NOTAS SOBRE O ESPÓLIO DE MANUEL MACHADO (1934 – 2013)

 

O espólio, que nos foi entregue pelos seus filhos, é constituído por mais de duas centenas de pastas, a maioria das quais numeradas (há uma sequência completa de 162 pastas, iniciando em 1964 e terminando em 2000, assim cobrindo quase 40 anos de vida profissional), documentação relativa ao funcionamento do seu escritório de Advogado (incluindo a placa de rua) e materiais que terão servido de apoio ao exercício da profissão, como legislação e jurisprudência anotada, com essencial enfoque no Direito do Trabalho. Há ainda grupos de dossiers independentes, relativos a determinados clientes específicos, muito provavelmente avençados ou clientes regulares e com grande volume de trabalho.

Da análise que estamos a realizar das pastas, constatamos que ali se arquivam os dossiers individuais relativos aos casos que eram confiados a Manuel Machado e, no início, ao que terá sido o seu Patrono, Antunes da Silva. Nas pastas iniciais, Manuel Machado surge ainda como “candidato à Advocacia”.

A documentação até agora analisada é muito interessante, pois revela-nos com grande detalhe e vivacidade o tipo de assuntos que, na província, levavam as pessoas aos Advogados, no período temporal que cobre. Permite ainda apreciar as alterações que, quer o tempo, quer a consolidação da posição de Manuel Machado na profissão, provocam na sua prática profissional. Para além das questões de terras, nos anos iniciais já analisados são muito frequentes casos de difamação, agressões, investigações de paternidade, atentados à honra, acidentes de trabalho, muitos deles relacionados com a vida no campo (Manuel Machado seria advogado de seguradoras), nas obras ou nas indústrias locais e ainda negócios diversos. O fenómeno da emigração tem também aqui o seu eco.

A amostra sociológica é do maior interesse e, para um olhar do nosso tempo, muitas vezes surpreendente.

Encontramos também correspondência profissional com muitos Solicitadores e Advogados, alguns dos quais que mais tarde se vieram a tornar famosos, e com quem Manuel Machado aparenta ter uma muito cordial relação, extravasando o estritamente profissional.

A análise cuidada e atenta deste espólio, permite-nos uma visão muito impressiva da vida de escritório, do seu dia a dia, da sua burocracia, das suas práticas.

Completa esta “fotografia”, um conjunto de agendas pessoais de Manuel Machado onde encontramos a marcação de inúmeras reuniões e diligências judiciais e, de quando em vez, da sua vida social e política, ilustrando um activíssimo dia a dia.

Dada a natureza pessoal dos temas, ainda que passado muito tempo sobre a maior parte dos mesmos, o acesso a estes dossiers é reservado, e qualquer trabalho que sobre eles seja feito terá que assegurar confidencialidade, preservando sempre a identidade dos intervenientes.

Na documentação já analisada não encontrámos ainda qualquer traço da actividade política de Manuel Machado, também ela relevante.

Para além de Advogado, Manuel Machado foi presidente da Câmara Municipal de Tomar de 1973 a 1974 e Governador Civil de Leiria durante cerca de mês e meio, antes do 25 de Abril de 1974. Depois do 25 de Abril foi eurodeputado pelo CDS e vogal e secretário geral do Serviço de Utilização Comum dos Hospitais (SUCH). Era, desde 2009, membro da Comissão Nacional de Eleições.

 

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