muito se tem escrito e falado e a favor das quais também muito se tem falado e escrito pouco. Para uns, como já notou um lucidíssimo português, possuidor de rara e admirável visão crítica, elas são péssimas; para outros, são óptimas.

Nesta facilidade de só considerarmos os extremos, nesta rapidez de apreciar, que não deixa tempo para a reflexão, consiste um dos nossos maiores defeitos, tantas vezes apontado mas até hoje não remediado. Pois tudo no nosso país, em arte, em política, seja no que for, há de ser necessariamente o pior  ou o melhor que há? De tal modo de ver  resulta, fatalmente, o fracasso de todas as iniciativas e de todos os propósitos louváveis.

Deve haver nas propostas de finanças havemos de lê-las um dia, para verificar se nos enganámos coisas boas, coisas más e coisas medíocres. Que as más são em excesso, parece evidente; que as medíocres não devem figurar, como aquelas, em medida de tal natureza e de tal alcance, afigura-se-nos absolutamente necessário; mas, que demónio, deixem ficar o que for bom e cessem duma vez para sempre estes excessos, que só criam desânimos. No caso presente é provável que apenas seja boa… a intenção do ministro. Pois bem: deixe-se- lhe intacta, e para glória e satisfação de todos bastará, conservando-se do sr. Cunha Leal consoladora memoria, traduzida pelo conceito – que se bem não fez também não foi prejudicial.

Nem de todos os estadistas se poderá dizer outro tanto.

SE nós não entramos com o pé direito no 1921 e se o mal alheio serve de algum alivio ao próprio, podemos consolar-nos com o espectáculo doutros países.

Na nossa vizinhança, para não irmos mais longe, o ano velho despede-se à bomba e o novo salva com igual ruído, prometendo seguir as pisadas paternas, que deixaram rasto sangrento, o que assombra os menos conhecedores das complicações sociais, porque não compreendem que onde o ouro abunda, não abunda o bem estar, antes a riqueza produz ali os efeitos a que a pobreza dá causa noutra parte. Essa riqueza e essa pobreza serão aparentes e não reais? Serão falsas ou não existirão as leis que nos ensinaram e semelhante conjunto de normas, se o são, não merecerá a classificação de ciência, como muitos asseveram? A verdade é que falham a cada instante as consequências derivadas de bases que se julgariam inabaláveis e que as excepções às regras são já tão numerosas que os lentes da especialidade se veem em embaraços para não confessar que a Economia Política, uma das maiores estopadas das nossas universidades, não passa duma balela, imprópria da atenção de pessoas de juízo.
Agora que ela parece ter entrado em falência, podemos confessar um antigo pecado: nunca a estudámos, por maiores que tivessem sido as diligências empregadas pelo respectivo professor, o que não nos impede de dar sentenças económicas como outro qualquer.

UMA novidade que, segundo um telegrama de Londres, nos trará o ano de 1921 será a adaptação da aeronáutica a efeitos comerciais, para o que se vão já fazer corridas de ensaio em direcção do Egito e ao Báltico, com alguns aviões ingleses e «zeppelins» alemães, que foram entregues à Inglaterra.

Supomos que se não trata de estabelecimentos aéreos, de venda, posto que estes não devem tardar, esperando apenas que se descubra o meio de imobilizar as aeronaves no espaço, porque não seria cómodo para o público afreguesar-se numa loja que mudasse constantemente de situação. Posta de parte esta hipótese, restam-nos poucas mais: a de se transportarem dessa maneira mercadorias com mais rapidez do que por linha férrea, a de se poderem lançar do alto anúncios e reclamos e a de se facilitar o rápido afastamento de açambarcadores e outros negociantes, que aproveitam a crise actual para ganharem num dia o que dantes ganhavam num ano, quando os clientes pretendessem chegar-lhes a roupa ao pouco respeitável pelo.
Esta última suposição, porém, deve igualmente ser afastada, porque os da lembrança são ingleses, o que não significa que aos portugueses ocorresse, porque aqui a traficância medra com geral agrado.

…MAS nem só sombras envolvem o nascimento de 1921, antevê-se um clarão de luz suavíssima e essa vem, como quase sempre acontece, do céu claro e azul onde a Arte brilha como estrela de primeira grandeza. Vem dos versos duma poetisa, que está para publicar o seu primeiro livro, «Namorados», a sr.ª D. Virgínia Vitorino, revelado no «Século», edição da noite, em justas palavras, das quais destacamos as seguintes:
«É um livro bem português pelo sentimento, pela candura , por essa deliciosa melancolia que o enche, até naqueles versos que pretendem ser alegres e traduzir um alvoroço que logo um receio ensombra ou uma esperança que a mais ligeira dúvida perturba.»
E para que o leitor receba o novo ano com uma impressão carinhosa e doce, pomos ante os seus olhos esta maravilha de ternura, que transcrevemos da mesma notícia:

Não venhas ver-me, não. De que servia?
Nem eu tenho coragem para tanto.
Gostava muito, é certo, mas o encanto
da tua grande ausência, acabaria.

É tornar a perder-te. Um certo dia
tu partes novamente e, todo o pranto,
ou pouco ou muito não importa quanto
nunca o compensa um hora d’alegria.

Mas se eu não posso ter outro desejo!
Se eu, não te vendo a ti, nada mais vejo!
Como é que, sendo assim, não te hei-de ver!

Responde-te a minh’alma comovida:
Vale mais ter um mal por toda a vida,
Do que alcançar um bem para o perder.

Bibliografia

Paiva, A. (1 de Janeiro de 1921). Crónica da Semana. Ilustração Portugueza, II Série, 772.

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