EPHEMERA SPORT: Humor e futebol: as entrevistas imaginárias de Carlos Pinhão

“Hoje falamos de outro pequeno tesouro à guarda do Ephemera, na biblioteca do Núcleo Ephemera Sport. É o Entrevistas sem Entrevistado, da autoria de Carlos Pinhão (e por ele assinado com dedicatória) e publicado em 1968. O prefácio é de Raul Solnado – sendo, por si só, um bom prenúncio do que se segue – que lembra que Pinhão “usa o seu humorismo como arma para combater os extremismos, as paixões desmedidas, o fanatismo e a mediocridade”. Diz ainda Solnado: “Um dia que Pitigrilli acordou muito bem disposto e cheio de inspiração escreveu que o humorista é uma criança que atravessa um corredor escuro e assobia para ganhar coragem”. O autor deste livro é essa criança.

Dizer que Carlos Pinhão é um dos melhores jornalistas desportivos da história da imprensa portuguesa não será exagerado. Aliás, poderemos arriscar dizer que Pinhão foi um dos melhores escritores (mais do que jornalistas) da língua portuguesa, assim só, sem outros adjectivos, embora – quase por acaso – escrevesse, sobretudo, nas páginas dos desportivos de língua portuguesa. Cruzava o domínio da palavra escrita uma excelente veia satírica, o tacto para esse difícil género literário que é o humor e um sólido conhecimento do mundo do futebol e dos seus protagonistas, que humanizara até ao final da sua carreira, evitando a visão daqueles como semideuses. De certa maneira, é esse olhar humano, e por vezes mordaz, que fazia os leitores apaixonarem-se pela escrita de Pinhão.

Nascido em Lisboa em 1924, Carlos Pinhão cresceu na freguesia do Beato, numa família desafogada, sendo o pai diretor na Companhia Industrial Portugal e Colónias. Essa ligação ao seu bairro levou-o a manifestar a sua simpatia pelo Chelas Futebol Clube e pelo Oriental (resultante de uma fusão de clubes com o Chelas incluido), apesar da sua forte ligação vitalícia ao Sport Lisboa e Benfica. Passou por periódicos que marcaram o panorama português, como Mundo Desportivo e A Bola, mas também pelo Diário Popular ou o Século Ilustrado. Militante do Partido Comunista Português, os seus artigos e crónicas traziam frequentemente “água no bico”, com jogos de palavras que traziam críticas veladas ao statu quo e à autoridade, quer antes, quer depois de 1974. Foi a crónica uma das suas grandes obras e heranças, tendo quase reinventado e estabelecido esse formato nos jornais desportivos, raras ou nenhumas vezes igualado.

Um desse tipo de crónica foi a “Entrevista sem Entrevistado”, que mantinha a par de rubricas como o “Dicionário Desportivo” e, mais tarde, o “Hoje Jogo Eu!”. Esta “entrevista sem entrevistado”, como o próprio nome da rubrica indica, atirava o jornalista Pinhão para uma realidade alternativa ou imaginária em que os seus interlocutores (também, em geral, criados por ele) diziam exatamente o que ele queria. Eram entrevistados, talvez, inspirados nas personagens reais do mundo desportivo, permitindo assim caricaturar, como ele bem gostava, vários aspetos do futebol e dos seus artistas. Logo o primeiro “entrevistado” é o futebolista João (como dizia Garrinha, “um João qualquer”), que quer escrever o seu próprio livro de memórias, na senda de O Meu Nome é Eusébio, mas tem o problema de… ser um péssimo jogador. Após várias hipóteses, o seu escritor-fantasma propõe-lhe um título, muito apropriado por ser a antítese do craque da Mafalala, de O Meu Nome não é Eusébio. Seguem-se jogadores a fingir enfartes para fugir a autógrafos pois eram analfabetos, uma aventura do “Bom Gigante” José Torres (e do seu CD Torres Novas) em Badajoz, um extremo esquerdo que finta os adversários ao som de “olés” e acaba colhido pelos “touros”, um jogador que entra pelo irmão gémeo lesionado e marca, dirigentes sem qualquer vocação e treinadores que copiam livros lidos, entre muitos outros.

Os entrevistados e os temas atravessam os grandes grupos: os jogadores, os dirigentes, os treinadores e os árbitros. Por isso, também o humor se cruza com várias personagens, indo do delicioso nonsense da Académica a querer participar na Taça das Cidades com Feira por ter cinco feiras em Coimbra – segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira e sexta-feira – à proposta de um diplomata dirigente (a querer ser dirigente diplomata) de se instalar uma linha direta entre o Jardim do Regedor e a Rua do Passadiço, sedes de Benfica e Sporting, à imagem do telefone Washington-Kremlin.

Um livro quase desconhecido de um jornalista que marcou a escrita nos jornais, numa geração que dava, em cada pessoa, não apenas virtuosos da crónica desportiva, mas também escritores de enorme versatilidade, como foram Carlos Pinhão, Mário Zambujal, Dinis Machado, Alves Redol (que fundou mesmo um jornal desportivo em Vila Franca de Xira), entre outros. Os desenhos e a capa são de João Martins.”

(por Núcleo Ephemera Sport – João Santana da Silva)

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