EPHEMERA DIÁRIO (2ª SÉRIE) – A D. MARIA CLARA E A D. SORGE (18 DE JANEIRO DE 2021)

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A partitura que reproduzimos acima faz parte da colecção do EPHEMERA, que inclui várias canções de Maria Clara. Mas para mim é especial. O meu grande amigo de infância foi o Júlio Machado Vaz. Com ele trouxe a sua família, bem pouco comum, e que me influenciou muito, para chamar “influência” ao que é mais do que isso. Fico-me por sua mãe, Maria Clara, e avó, Sorge. Melhor D. Maria Clara e D. Sorge, a primeira que passava como uma nuvem e a segunda que enchia o mundo. Maria Clara era uma cantora conhecida, com grandes sucessos, incluindo nos anos 60,  e que, embora estivesse no fim da sua  vida artística activa, mantinha a tradição de fazer pelo menos um  espectáculo por ano. Tinha um pickup como deve ser e uma grande colecção de discos. Uma vez cantou-me Ó Zé  Aperta o Laço, coisa que não se esquece.

Mas a sua carreira musical nos anos 40-60 tinha muito a ver com a sua mãe, Sorge, que a levou para a Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, uma colectividade popular fundada no século XIX. O nome de Sorge era incomum, mas foi-lhe dado por seu pai em homenagem à “madame Sorge”, pioneira do feminismo, casada com o socialista amigo e correspondente de Marx e Engels, Friedrich Adolph Sorge. A D. Sorge, mais que republicana, era jacobina, nunca perdera as suas “origens” lisboetas e populares, e era uma força da natureza. Não gostava de perder a nada, nem sobre como Lisboa era melhor do que o Porto, nem às cartas, nem na vida, em que tinha grandes ambições para o seu neto, que queria ver Presidente como o seu antepassado Bernardino Machado. Sempre tive a vaga suspeita de que foi por isso que o Júlio se tornou psiquiatra.

(José Pacheco Pereira)

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